Especial

Algumas das principais atuações profissionais, culturais e políticas de Alipio, bem como de alguns de seus pensamentos, os detalhes são abordados por outros artigos

Alipio, na exposição Insurreições:expressões plásticas nos presídios políticos de São Paulo. Foto: Daniel Garcia/TD

Convivi e convivo com o Alípio Freire desde muitos anos. Politicamente, como militante da Ala Vermelha (dissidência do PCdoB), desde a década de 1970 até meados de 1980, e, intimamente, como amigo fiel e irmão, até o dia da sua internação. Disse convivo logo acima, porque sinto Alípio ainda muito presente na minha vida, seja por meio da sua obra, como nas lembranças ainda frescas de nossas longas conversas frequentes. Nos últimos anos, ambos sem qualquer participação em partidos políticos passamos a ter contatos costumeiros, destinados a saborear a nossa convivência amigável e que serviram também para trocar ideias de temas políticos aos mais variados: das crianças agora adultos, da crise atual brasileira e mundial, da derrota do PT e da esquerda com o golpe de 2016, do capitalismo atual, dos problemas e dificuldades enfrentadas e existentes na esquerda brasileira, mundial e especialmente nos seus partidos políticos. Esses encontros propiciaram trocas de ideias valiosas, sempre muito ricas, e dosadas pela capacidade do Alípio de desenvolver inserções de seu humor sempre presente, combinado, com ironia, crítica profunda e bom gosto nas questões abordadas. No presente texto, não me cabe focalizar nos maiores detalhes todas as suas atividades, uma vez que já foram em grande parte abordadas por vários artigos, mensagens e notas de pesar de inúmeros amigos e companheiros, além dos vários livros e textos escritos pelo Alípio. Gostaria de apenas descrever algumas das suas principais atuações – profissionais, culturais e políticas –, bem como de alguns de seus pensamentos. Militância na Ala e na luta armada   Alípio começou a sua experiência política no movimento estudantil e, logo em seguida, entrou na Ala Vermelha. Após o golpe de 1964, como militante, seguiu o caminho da luta armada, junto com a maioria dos seus companheiros da organização e de parcela da esquerda revolucionária. Pois essa forma de luta tornou-se o único caminho, na medida em que a ditadura nos impedia de qualquer forma de reivindicação e ou manifestação política (ver: 1964 – Um Golpe Contra o Brasil, longa-metragem de 2013). Sua militância foi de extrema dedicação, sem interesses pessoais, colocando em risco a sua própria vida, portanto um exemplo de luta de um revolucionário, que jamais pode ser esquecida. Prisão e torturas Foi sequestrado e barbaramente torturado pelas organizações de repressão. Mas resistiu bravamente, vencendo moralmente as crueldades que lhe foram aplicadas, mas deixando sequelas físicas, que se mantiveram durante toda a sua vida. Depois de meses na famigerada Operação Bandeirantes (Oban), foi transferido para o Presídio Tiradentes, onde ficou preso por 5 anos (1969-1974). Ao sair, retornou para as atividades políticas com toda dedicação. (ler: “Relato de Prisão” no Brasil de Fato de 2002 e no livro, Tiradentes, um Presídio da Ditadura, além de exposições e relatos no Memorial da Resistência. Autocrítica da luta armada Mesmo na prisão, a sua militância não parou, deu importante contribuição na elaboração da autocritica da luta armada aplicada pela Ala Vermelha (Autocrítica 1967-1973). Essa avaliação foi importante porque permitiu consolidar algumas concepções. A principal era que a luta armada, naquele momento, foi uma política equivocada porque negava uma orientação importante: quem promove as transformações sociais são as massas populares, e a e luta armada substituía o papel das massas pelas ações de grupos armados isolados, resultando no afastamento da luta de classes. As diferentes atividades após o período da democratização Alípio desempenhou numerosas e variadas atividades. Além da militância partidária, sindical e em movimentos sociais, teve uma atuação relevante como jornalista, escritor, cineasta e artista plástico. Colaborou na criação do ABCD Jornal, do Repórter de Guarulhos e de outros jornais ligados aos movimentos sociais e sindical. Atuou no Sindicato de Jornalista do Estado de São Paulo, foi presidente da Associação Brasileira de Imprensa, seção SP (ABI), participou da criação das revistas Teoria e Debate e da Revista Sem Terra, membro do Conselho editorial da Expressão Popular, foi editorialista do jornal Brasil de Fato, escreveu o livro de poesia Estação Paraíso (2007) e organizou o livro Tiradentes, um Presídio da Ditadura (1995). Colaborou no filme sobre greve do ABC, dirigido por Renato Tapajós, participou na criação do Memorial da Resistência, tendo sido curador de duas exposições naquele espaço (A Luta pela Anistia: 1964, e Insurreições: expressões plásticas nos presídios políticos de São Paulo), contribuiu na organização da exposição Antônio Benetazzo, Permanências do Sensível, executou vários desenhos, gravuras e pinturas e realizou o filme, 1964: Um Golpe contra o Brasil (2013), que aborda a trama para a implantação da ditadura daquele ano. Atividades importantes No período de luta pela democratização do país, cabe destacar significativas atuações do Alipio. Luta pela anistia Como presidente da ABI-SP (foi o primeiro presidente da entidade entre 1978 a 1980) e, apesar da época política difícil que o país vivia, deu apoio a todos os movimentos que se opunham a ditadura, destacando-se na luta pela anistia que fazia parte da democratização do país. A greve dos metalúrgicos do ABC e a contribuição do ABCD Jornal De acordo com as resoluções da Ala Vermelha de investir na organização da classe operária, Alípio participou ativamente das greves dos metalúrgicos da região do ABC (1979-1980). Essas greves evidenciaram a importância da categoria na liderança da luta política do setor industrial mais concentrado e avançado do país. A repercussão da greve foi tão relevante que não se limitou a categoria dos metalúrgicos, mas serviu de incentivo para outras categorias, influenciando, também, na mudança da conjuntura política do país, contribuindo no avanço da redemocratização e no enfraquecimento do regime militar, criando as condições para a formação do Partido dos Trabalhadores (1980) e da CUT (1983). