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Ao invés de revelar a origem e os objetivos estratégicos do Plano Real, a mídia fez um estardalhaço favorável, contribuindo para a eleição de FHC

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O Plano Real e a montanha de privatizações dariam matérias sensacionais, ótimos leads, manchetes explosivas, títulos instigantes, e a mídia hegemônica, a esse respeito, portou-se com um silêncio ensurdecedor. Não tratou das diretrizes do Consenso de Washington, não examinou o processo de privatização e suas consequências

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Protesto contra a privatização do Banespa: meios de comunicação foram poderosos

Privatização do Banespa: meios de comunicação foram aliados na política de desmonte do Estado. Foto: Acervo CSBH

Quando alguma crítica ou notícia não sai na imprensa – e aqui está a mudança que houve na ordem local – não
é porque tenha havido uma ordem superior de um censor
militar que tenha dito para não se publicar mais notícias
sobre o Banco Econômico para não atrapalhar o mercado
financeiro e as expectativas internacionais dos investidores,
cujas decisões de investir na nossa tulipa seguram a nossa
moeda, seguram nosso presidente, seguram a felicidade
de nossa classe média que pode ir tomar banho em Miami.
O mais provável é que tenha havido uma reação simultânea
e quase espontânea concatenada pela determinação do interesse coletivo na manutenção de toda essa ficção. Não é
necessário um grande raciocínio estratégico. É só o órgão da mídia pensar nos seus investimentos que concluirá: suspende essa matéria!
FIORI, José Luis.
Os Moedeiros Falsos. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 125/126.

Dos estratagemas da mídia, talvez um dos mais densos e comuns seja o do silêncio, sempre um bólido com milhões de sentidos. O silêncio, ou ocultação, sempre fala, grita, revela, ao menos para os que desenvolvam leituras mais atentas. Penso numa mídia capaz de cobrir os fatos, sim, os fatos brutos como se apresentavam à época do governo Fernando Henrique Cardoso, uma mídia capaz de desvelar o que estava por detrás do Plano Real e da montanha de privatizações.

Isso daria matérias sensacionais, ótimos leads, manchetes explosivas, títulos instigantes, e a mídia hegemônica, a esse respeito, foi de um silêncio ensurdecedor, afora as exceções que confirmavam a regra. Salvo os escassos meios alternativos, poderíamos falar de uma Carta Capital ou de uma Caros Amigos, da blogosfera de esquerda, Terra Magazine, a tentar furar o bloqueio, a gritar contra o silêncio.

O Plano Real foi celebrado como a redenção do Brasil, mas não se sabe a que preço e com que propostas ele se tornou viável. O professor José Luis Fiori, do Instituto de Economia Industrial da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em um de seus livros, lembra da reunião do Institute for International Economics, de janeiro de 1993, que reuniu cerca de cem especialistas em torno de documento escrito por John Williamson, seminário que levou o nome de The Political Economy of Policy Reform. Ali o que se discutiu, a rigor, foi como orientar lideranças do mundo afinadas com o Washington Consensus (o nome foi cunhado pelo próprio Williamson, em 1989, em reunião inaugural desse consenso, também em Washington), como poderiam elas obter apoio político para levar aquelas ideias adiante. O que se pretendia era a elaboração de um plano único de ajustamento das economias periféricas.

Esse plano, já em desenvolvimento então em vários países, previa primeiro a estabilização macroeconômica, tendo como prioridade absoluta um superávit fiscal primário; segundo, liberação financeira e comercial, desregulação dos mercados e privatização das empresas estatais; e terceiro, se tudo desse certo, retomada dos investimentos e do crescimento econômico, algo pra inglês ver, e que na quase totalidade dos países periféricos não se cumpriu.

“Poucos ainda têm dúvidas de que o Plano Real, a despeito de sua originalidade operacional, integre a grande família dos planos de estabilização discutidos na reunião de Washington onde o Brasil esteve representado pelo ex-ministro Bresser Pereira”, dirá Fiori, corretamente. Não se sabe se hoje Bresser Pereira comungaria dos mesmos ideais. Parece que não, a se julgar pelo que tem dito ultimamente.

O Plano Real, assim, não poderá ser compreendido apenas como um projeto de combate à inflação, que seria um objetivo justo, correto. Mas, sobretudo, como uma adequação aos interesses dos centros capitalistas internacionais. No centro dele, estava o objetivo do grande capital em assenhorear-se das empresas estatais brasileiras, num autêntico leilão a preço de banana desenvolvido pelo governo de Fernando Henrique, que foi o príncipe pensado para viabilizar no Brasil as reformas preconizadas pelo Banco Mundial e FMI.

