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A Caravana da Cidadania surpreendeu a todos. É como se você fosse para uma final de campeonato com estádio lotado, esperando uma guerra, e encontrasse um balé. O resultado foi uma cobertura canhestra

Era quarta-feira, 26 de maio, quase oito da noite. Ricardo Kotscho estava aflito em sua casa, ao lado da Cidade Universitária, em São Paulo. Ainda assim, separou umas cervejas, salaminhos, queijos: "Olha, sirva-se à vontade". O gravador foi ligado e começou a conversa com o assessor de imprensa de Lula sobre a Caravana da Cidadania. Kotscho, um dos maiores repórteres que o Brasil já conheceu, um jornalista que soube não abdicar de sua própria cidadania no exercício de sua profissão, que soube ser objetivo sem ter que fingir indiferença diante das desigualdades sociais, contou sem restrições o que viu e viveu. Opinou. E apontou os disparates que surgiram na imprensa. Boa cerveja, frios excelentes e um papo delicioso.

A seguir, os principais trechos do depoimento de Ricardo Kotscho, que editamos num texto contínuo. Informação, crítica de imprensa e seriedade. Uma lição de viagem, de jornalismo e de cidadania. Ah, sim, dissemos que Kotscho estava muito ansioso naquela quarta-feira. Faltou dizer o motivo. Não era com jornais, com política, com a campanha de 94. É que, dentro de pouco menos de duas horas, o São Paulo estaria enfrentando o Universidad Católica do Chile, pela televisão. Ele queria estar livre na hora do jogo. São-paulino, talvez mais são-paulino que petisca, o repórter tinha que ver o seu time sagrar-se bicampeão da Libertadores. Naquela noite, o São Paulo perdeu de dois a zero, mas levou o campeonato. Ao menos esse sonho, nosso entrevistado viu realizado. Agora vamos ao que interessa. Com a palavra, Ricardo Kotscho:

A gente vai levar dez anos para entender o que aconteceu nessa caravana e mais dez para contar. Aconteceram mil coisas importantes, é um fato novo na história política brasileira. Ninguém estava preparado para isso, nem nós, nem as pessoas dos lugares que visitamos, e muito menos a imprensa. Com a imprensa, então, é engraçado: parece que a gente fez uma viagem e ela fez outra. A viagem que apareceu na imprensa não foi a mesma que nós fizemos.

Isso me lembrou um anúncio de televisão da Folha de S. Paulo. Era feito em cima de uma foto mostrada num detalhe reticulado e, só depois, com a câmera se afastando, você percebia que ali estava a cara do Hitler. O texto da propaganda dizia que é possível você mentir, dizendo apenas parte da verdade. Pois isso acontece diariamente com o jornalismo. Basicamente, você pinça a frase do contexto e constrói a sua tese. Os jornalistas, hoje, são quase que teleguiados para encontrar elementos que comprovem a tese que já está pronta dentro da redação. Antes você tinha as informações na rua, você ficava sabendo das coisas e levava para a redação. Hoje é o contrário. As pessoas se reúnem na redação, decidem uma coisa, bolam uma tese e o repórter vai para a rua justificar aquilo.

A maioria dos jornalistas foi cobrir uma campanha eleitoral. Chegando lá, foi surpreendida pelo que viu. É como se você fosse para uma final de campeonato com estádio lotado, esperando uma guerra, e encontrasse um balé. Você foi ver uma coisa e encontrou outra e, então, se frustrou. Os jornalistas começaram a ser cobrados pelas chefias, que as matérias eram "pouco críticas", estavam muito "petistas", muito favoráveis ao Lula e não sei o que mais.

Sangue de Cristo

A história de o Lula ter dito que o vermelho da bandeira do PT representava o sangue de Cristo apareceu daquele jeito na imprensa em virtude dessas pressões. Estávamos em Monte Santo, no interior da Bahia, uma cidade muito religiosa, muito mística, cidade de romeiros, onde foi filmado Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. A influência da Igreja lá, como na maioria dos lugares em que passamos, é muito forte. São lugarejos aos quais o governo não chega, não existe governo. A instituição mais próxima do povo é a Igreja. O Andrew Greenlees, um bom repórter da Folha de S.Paulo, autor da matéria que dizia que o Lula afirmara que "o vermelho da bandeira do PT significava o sangue de Cristo" (publicada em 02/05/93), que tinha acompanhado o Lula na viagem a Princeton, nos EUA, poucas semanas antes, viu o Lula falar uma linguagem muito diferente durante a caravana. Claro: dependendo de onde você está não pode falar da mesma maneira, não se veste da mesma maneira e tal.

