Especial

Diadema e outras experiências administrativas que surgiam representavam, em parte, a materialização dos sonhos daqueles jovens dos anos 1960, que lutavam por um Brasil justo, solidário e democrático

Equipe do Departamento de Comunicação da Prefeitura de Diadema. Reprodução

“Eu sou soteropaulistano”. Alípio Freire se autodefinia sempre com bom humor e inteligência. Trabalhávamos na Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Diadema, ele como secretário, na primeira gestão do prefeito petista José de Filippi Júnior (1993-1996). O soteropaulistanismo de Alípio indicava suas origens na cidade da Bahia. Mas revelavam também que, ainda jovem, ele veio morar em São Paulo. Essa fusão de experiências de vida indicava sua mestiçagem cultural, patrimônio de uma vida rica e diversa, que unia política, cultura e os mais diferentes aspectos do mundo. Foi esse baiano militante de esquerda, sofisticado, gentil e alegre, com quem tive o privilégio de conviver em uma cidade mestiça da periferia da Grande São Paulo. Diadema encantava Alípio, seduzido pelo caldeirão cultural de trabalhadores vindos dos mais diferentes cantos do Brasil. A cidade vivia, desde a eleição do PT à prefeitura, em 1982, uma nova forma de administração, priorizando o serviço público e incentivando a organização popular. Alípio tinha um histórico de lutas populares, de resistência à ditadura. Os militantes de sua geração tinham poucas alternativas para o enfrentamento. Nos anos 1980, Alípio traduziu sua luta contra a ditadura e pelo socialismo ao participar da fundação do Partido dos Trabalhadores, do qual foi dirigente. Três décadas depois do enfrentamento armado contra a ditadura militar, vivenciava a experiência de mobilizações populares, políticas públicas e elementos de democracia, que ele tanto valorizava. Diadema, e outras experiências administrativas progressistas que surgiam então, representavam a materialização, em parte, dos sonhos daqueles jovens dos anos 1960, que lutavam por um Brasil justo, solidário e democrático. Os anos 1990 representavam um novo ascenso do movimento popular. Diadema era a concretude desse movimento e Alípio registrou o avanço em publicações que fizeram uma fotografia de Diadema, a cidade vermelha, como Alípio gostava de falar. Ele dizia que a expressão vinha do fato de a grande maioria das construções, das moradias da população pobre da cidade refazer os barracos onde viviam em construções de alvenaria nas quais as paredes ainda não tinham sido pintadas. A cor avermelhada dos tijolos dava o tom de Diadema, onde a população se organizava para reivindicar cada vez mais por direitos. Para mim, a experiência com as transformações em Diadema também representava um sonho que alargava meus horizontes. Mas foi fundamental a convivência com Alípio, um militante com uma história de lutas exemplar. Mas foi principalmente seu olhar justo, sua ampla cultura e respeito pela diversidade, sua gentileza no trato com as pessoas que me mostraram que um comunista tinha que ter uma prática humana e uma visão de mundo ampla, plural e solidária. Walter Venturini é jornalista