Alguém já imaginou o que seria se, no momento de gestação e apresentação do Plano Real, essa estratégia fosse revelada? Se houvesse a demonstração de que por detrás dele a mão que balançava o berço eram o FMI e o Banco Mundial, impulsionados pelo capital dos grandes centros do capitalismo internacional? Isso seria um desastre para o objetivo central de eleger o novo príncipe, Fernando Henrique Cardoso, que vestia o figurino perfeito para que os objetivos estratégicos do FMI e do Banco Mundial fossem atingidos.

A mídia hegemônica, quisesse, teria todas as condições de fazer a revelação. Que ao menos noticiasse, desse pistas, de que não era simplesmente um plano surgido a partir das ideias locais, mas nada disso foi feito. O silêncio imperou quanto à origem e objetivos estratégicos do Plano Real, e, ao contrário, a mídia fez um estardalhaço favorável ao extremo, contribuindo decisivamente para a eleição de Fernando Henrique, como já se disse em outro texto dessa série. Ou seja, silêncio, que esconde o essencial. Barulho, para revelar o que interessa diretamente à mídia.

Um livro precioso, de Luiz Marcos Gomes, que nem chega a cem páginas, revela como havia uma relação orgânica entre o grupo que conseguiu hegemonizar a política econômica de Fernando Henrique Cardoso e dominar os principais órgãos estatais dessa área com o grupo de intelectuais e financistas que formulou o famoso Consenso de Washington. O título fala por si só: Os Homens do Presidente: banqueiros, financistas, grandes empresários e oligarcas estão vendendo o Brasil e destruindo os direitos sociais.

Destaca-se, nesse grupo, principalmente, o grupo de financistas-banqueiros da PUC do Rio de Janeiro e o grupo do PSDB paulista de então, liderado por José Serra. Dos primeiros, Gomes destaca Edmar Bacha, Francisco Lopes, Pedro Malan, Gustavo Franco, Pérsio Arida, André Lara Resende, Edward Amadeo e Wiston Fritsch. John Williamson, espécie de secretário-geral do Consenso de Washington, aliás, havia integrado o Departamento de Economia da PUC-Rio entre 1978-1981.

Luiz Marcos Gomes desfia didaticamente o jogo de interesses que orientou todo o grupo, sem, naturalmente, tratar do trajeto biográfico de cada um a posteriori, até porque o livro foi editado em 2000. O elenco, como óbvio, estava inteiramente afinado com o ideário do Consenso de Washington, e o colocaram em prática rigorosamente durante os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Podia a mídia estabelecer essas conexões, tão facilmente identificáveis? Podia a mídia revelar a teia de interesses do grupo? Era possível desvendar toda a ideologia por detrás da operação que levou Fernando Henrique ao poder? Claro que sim. Só que a mídia hegemônica, como se tem insistido, nesses textos, tem interesses e um programa para o Brasil, e não seria conveniente trazer à tona tudo isso, demonstrar o quanto era importante o pensamento do Consenso de Washington para o grupo, o quanto isso viria a favorecer os interesses do capital internacional e os interesses privados que o grupo representava.

O livro de Luiz Marcos Gomes merece uma revisitação. Vai de fato de A a Z, e não deixa de evidenciar o envolvimento de cada um dos personagens em negócios privados. Como pôde a mídia desconhecer tudo isso? – é a pergunta que não quer calar. E outro livrinho – esse não chega a cinquenta páginas –, que se transformou em best-seller (O Brasil Privatizado: Um Balanço do Desmonte do Estado, de Aloysio Biondi) revela, como as privatizações foram feitas, fala sobre a entrega do patrimônio público, revela por que o Brasil ficou mais pobre e desmonta a tese do mito das “forças do mercado”.

Biondi noticia, num exemplo escandaloso, que antes de vender as empresas telefônicas, o governo Fernando Henrique investiu R$ 21 bilhões no setor, em dois anos e meio e, na sequência, vendeu tudo por uma “entrada” de R$8,8 bilhões ou menos – porque financiou metade da “entrada” para grupos brasileiros. Esse foi o procedimento geral: o governo financia a compra no leilão, vende “moedas podres” a longo prazo e ainda financia os investimentos que os “compradores” precisam fazer. E para aumentar os lucros dos futuros “compradores”, o governo “engoliu” dívidas bilionárias, demitiu funcionários, investiu maciçamente e aumentou tarifas e preços antes da privatização.

Para quem comprava, um negócio da China. Para o Brasil, desmonte do Estado. O governo tomava o cuidado, ainda, muito zeloso com os pobres compradores, de vender as estatais em módicas prestações, e com juros vergonhosamente baixos, como também revela Biondi. E nas primeiras privatizações, o governo chegou a aceitar que o pagamento fosse totalmente feito em “moedas podres” – títulos antigos emitidos pelo governo e que podiam ser comprados por até 50% do seu valor. Coisa de pai pra filho.

