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Fundador do PT, Plinio Mello é protagonista da história das lutas operárias no Brasil

 

 

ADEUS, ARCADAS

As últimas aulas a que assisti aqui, na velha Academia de São Paulo, para a qual me transferi cheio de esperanças, vindo da faculdade de Porto Alegre, tiveram para mim a mesma significação daquelas primeiras que ouvi, estupefato, ao entrar para aquela Escola de Direito. (...) a dolorosa consciência da inutilidade social desse mesmo direito. Direito que outra coisa não é do que a sistematização de normas destinadas a beneficiar um classe, relacionando injustiças geradas no seio da sociedade capitalista.

(...) O que interessa agora deverá ser o direito em questão: aquele que é ensinado nas escolas jurídicas do Brasil e aplicado lá fora, nos corpos legislativos e judiciários do país; aquele que, consagrando constitucionalmente o, princípio da igualdade de todos perante a lei, nega na prática o que afirma em teoria; aquele que, endeusando o princípio da liberdade humana, consente as mais condenáveis opressões; aquele que, enfim, nada mais é do que a expressão exata das chaves detentoras do poder. (...) É esse o direito que se apreende lá fora!

(...) É por um dever de consciência que estou tomando vossa atenção. E isto para dizer-vos que renuncio, neste momento, à minha carreira de futuro advogado da classe capitalista para servir, modestamente, como simples militante socialista, à classe trabalhadora, a cujos interesses e direitos pretendo me dedicar pelo resto de minha vida. (...) Não posso mais compreender a significação ética e humana de um individualismo que coloca os interesses materiais acima dos princípios da solidariedade social. Falo só por mim. Talvez por orgulho de me sobrepor aos interesses criados de toda um época; orgulho de ter a coragem de enfrentar vossa inteligência de cabeça erguida; orgulho de possuir o espírito de rebeldia da mocidade do meu tempo! Orgulho, sobretudo, de me sentir pioneiro, nesta Casa, de um movimento socialista que hoje empolga o mundo e que irá transformara na grande sociedade sem classes de amanhã, onde o homem não será mais explorado pelo próprio homem.

Com meu abraço fraterno aos colegas que ficam, com meus cumprimentos respeitosos aos professores que possam compreender este meu gesto e com alguma saudade destas Arcadas generosas que abrigaram tantos ideais da mocidade de outros tempos, vou para a frente, empunhando a nova bandeira do Socialismo, que um dia há de tremular no topo do mastro desta velha Academia, anunciando a nova sociedade que virá!

(Trechos do discurso do estudante Plinio Mello, no pátio da Faculdade de Direito de São Paulo, em agosto de 1927.)

Nota de correção

Com relação à matéria que publicamos em Teoria & Debate no. 7, na Seção Memória, sobre Plinio Mello, vale um esclarecimento a respeito da menção ao Bloco Operário e Camponês. Criado em princípios de 1927, inicialmente sob o nome de Bloco Operário, o BOC teve como objetivo concretizar uma frente única, eleitoral inclusive, entre setores da classe média e do movimento operário. Continua existindo até meados de 1930. Em virtude das críticas da Internacional Comunista - segundo as quais o PCB estaria se dissolvendo no BOC, "colocando o proletariado a serviço da burguesia" -, o BOC desaparece. Há, porém, uma imprecisão na revista que pode deixar indignado o leitor de Teoria &Debate. Ao fim da página 31, relaciona-se a criação do BOC à política que estava em desacordo com a linha ultraesquerdista aprovada pelo VI Congresso da Internacional Comunista de 1928. Logo a seguir, na página 32, fala-se que o IV Congresso do PCB, de janeiro de 1929, teria levado à formação do BOC, o que não é verdade. Este congresso definiu apenas uma orientação política para o BOC, que já estava formado. Neste sentido, proponho a publicação da seguinte errata:

Na página 32, na 139 linha da primeira coluna, onde está escrito "de 1930, que levou à formação do BOC", leia-se "de 1930 e a orientação do BOC".  (Dainis Karepovs)