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Fundador do PT, Plinio Mello é protagonista da história das lutas operárias no Brasil

 

 

1929. Plínio Mello vai para o Rio Grande do Sul, para levar as resoluções do II Congresso aos militantes comunistas gaúchos. Tem como missão entrar em contato com a Coluna Prestes e sair candidato pelo BOC em Porto Alegre. Nas eleições presidenciais marcadas para março de 1930, quando o BOC apresenta seus candidatos, Plínio Mello é um deles. Ele concorre a uma vaga no Congresso Nacional pelo Rio Grande do Sul.

"Fizemos várias demonstrações de rua, puxamos o proletariado das fábricas com bandeiras vermelhas. Isso deixou o Osvaldo Aranha, uma espécie de substituto do Getúlio Vargas, alarmado. Para acabar com aquilo, um oficial veio me procurar, a mando do Osvaldo Aranha, para um entendimento. Osvaldo Aranha, um sujeito muito insinuante, me disse: 'Como é, Plínio? Nós estamos aqui em frente única e você está querendo rompê-la? Que história é essa?'. E eu respondi: 'Nós não somos da frente única, somos contrários a ela, e contrários aos outros também. Não somos só contra a frente única, somos contra os dois. Não há por que falar na frente única, portanto'."

A Frente Única Gaúcha reunia então os dois grandes partidos do Rio Grande, o Partido Libertador e o Partido Republicano Rio-Grandense, e apoiava o nome de Getúlio Vargas como candidato oposicionista à Presidência da República. Na conversa, Osvaldo Aranha insistiu: "Mas você precisa estar em combinação conosco, Plínio". E insinuou uma hipótese de suborno. Nesse meio tempo ele disse que eu era um bolchevique e ele, um menchevique. Concluí, então: "É por isso mesmo que não temos possibilidade de trabalhar em comum".
Quinze dias antes das eleições todos os dirigentes do BOC no Rio Grande foram presos. Segundo Plínio, "forjaram um pretexto e mandaram prender todos, sindicalistas, estudantes e a mim. Fomos presos, levados para fora da cidade e barbaramente espancados".

Em entrevista ao jornal Folha da Noite, Plínio Mello relatou esse episódio em detalhes, responsabilizando diretamente Osvaldo Aranha, Getúlio Vargas e "a clique que os rodeia" pelo seqüestro e espancamento de militantes do Bloco Operário Camponês em Porto Alegre: "Em plena campanha da Aliança Liberal, quando se digladiavam as duas facções em que se dividiu a burguesia brasileira para a disputa do poder central, nós, os que nos encontrávamos à frente do movimento de organização do proletariado no Rio Grande, fomos vítimas de um atentado que bem define a mentalidade desses homens. Valendo-se da Frente Única que conseguiram impor ao povo gaúcho, comprando jornais e cerceando completamente a liberdade de seus adversários, seqüestraram nas vésperas das eleições de março, os principais militantes operários de Porto Alegre, assim como alguns propagandistas da candidatura Júlio Prestes. E depois de espancar barbaramente aqueles, isto é, todos nós, militantes operários, e de nos conservarem presos durante quase um mês - alguns assim permaneceram durante mais de dois meses! -, deportaram-nos também: os brasileiros, para outras regiões do país, e os estrangeiros, para fora do Brasil"1

1930. Após a prisão no Rio Grande, Plínio Mello refugia-se no Uruguai, onde entra em contato com o Bureau Sul-Americano da Internacional. Entre abril e maio de 1930, em Buenos Aires, participa da Conferência do Bureau Sul-Americano, na qual apresenta seu relatório sobre o PCB no Rio Grande do Sul. E acaba sendo testemunha do momento em que a Internacional Comunista resolve colocar a seção brasileira nos eixos, adequando-a à linha internacional. Confrontada com as diretivas formuladas na União Soviética no início de 1930, a linha política do PCB é violentamente atacada. Astrojildo Pereira e Octávio Brandão, os dirigentes do PCB presentes à conferência, se vêem obrigados a acatar as "críticas" e a adotar o curso ultra-esquerdista determinado pela Internacional Comunista a todas as suas seções. A adoção dessa nova linha, imposta de fora, degenerou no chamado obreirismo, isto é, a maioria da direção do partido deveria ser composta de "operários genuínos". Na verdade, isso foi um pretexto para o afastamento da antiga direção.

Plínio Mello retorna ao Brasil ainda em 1930. Com destino a São Paulo, se vê obrigado a passar uma temporada em Santos, pois a repressão policial se intensificava na capital do Estado. Numa reunião zonal do partido, em Santos, critica Astrojildo Pereira por ter assumido em bloco a linha dominante na Internacional. Pouco tempo depois, é expulso do PCB. Ele conta como foi esse processo:

"Sustentei, numa reunião de Zona, em Santos, que a orientação do partido não deveria ser tão esquemática que isolasse Prestes inteiramente. Prestes tinha grande influência no seio da pequena burguesia e, conseqüentemente, no próprio proletariado. A direção entendeu que eu estava sustentando uma tese condenável. Tentaram me expulsar, mas não conseguiram e tiveram que engolir a pílula na primeira reunião".