Luiz Marcos Gomes afirma que o grupo que gravitava em torno de Fernando Henrique Cardoso, e sob a direção dele naturalmente, conseguiu efetivar o desmonte final do chamado Estado nacional-desenvolvimentista erigido sob Vargas, coisa que nem o regime militar havia conseguido levar adiante de forma tão profunda. Fernando Henrique, ao que se sabe, orgulhava-se de ter enterrado a era Vargas, carregava, ou carrega, isso como um trunfo.

E Biondi não deixa por menos quanto à mídia: sem qualquer dúvida, os meios de comunicação, com seu apoio incondicional às privatizações, foram um aliado muito poderoso para que essa política fosse adiante. Houve uma intensa campanha de desmoralização das estatais e a ladainha do “esgotamento dos recursos do Estado”.  Fez-se de tudo para que a sociedade brasileira se esquecesse de que as estatais não são propriedade do governo – o Estado é gerente do bens, do patrimônio da sociedade. Biondi chega a arriscar a hipótese de que a falta de consciência coletiva sobre a natureza das empresas estatais tenha sido reforçada pelos meios de comunicação e isso explicaria a indiferença com que a opinião pública recebeu a criminosa privatização.

No meu livro Jornalismo de Campanha e a Constituição de 1988, tento buscar uma explicação para o comportamento da mídia hegemônica, que não pode ser encontrada apenas e tão-somente no mundo da técnica jornalística, por obviedade. Lembro que o embricamento de interesses entre o Estado e as empresas de comunicação, naquele específico governo de Fernando Henrique Cardoso, completa-se com a entrada de algumas delas no negócio das telecomunicações.

Grandes meios de comunicação, impressos e audiovisuais, envolveram-se nas concorrências para a disputa da Banda B da telefonia celular. Nem se discute quem ficou com o quê, mas o fato de que tais meios estavam disputando fatias de mercado, sendo natural que pretendessem, e trabalhassem para tanto, a privatização do setor de telefonia para que pudessem disputar o que resultasse dessa privatização, como de fato fizeram. A revista Carta Capital, de 4 de março de 1998, pergunta, com propriedade, se participando da disputa pelos negócios das telecomunicações, os maiores grupos de comunicação do país tinham condições de manter a devida acuidade crítica diante de “um governo que se encontra do outro lado do balcão dos negócios”, isso também registro em meu livro.

Embora ali faça a ressalva de que não seria correto reduzir a análise da mídia hegemônica aos seus restritos e exclusivos interesses econômicos, acentuo que não é conveniente, nem acertado desvincular a análise dos meios de comunicação das bases materiais de sua existência. Muitas vezes de forma acentuada, outras, de forma subordinada, tais bases materiais interferem nas opções imediatas feitas por tais meios e não raro também nas opções de longo prazo. Aqui, no caso do governo Fernando Henrique, é evidente que essas bases materiais, o negócio propriamente dito, contou muito, embora, como se tem insistido ao longo desta série, haja inegavelmente um conteúdo político forte, qual seja o programa comum entre a mídia e aquele governo, fundado no neoliberalismo.

Houvesse uma mídia atenta, e ninguém se surpreenderia com os resultados da crise mundial no Brasil, a partir do segundo semestre de 1998, cujo desfecho ocorreu em janeiro de 1999, logo depois de consumada a operação da eleição de Fernando Henrique Cardoso – é isso, chamamos de operação, e que contou com forte ajuda da mídia hegemônica, e já falamos disso aqui.  Naquele janeiro, aluíram as bases do Plano Real, que já cumprira sua tarefa de sustentar o novo príncipe, de garantir sua reeleição. O governo entrou em pane, como disse o economista Paul Krugman, e teve que se ajoelhar diante dos EUA para conseguir um empréstimo de US$ 41 bilhões. Tudo isso está detalhado no livro de Luiz Marcos Gomes.

Uma análise aligeirada poderia dizer que essa cobertura da mídia – ou não cobertura – está vinculada à natureza superficial, contingente do jornalismo. Que a mídia nunca é capaz de ir à essência das coisas. E poderíamos nos dar por satisfeitos, e assim, desculpá-la. Deixou de analisar o Plano Real, deixou de perceber quem o planejara, não percebeu as diretrizes do Consenso de Washington, não examinou o processo de privatização e suas consequências, não foi capaz de investigar, ou não quis, como se embricavam os interesses dos financistas banqueiros com postos no governo com os interesses privados e, por extensão, e aí seria pedir o impossível, não tivera condições de analisar como os próprios meios de comunicação se valeram do processo de privatização.

