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Para o Brasil as perspectivas em 2012 são relativamente positivas, apesar das incertezas da conjuntura internacional

A crise internacional prosseguirá, principalmente, em função das medidas neoliberais radicais adotadas pelos governos europeus, que aprofundarão a recessão no continente. A eleição presidencial nos EUA também deve influenciar a política mundial. No Brasil, os bons indicadores econômicos e sociais e a alta popularidade da presidenta Dilma concorrem com a ofensiva ideológica conservadora da oposição e da mídia

 

Uma breve retrospectiva da conjuntura internacional de 2011 aponta três fatos marcantes: a “Primavera Árabe”, a ofensiva diplomática da Autoridade Palestina no âmbito da ONU e a crise econômica nos países desenvolvidos, que redunda em crises sociais e políticas cada vez mais graves.

As mobilizações em diversos países de população árabe no norte da África e no Oriente Médio contra governos ditatoriais de diferentes matizes tiveram vários desdobramentos, mas de modo geral sem avanços de ordem progressista. Na Líbia assistimos a uma guerra civil entre partidários de Muamar Kadafi e dissidentes de seu governo, vencida pelo segundo grupo graças à intervenção militar da Otan. A repressão das forças armadas locais com apoio do exército saudita debelou a revolta no Bahrein e um arranjo político de troca do presidente iemenita pelo seu vice, também intermediado pelo governo saudita, foi o saldo dessa mobilização que, embora tenha custado centenas de vidas, não contou com maiores comentários dos países ocidentais que atacaram a Líbia alegando o mesmo motivo. No Marrocos, na Tunísia e no Egito houve eleições parlamentares vencidas pelos respectivos partidos islâmicos, mais ou menos conservadores, apoiados financeiramente pela Arábia Saudita e pelo Emirado do Catar.

A iniciativa da Autoridade Palestina de solicitar seu ingresso na ONU como membro com plenos direitos e com base nas fronteiras de 1967, embora até o momento não tenha levado a esses resultados, deu-lhe vários ganhos políticos. Em primeiro lugar, o apoio de mais de cem países, incluindo o Brasil, à reivindicação e o ingresso na Unesco como membro pleno. Desmascarou a má-fé das declarações israelenses supostamente favoráveis a negociações sérias de um acordo que leve à convivência entre dois povos – dois Estados –, assim como a hipocrisia americana que declara “estender a mão para o mundo árabe e islâmico”, mas apoia todas as medidas israelenses.

A crise econômica que se agravou na Europa em 2011 é uma continuidade da crise financeira iniciada nos EUA em 2007. Na ocasião, tanto o governo americano quanto os europeus injetaram recursos bilionários para salvar seus sistemas financeiros, e estes, agora, adotam medidas de extrema austeridade para que seus governos possam saldar as dívidas com os bancos, o que está provocando grave recessão na Europa e estrangulando a economia e o Estado de Bem-Estar Social em vários países, além de ampliar o desemprego e a pobreza. Na Grécia e na Itália, a partir da pressão política da Comissão Europeia e, principalmente, da Alemanha e da França, os respectivos governos foram substituídos por uma composição de tecnocratas com a incumbência de promover um profundo e impopular corte nas despesas públicas. Na Irlanda, em Portugal e na Espanha, onde houve eleições, os governos de situação que implementaram os ajustes econômicos foram derrotados, com destaque para o Partido Socialista Operário Espanhol (Psoe), que perdeu 2,4 milhões de votos em comparação com o resultado eleitoral de quatro anos antes. Ao mesmo tempo, partidos de extrema direita vêm crescendo eleitoralmente. A eleição presidencial francesa, em abril próximo, é a única com perspectiva de favorecer um partido socialista em um país importante. O candidato do PS, François Hollande, segue à frente nas pesquisas eleitorais, embora a soma das intenções de voto de todos os candidatos com perfil de direita represente mais de 50% do eleitorado.

A crise internacional prosseguirá, sobretudo, em função das medidas neoliberais radicais adotadas pelos governos europeus, que aprofundarão a recessão no continente. O desemprego médio na Europa já ultrapassou 10% e é, pelo menos, o dobro entre os jovens, ao que se soma ainda o fenômeno do rápido empobrecimento de parcelas importantes da população. A OIT aponta a existência, atualmente, de 200 milhões de desempregados no mundo.

Outro elemento importante na política internacional são as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em novembro, pois sua política externa tem influência sobre o voto dos eleitores. A disputa eleitoral entre Obama e o candidato ainda indefinido do Partido Republicano será extremamente polarizada, especialmente em torno de temas sensíveis, como a segurança. A retirada de tropas do Iraque em 2011 pelo governo Obama e as promessas de fazer o mesmo no Afeganistão nos próximos anos são parte de sua estratégia eleitoral, assim como o aumento do tom belicista contra o Irã e a Síria. No caso do Irã, houve a ampliação de sanções econômicas unilaterais por parte de americanos e europeus, o que poderá elevar o preço internacional do petróleo em até 30%, dificultando ainda mais a situação econômica na Europa, sem mencionar o risco de conflitos abertos.

Na América Latina 

Ainda não há posicionamentos mais claros do Itamaraty sobre esse quadro, além de o Brasil ter deixado seu assento temporário no Conselho de Segurança na ONU em 2012, o que diminui sua participação e influência na discussão de conflitos internacionais em geral. Apesar do destaque e da importância do discurso da presidenta Dilma Rousseff na abertura da Assembleia Geral da ONU em 2011, além de ser a primeira mulher a fazê-lo na história da organização, a diplomacia brasileira revela cautela e discrição sobre os temas internacionais em geral. Isso tem gerado inclusive uma percepção entre nossos aliados, principalmente na América Latina, de que o Brasil está fazendo menos do que poderia na esfera internacional. e o comportamento pouco responsável de algumas empresas brasileiras que investiram em países vizinhos tampouco ajuda a elevar nossa popularidade. Todavia, a recente visita da presidenta a Cuba e ao Haiti poderá contribuir para superar essa percepção, mas é importante que avancemos em outras iniciativas, como a integração da América do Sul, a criação do Banco do Sul e a instituição de uma política de responsabilidade empresarial de nossas empresas transnacionais, pois os demais países do continente também desaceleraram seu desempenho econômico e todos teremos de responder às consequências da continuidade da crise internacional em 2012.

A realização da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio + 20) na cidade do Rio de Janeiro em junho próximo será outra oportunidade de afirmação de nossa política de desenvolvimento, que em grande medida contrasta com a situação atual dos países centrais. Interessa-nos provocar essa polarização no debate e envolver o conjunto do movimento social brasileiro e mundial.

O ano de 2012 marca ainda a realização de três eleições presidenciais na América Latina. Em maio na República Dominicana, onde as avaliações apontam a continuidade do Partido da Liberação Dominicana (PLD) no governo, com o candidato Danilo Medina; em julho no México, onde o Partido de Ação Nacional (PAN) deverá perder, e de acordo com as pesquisas mais recentes, para o candidato do Partido da Revolução Institucional (PRI), Enrique Peña Neto; e em outubro na Venezuela, onde o presidente Hugo Chávez é cotado para a reeleição pela coalizão Grande Polo Patriótico.