Especial

O memorial sempre foi nosso orgulho pela concepção, um elogio à resistência à ditadura e todas as formas de opressão. E Alípio foi o grande responsável por essa realização

Alipio no Memorial da Resistência, antigo Dops. Foto: Reprodução

Na cadeia havia divisão entre as pessoas presas, que refletiam as divisões das organizações de luta contra a ditadura. Minha organização, Movimento Revolucionário Tiradentes (MTR), surgiu de uma dissidência da Ala Vermelha e quando cheguei ao presídio levei comigo toda a carga de divergências que existia na militância de fora dos presídios. Como eu era novato na cadeia, tinha pouco mais de dezesseis anos e era o único militante da minha organização naquele espaço de sobrevivência e de convivência entre os tantos agrupamentos que lá existiam, me dediquei a observar tudo e a todos. Me chamou a atenção entre o amontoado de homens, que se espremiam no pequeno pátio de sol, um sujeito cabeludo que desfilava de bermuda e parecia estar numa praia ensolarada de qualquer ponto do país. Fiquei sabendo que aquele era Alípio Freire, militante da Ala Vermelha, que tinha resistido diante dos torturadores e não abaixara a cabeça para os militares. Só isso. Poucos dias depois de minha chegada ao presídio, Alípio me procurou no pátio de sol e me fez as perguntas típicas de quem estava preocupado comigo e com minha sanidade. Eram perguntas diferentes dos demais, que só queriam medir o meu grau de firmeza diante do inimigo, cheio de julgamentos implícitos. Alípio queria saber como eu estava. Só isso. Isso me chamou a atenção e me aproximou dele, mesmo com a carga de repulsa que minha organização tinha com a Ala Vermelha. Nem de longe eu iria concordar com as posições políticas da organização dele, pois as divisões internas da cadeia nos separavam e não me colocava junto ao pessoal da Ala Vermelha. Fizemos greve de fome e a cadeia se dividiu “definitivamente”. Os grevistas foram mandados para a Penitenciária do Estado e eu fiquei junto com os não grevistas, que ficaram no Presídio Tiradentes, após ser o único dos grevistas a ser levado para o DOI-Codi para parar a greve na porrada.Na volta, como era de se esperar, fui isolado pelos demais presos. Foi uma fase difícil para mim, que só foi amenizada pelo contato com Alípio, que conversava comigo e sempre perguntava se eu estava bem. Minha resposta sempre era de que não precisava de nada e que me viraria sozinho. Isso criou um respeito mútuo e uma amizade que se manteve. Nunca tive oportunidade de dizer ao Alípio o quanto seu gesto de atenção comigo naquele momento foi importante para mim. Conversávamos muito, debochávamos muito da caretice da esquerda e das bizarrices dos tempos de cadeia. Rimos muito fazendo coisas junto, mas nunca conversamos desse período difícil das nossas relações carcerárias. Assim como, também, nunca me passou pela cabeça cobrar o Alípio pelo que a Ala Vermelha fez ou deixou de fazer comigo, mas hoje sinto falta de não ter conversado com ele sobre esse momento definidor de nossa amizade. Tempos depois, trabalhamos juntos no jornal do PT e nossa relação profissional também foi muito boa e proveitosa. Ele era nosso editor e sempre foi atencioso com quem tinha experiência e com pessoas como eu, que não era um jornalista com tempo de trabalho considerável. Todos éramos iguais diante da tarefa profissional e política daquele jornal. O jornal acabou e a equipe se manteve ligada pelo respeito mútuo. Quando começamos a pressionar o governo do estado de São Paulo, que era tucano, para a criação do Memorial da Resistência, a ser construído no histórico prédio do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão de tortura e extermínio da polícia política do estado, lá nos encontramos Alípio e eu, outra vez. O grupo era bem sintonizado e regido pela proposta de que ali deveria ser construído um elogio à resistência à ditadura e todas as formas de opressão. Combinamos que ali não teria espaço para disputas partidárias atuais ou de épocas passadas. Alípio foi fundamental na ligação das várias visões existentes e impôs sempre um ambiente alegre e bem-humorado a nossas reuniões. Com isso, a proposta política saiu e fluiu tranquila de modo a orientar objetivamente a quem trabalhava no projeto arquitetônico e visual. O Memorial da Resistência sempre foi nosso orgulho pela concepção. E Alípio foi o grande responsável por termos conseguido realizar isso. Mesmo antes da pandemia e do genocídio cometido pelos fascistas, Alípio estava sumido e evitava aparecer em público. E sempre que nos encontrávamos era como se tivéssemos nos vistos há poucos dias. Mesmo morando em cidades distantes uma da outra. Alipio Raimundo Vianna Freire foi e é uma pessoa especial que fará muita falta a quem não quer ver a esquerda ranzinza ou mal-humorada. Ele é daquelas pessoas que ninguém fala que foi, por ser marcante para nós. Ele sempre será presente entre nós, mesmo não o vendo todos os dias. Sempre teremos nos nossos ouvidos sua debochada frase de que “O Socialismo avança!” e sempre que alguém falar em socialismo lembraremos dele. Alipio está presente e a luta continua! Ivan Seixas é jornalista