E, em Monte Santo, fizeram uma pergunta ao Lula. Aliás, isso é o que eu considero a grande novidade dessa caravana: não era o Lula falando de cima do palanque e as pessoas lá embaixo ouvindo, não a política tradicional brasileira. O Lula fez exatamente o contrário. Ele fazia perguntas para o público e as pessoas faziam perguntas para o Lula. Era uma entrevista em duas mãos. E uma das perguntas que veio do público foi de um trabalhador rural, que disse: "Lula, por aqui dizem que esse vermelho do PT é coisa de comunista. É isso mesmo?". O Lula respondeu que não, porque o PT, quando surgiu, já surgiu contra as ditaduras do "socialismo real" que existiam no Leste europeu e na União Soviética, do mesmo modo que surgiu em oposição a esse capitalismo selvagem que existe no Brasil. Ele explicou que não há uma portaria estabelecendo o significado da estrela e das cores na bandeira do partido, que se pode ver da maneira que quiser. Por exemplo, o vermelho pode ser o sangue de Antônio Conselheiro, pode ser o sangue dos trabalhadores rurais assassinados, pode ser o sangue das crianças que morrem antes de completar um ano de vida, pode ser o sangue de Cristo. Foi por aí - que cada um veja como quiser. O branco do PT pode ser o branco da paz. A estrela pode ser a estrela que guia os navegantes, pode ser a estrela de Belém, como vocês quiserem.

Os religiosos que estavam ali ficaram emocionados com essa conversa do Lula, com essa maneira de explicar o que era o PT. Eu estava junto com Andrew; ele nem estava prestando muita atenção no que o Lula falava, afinal o Lula falava as mesmas coisas dez vezes por dia, em pontos diferentes da viagem. Na hora, o Andrew conversava com o prefeito, com outras pessoas, mas aquela frase, aquele pedaço de frase o interessou, iria servir para a matéria que ele queria fazer.

Coincidentemente, no mesmo dia, fomos a Canudos. Chegamos atrasados, era para chegar às onze da manhã e chegamos depois das duas da tarde. Tinha muita gente, parecia que a cidade inteira estava na praça. Lá, isso é importante destacar, os trabalhadores rurais, um movimento ligado à Igreja, têm um rito quando se encontram: eles fazem uma celebração, que é a distribuição dos pães, sempre que há um dia de festa. E a chegada de Lula foi uma festa para eles. Apareceram cinco balaios de pão trazidos por eles e o Lula não sabia de porra nenhuma, não sabia o que era aquilo, nem estava entendendo o que estava acontecendo. Só que, antes dos pães chegarem - nós não estávamos num palanque, era como se fosse um pequeno anfiteatro na praça -, o pessoal, que àquela altura estava com fome, catou os pães e começou a comer. Mas dois balaios conseguiram chegar até o lugar onde estavam o Lula, o Suplicy e o Bisol. E eles não sabiam o que fazer com aquilo. Um cara explicou: "Olha, isso aqui a gente faz sempre, tem que distribuir o pão." Foi aí que os três distribuíram os pães.

Engraçado, os jornalistas todos estavam num bar, almoçando, e quando viram aquela cena, concluíram: "Bom, agora o Lula é o messias." O Andrew Greenlees, então, pegou uma frase isolada do sangue de Cristo numa cidade, depois pegou a cena da distribuição dos pães em outra e juntou. Eu não sei se o texto final que saiu na Folha é dele. Por sinal, essa é outra coisa que eu não conhecia: os repórteres reclamavam muito que mesmo as matérias assinadas eram mudadas na redação. Isso não existia no meu tempo de jornal. Eu tenho que conversar com o Andrew para saber o que aconteceu.