Astrojildo Pereira foi então convocado para Santos, com o objetivo de expulsar o "dissidente":

"Como era membro do Comitê de Zona, eu não podia ser afastado de reuniões. Numa reunião, Astrojildo fez uma demonstração de que eu defendia posições prestistas e até trotskistas, inclusive citando Trotsky. Eu disse que não era trotskista nem nada, mas não adiantou. Numa assembléia com doze pessoas (em que Astrojildo não tinha direito a voto, nem eu, porque estava no 'índex', cinco votaram para que eu continuasse no partido, lutando pelas idéias que defendia, e outras cinco votaram pela minha expulsão desde logo. Então, João Freire de Oliveira, um garçom que era o secretário da Zona, pressionou um operário das docas recém-entrado no partido, dizendo: 'Como é, camarada, você entrou no partido ontem e já hoje é contra o partido?'. Assim fui expulso".

Plínio não recorreu da decisão. Ele diz que não havia onde recorrer, pois naquela altura o partido tinha só o bureau: "Havia alguma coisa em Minas, em Pernambuco, mas estava praticamente restrito ao Rio de Janeiro".

Expulso, segue para São Paulo e, pouco tempo depois, se vê novamente envolvido com o PCB, durante o que se convencionou chamar de Revolução de 30.

"A revolução chegou vitoriosa e, por determinação dos tenentes, João Alberto tomou conta dos Campos Elíseos, que era a sede do governo paulista. Aí vieram o irmão dele, Luís de Barros, e Josias Leão, que foi embaixador, ambos membros do PCB. Luís achou que precisava fazer algum coisa, conseguir um decreto reconhecendo a legalidade do partido e responsabilizando a mim, ao Josias e a ele próprio por essa legalidade. João Alberto, que se considerava um pouco simpatizante, assinou o decreto, que foi publicado."

Plínio atribui essa legalidade às circunstâncias do período, já que a Revolução de 30 havia levantado o ânimo da população. A pressão da massa que fez com que João Alberto decretam a legalidade do PCB levou-o a elaborar outros decretos com o mesmo espírito, como o do aumento dos salários. "Quer dizer, era possível ter alguma esperança na provável legalização do PCB, desde que nós assumíssemos a responsabilidade. Foi marcada uma reunião convocando os comunistas que havia em São Paulo e alguns trotskistas, Lívio Xavier entre eles, para decidir que posição tomar. Lívio e outros achavam que não devíamos fazer aliança para legalizar o PCB por meio desse decreto. Concordavam, nesse sentido, com a orientação do partido naquele momento."

Alarmada, a burguesia de São Paulo pressionou Getúlio e João Alberto acabou sendo substituído no governo paulista. Ele foi para o Rio de Janeiro, como chefe de polícia do então Distrito Federal.

1931. Após a fugaz possibilidade de legalização do PCB em São Paulo, Plínio Mello se reaproxima de Mário Pedrosa e de Lívio Xavier. O grupo de comunistas que, em 1928, havia criticado a falta de democracia interna no partido ficara disperso por algum tempo. A unificação e reorganização desses militantes disperses vai ser obra de Mário Pedrosa. E Plínio estará ao lado do antigo companheiro.

Em meados de 1930, no Rio de Janeiro, organizou-se o Grupo Comunista Lenin (GCL). Com a adesão de significativo número de gráficos paulistas, o GCL dá um salto de qualidade e adere à Oposição Internacional de Esquerda, liderada por Leon Trotsky. Em janeiro de 1931, o grupo passa a se chamar Liga Comunista do Brasil. Entre seus fundadores estão João da Costa Pimenta, Rodolfo Coutinho (ambos também organizadores do PCB, em 1922), Mário Pedrosa, Lívio Xavier, Aristides Lobo, Benjamin Péret (poeta surrealista francês que vivia no Brasil) e Plínio Mello2.

Expulso do PCB, sem ter conseguido efetivar a legalização do partido no curto governo João Alberto, Plínio considera sua adesão à Liga como uma atitude mais pessoal do que política. Ele diz:

"A minha orientação natural era ir para o grupo do Mário Pedrosa e do Lívio Xavier, mesmo porque eu estava sob a influência mais persistente deles nessa época. A Liga era então um pequeno grupo de militantes. Sua produção literária saía pela Gráfica-Editora Unitas. Mas a atuação desse pequeno grupo era evidente. Era um trabalho de massa no Sindicato dos Gráficos, na Associação dos Comerciários, era algum ligação com operários metalúrgicos. E a penetração do PC não era grande aqui em São Paulo naquela época. Eles se limitavam afazer sua contraposição através do jornal A Classe Operária. O PC nos atacava porque não tinha outro objetivo sendo acabar com o trotskistas no Brasil. Minha atuação se dava mais no Sindicato do Gráficos. Naquele tempo, jornalista era militante do Sindicato dos Gráficos".

