Economia

Depois da retração observada no primeiro semestre, o Brasil poderá retomar níveis mais apropriados de crescimento econômico

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A negação histórica da existência de um povo palestino, necessária para afirmar o status da terra como res nullius, como uma terra sem povo destinada ao povo a que fora prometida, mantém-se constante até hoje e é acompanhada da vilificação daqueles que estão “do outro lado”, daqueles menos civilizados, dos radicais, dos amantes da morte

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Políticas inovadoras asseguraram mais estabilidade para a economia

Políticas inovadoras asseguraram mais estabilidade para a economia nacional. Foto: Valter Campanato/ABr

A continuidade da crise em 2012 nos países avançados, com as consequentes insegurança, falta de crescimento econômico e encolhimento do comércio mundial, também atingiu os países emergentes. E não deixou de afetar o Brasil.

Mas, ao contrário do que muitos críticos argumentavam, o Brasil mostrou-se – como em 2007-2008 – estruturalmente preparado, persistente e mesmo ousado na formulação de políticas de enfrentamento desse cenário externo adverso.

Houve sem dúvida efeitos deletérios dessa crise sobre a economia brasileira. A indústria, por exemplo, viu reduzir as exportações de manufaturados e os investimentos no setor se tornaram apenas defensivos. O crescimento econômico do país foi igualmente afetado, sobretudo no primeiro semestre, e deveremos crescer algo próximo de 2,5% em 2012, menos que o desejado e abaixo de nosso potencial.

No entanto, tal qual na crise de 2007-2008, o governo brasileiro adotou políticas inovadoras, capazes de assegurar que nossa economia sofresse o menos possível com a instabilidade e letargia econômica mundial e, ao mesmo tempo, enfrentasse alguns de nossos problemas mais estruturais e de longo prazo. Muitos deles, é verdade, continuam presentes, mas é indiscutível que, apesar de um primeiro semestre mais limitado, o país mostrou-se bastante resiliente à crise devido a essas políticas anticíclicas. Isso ocorreu em vários segmentos, tanto monetário quanto fiscal, cambial, de incentivo setorial e ao investimento e, não menos importante, de preservação e expansão do mercado interno.

Os juros, que continuavam muito elevados segundo quaisquer critérios, passaram a ser reduzidos pelo Banco Central, com a taxa Selic alcançando recentemente 8% e a taxa de juros real ex ante cerca de 2%, ambas em termos anuais. Os bancos públicos, por sua vez, foram mobilizados para acelerar esse processo e servir de acicate e exemplo aos bancos privados. Seus efeitos sobre o spread bancário já são evidentes, apesar da chiadeira de muitos economistas vinculados ao setor financeiro quando das primeiras iniciativas de redução dos juros. Em queda, o valor do spread em junho foi o menor desde dezembro de 2007.

Frente às políticas monetárias dos países avançados que asseguraram a desvalorização de suas moedas, o Brasil – ainda que tardiamente – passou a enfrentar com maior decisão a questão do câmbio. Com a redução dos juros, a continuidade da elevação das reservas internacionais, as restrições aos fluxos especulativos e as intervenções no mercado, a moeda nacional, finalmente, reduziu sua valorização. A cotação do dólar em R$/US$ alcançou mais de R$ 2 e a média do primeiro semestre foi de R$ 1,87, quando no mesmo período do ano passado havia sido de apenas R$ 1,63.

Esse novo patamar da taxa de câmbio vem tendo efeitos positivos sobre a economia, ainda mais em tempos de retração do comércio internacional. Permitiu a redução do custo Brasil, a recuperação da competitividade dos produtos brasileiros, a sustentação das exportações, sobretudo de bens manufaturados, e teve pouco impacto (se algum teve) sobre a inflação. Tanto que esta deverá convergir para próximo da meta (4,5%) até o final do ano.

Na área fiscal manteve-se a prudência, buscando-se conter os gastos correntes e ampliando os investimentos. A continuidade da redução da dívida líquida do setor público deverá alcançar ao final de 2012 a menor proporção do PIB em muitas décadas (35%). A redução dos juros também terá efeitos positivos sobre o custo de rolagem da dívida.

Embora sem uma efetiva reforma tributária (que enfrentasse sua intrínseca desigualdade), foram adotadas medidas parciais no que se refere ao ICMS, Supersimples, MEI e à desoneração e mudança da base de tributação da folha de pagamentos.