A mídia hegemônica, cabe insistir, tem um projeto para o Brasil. A aparente cegueira diante de tudo o que se apontou, de tudo que se aprontou, não tem nada de inocente. O silêncio ou o barulho corresponde ao que lhe interessa. Já apontamos isso nos processos eleitorais. O Brasil privatizado, a privataria tucana, qualificação dada por livro recente, best-seller de Amauri Ribeiro Jr., o Plano Real como essencial à concretização do Consenso de Washington, tudo isso tinha de permanecer intocado para garantir a tranquilidade do governo com o qual a mídia hegemônica tinha completa identidade.

O livro de Amauri Ribeiro Jr., aliás, é um exemplo clássico de como a mídia hegemônica trata os assuntos que lhe são incômodos. Sobre ele, houve um impressionante silêncio, foi rigorosamente ignorado. Afinal, o livro revela como o tucanato, o ex-governador José Serra e sua família na linha de frente, confundiu inteiramente os negócios públicos e os privados, privatizou o dinheiro público, subordinou os interesses nacionais aos grandes grupos econômicos interessados na privatização. E como recolheu avidamente as sobras polpudas desse processo, de modo direto, escandalosamente, como o demonstra a impressionante massa de documentos que o autor apresenta.

A filha Verônica, o marido Alexandre Bourgeois, Ricardo Sérgio de Oliveira, o quase-primo José Marin Preciado, Vladimir Antonio Rioli foram os principais operadores de Serra, como o livro demonstra. A quem não domina isso de perto, impressiona o jogo de prestidigitação mirabolante das operações, as viagens de montantes financeiros que saem e voltam para o Brasil, as fantásticas operações de lavagem de dinheiro público, as incontáveis empresas offshore (ou empresas-camaleão) que servem a esse fim, as tentativas desmascaradas pelo livro de tentar apagar as pistas.

O dinheiro público apropriado para fins de acúmulo patrimonial privado parece, como dirá o autor, ter vida própria, está sempre mudando de nome, de endereço, de forma. Foi, como diz a chamada de primeira página do livro, o maior assalto ao patrimônio público brasileiro. Documentado, fartamente documentado, provado.

O livro é indispensável para a compreensão do que foram os anos de Fernando Henrique Cardoso e José Serra à frente do governo. Do que significou o neoliberalismo no Brasil. Como foi montada uma operação familiar para assaltar os cofres públicos. De como se fizeram fortunas fáceis. Afinal, não há experiência neoliberal na América Latina que não se tenha valido de tais expedientes – trata-se de uma prática intrínseca ao projeto. No caso brasileiro, levado ao paroxismo.

O livro, também, por si, deixa claro como a velha mídia brasileira se associou nessa empreitada, sem vacilações. Por razões políticas, ideológicas e, nenhuma dúvida, materiais. Houve tentativas de desqualificação do trabalho, anteriormente ou a posteriori, livro já nas ruas. Equivocadas, de modo geral. Houve os que quiseram tratar-se apenas de um esforço decorrente das contradições, nada desprezíveis, entre os tucanos Serra e Aécio, que saltam à vista até os dias que correm.

Se tais contradições contaram, não foram essenciais, pois o autor trabalhava no livro havia mais de uma década. Concorde-se ou não com ele, concorde-se no todo ou em parte, veio para ficar, e por sua força, vendeu tanto. Curiosamente, neste caso, a tática do silêncio foi um tiro no pé: a blogosfera entrou em campo e foi uma correria às livrarias, em pouquíssimo tempo a primeira edição de 15 mil exemplares se esgotou. E a velha mídia viu-se à beira de um ataque de nervos, pois desnudava-se uma gigantesca operação de lesa-pátria, que foi a privatização sob Fernando Henrique Cardoso.

Referências bibliográficas

BIONDI, Aloysio. O Brasil Privatizado – Um Balanço do Desmonte do Estado. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1999.

FIORI, José Luís. Os Moedeiros Falsos. Petrópolis:  Vozes, 1997.

GOMES, Luiz Marcos. Os Homens do Presidente : Banqueiros, Financistas, Grandes Empresários e Oligarcas que Estão Vendendo o Brasil e Destruindo os Direitos Sociais. São Paulo: Editora Viramundo, 2000.

JOSÉ, Emiliano. Jornalismo de Campanha e a Constituição de 1988. Salvador: EDUFBA; Assembléia Legislativa da Bahia, 2010.

RIBEIRO Jr., Amaury. A Privataria Tucana. São Paulo: Geração Editorial, 2011.

Emiliano José é professor-doutor (aposentado) em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, jornalista, escritor e integrante do Conselho de Redação de Teoria e Debate.