1932. Certo dia, ao sair do Sindicato dos Gráficos, Plínio Mello é detido e levado para o Rio de Janeiro. Fica preso por algum tempo.

"Lá, fui colocado num cubículo. Fiquei certo tempo preso e, por iniciativa de um conterrâneo meu, parente do Érico Veríssimo, saí da prisão. Aquele escritor americano3 procurou explorar a história, dizendo que fui solto porque era amigo do João Alberto, que era o chefe de polícia. Não, eu não era amigo do João Alberto. Ele só soube que eu estava preso por meu conterrâneo, que era chefe de gabinete dele".

Depois de solto, Plínio Mello resolveu fixar residência no Rio. Durante algum tempo, militou na Liga Comunista. Com o surgimento de divergências com os militantes da Liga, passou a atuar no movimento sindical carioca: "É quando participo de uma atividade sindical de certo vulto. Tanto que, logo em seguida, fui eleito vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Livro e do Jornal".

1934. Desde 1933 Plínio Mello vinha fazendo a cobertura jornalística da Assembléia Constituinte, como repórter do Diário de Notícias. Em agosto de 1934, durante os trabalhos da Constituinte, juntamente com alguns deputados classistas (representantes de diversas categorias profissionais organizadas), ele participa da fundação do Partido Socialista Proletário do Brasil (PSPB), que se expressava pelo jornal Trabalho. Em seu manifesto-programa, o PSPB afirma que "embora o mundo atravesse uma fase histórica mais que madura para o socialismo, pois o capitalismo já apodrece em seus próprios alicerces, não podemos dizer que a tarefa imediata que temos a realizar em nosso país seja a conquista do poder pelo proletariado. (...) O que se faz preciso (...), no momento, é a organização sindical e política do proletariado, a conquista e a defesa das liberdades democráticas negadas ou ameaçadas pela reação burguesa e a luta pelas reivindicações mínimas e vitais das massas trabalhadoras de todo o país".

O PSPB se propunha como o partido capaz de superar a desorganização do proletariado e de unificá-lo nas lutas. Mas sua atuação se voltou mais para a Constituinte, ao fim da qual ele praticamente deixa de existir: "Nossa atuação se dava mais na Constituinte, através de uma espécie de fração que nós tínhamos. Eu era uma espécie de líder oculto daquela fração. Os principais dirigentes eram o Vasco de Toledo, gráfico da Paraíba, Waldemar Rikdal, metalúrgico do Paraná, João Vitaca, Sabbatino José Casini, Euclides Vieira Sampaio, Orlando Ramos, Carlos Nogueira Branco e Almerinda Farias Gama. Havia uma espécie de bureau político para o exame da matéria a ser discutida e votada na Constituinte. Apresentávamos emendas, sugestões, sustentávamos oralmente. O Vasco, muito inteligente, chegou a debater alguns pontos com o próprio Osvaldo Aranha, que foi à Constituinte uma vez. No fim da Constituinte, há uma dispersão. Alguns elementos continuam líderes sindicais e voltam para seus estados. Eu passo a atuar mais como jornalista".

1935. Após a promulgação da Constituição de 1934, o Brasil é sacudido por uma onda de greves. Impulsionada pelo PCB, surge a Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935. Com um programa de frente popular, a ANL levanta o movimento de massas. Mas este arrefece e se dilui sem grande resistência quando é decretada a ilegalidade da ANL, em julho do mesmo ano. Seguindo orientações traçadas em Moscou, o PCB prepara uma insurreição para a tomada do poder. A iniciativa não passa de um putsch militar, duramente esmagado pelo governo Vargas, em novembro de 1935. Segue-se massiva onda de prisões. Plinio Mello é encarcerado no navio Pedro I, transformado em presídio político.

Juntamente com outros trotskistas e militantes expulsos do PCB por terem se oposto à preparação da insurreição (Barreto Leite Filho, Febus Gikovate, Augusto Besouchet), no navio-cárcere Plínio Mello redige, de próprio punho, um manuscrito de autocrítica do putsch. Escreveu três números. Foi o bastante para provocar o ódio dos membros do PCB. Correram até rumores de que, se um plano de fuga dos presos tivesse sucesso, aquele grupo seria jogado ao mar.

Após dois anos de prisão sem qualquer processa, Plínio é libertado e resolve esconder-se por algum tempo.

1938. Plínio Mello volta para São Paulo e decide "forçar a legalidade"; passa a trabalhar como jornalista. Por essa razão, tem uma militância limitada no Partido Operário Leninista (POL), nome da organização trotskista da época. Militância limitada que não o impede de influir decisivamente na aproximação de Hermínio Sacchetta e Alberto Moniz da Rocha Barros com o POL. Sacchetta e Rocha Barros foram os principais líderes da cisão do PCB em 1937, contrários ao apoio dado pela direção do partido a um dos candidatos à sucessão presidencial, que não ocorreu em virtude do golpe de Getúlio, instaurando o Estado Novo.

1939. A aproximação dos dois líderes da cisão comunista com o POL resulta, em agosto desse ano, na criação do Partido Socialista Revolucionário, da qual Plínio participa.