E ainda medidas temporárias de desoneração e de defesa comercial visando vários setores (automóveis, caminhões e ônibus, móveis, linha branca, materiais de construção, têxteis e complexo da saúde). Dessa forma, apesar de um primeiro trimestre cuja debilidade assustou a todos, ainda que o setor tenha sofrido mundialmente, a indústria registrou a partir de maio e junho uma mudança positiva segundo a PIM-IBGE (0,2%), vem liderando novamente a atração de capital externo – sinal de que o investidor estrangeiro está bem menos pessimista que o empresário brasileiro – e assegurando uma perspectiva de evidente recuperação da atividade neste segundo semestre.

O investimento de longo prazo, por sua vez, continua relativamente baixo vis-à-vis o PIB (cerca de 19%) e frente às necessidades do crescimento econômico e às demandas dos próximos anos. No entanto, tem apresentado expansão superior ao PIB e um horizonte de maior intensidade de crescimento. Em 2011, por exemplo, o investimento em infraestrutura alcançou R$ 173,2 bilhões (2,7 vezes o valor de 2003), e a expectativa para 2012 é de que chegue a R$ 190 bilhões. O investimento total efetivado entre 2007 e 2010 foi de R$ 461 bilhões e a previsão para o período 2012-2015 é de R$ 597 bilhões.

Mas alguns problemas de natureza mais estruturais do financiamento do desenvolvimento continuam presentes (dependência de recursos públicos, baixa participação do mercado de capitais) e exigem um olhar voltado para o futuro, pois suas demandas serão ampliadas pela produção das commodities, pelas dificuldades enfrentadas pela indústria, pela exploração próxima do pré-sal e pela ocorrência dos eventos internacionais previstos. Daí a importância e a urgência de – em paralelo à continuidade do esforço do BNDES e da redução dos juros e do spread – buscar fontes inovadoras de financiamento, capazes de congregar as diferentes origens dos recursos a serem direcionados ao financiamento de longo prazo de nosso desenvolvimento.

Já o ritmo de ingresso de investimentos diretos estrangeiros continuou intenso, alcançando em junho US$ 64 bilhões (em doze meses), o que permite vislumbrar que em 2012 o ingresso de IED será suficiente para cobrir o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos.

O mercado interno, por sua vez, dado o maior endividamento das famílias, recebeu menos medidas referentes ao crédito que em 2007-2008, mas continuou crescendo e tendo importância significativa no enfrentamento da crise.

Nos últimos doze meses o país criou nada menos que 1,2 milhão de postos de trabalho. Mesmo que em evidente desaceleração, essa expansão tem permitido a continuidade de baixas taxas de desemprego. Tal fato deixou muitos observadores surpresos, já que não imaginavam que as melhorias da qualidade de vida e a redução das desigualdades poderiam ter efeitos intensos sobre o mercado de trabalho. Em outras palavras, apesar da redução da geração de empregos o desemprego não aumentou, auxiliado pelo menor crescimento da População em Idade Ativa (PIA) e pela menor procura de empregos, tanto pela melhoria da qualidade de vida das famílias quanto pela busca de melhor educação e formação pelos mais jovens.

Não sem razão, o desemprego alcançou em junho uma taxa de 5,6%, o menor nível da série histórica.

A continuidade do desempenho favorável do mercado de trabalho tem sido auxiliado pelo crescimento dos salários (3% em junho em termos reais, em base de doze meses), pela recente redução da inadimplência e pela continuidade das políticas relativas ao salário mínimo e à redução da pobreza, consolidando, dessa forma, o papel macroeconômico do mercado interno no enfrentamento da crise.

Ainda teremos muitos desafios pela frente. O principal deles é sem dúvida a conformação de um claro projeto nacional que olhe o longo prazo, capaz de garantir maior crescimento com distribuição de renda, fortalecer nossa indústria, sobretudo os setores mais inovadores, buscar efetivas reformas (como a tributária e política), assegurar os investimentos necessários a infraestrutura, educação, tecnologia e demais setores e valorizando o cuidado com o meio ambiente.

Mas a partir do segundo semestre teremos mais espaço para voltar a discutir essas questões. Afinal, depois da retração observada no primeiro semestre, agora o Brasil poderá não somente retomar níveis mais apropriados de crescimento econômico, possivelmente alcançando ao final do ano um ritmo de 4% anualizado. Poderá também apresentar juros ainda mais baixos, inflação sob controle e próxima da meta (4,5%), real menos valorizado, dívida líquida do setor público em queda, mercado interno em expansão e continuidade do processo de redução da pobreza.

Apesar da crise...

Jorge Mattoso é economista e consultor, com doutorado pela Unicamp e pós-doutorado pelo IRES, na França. Foi professor do Instituto de Economia da Unicamp (1985-2009), professor da Cátedra Celso Furtado da Universidad Complutense de Madrid, na Espanha (2010), secretário de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo (2001-2003) e de Finanças de São Bernardo do Campo (2009) e presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2006)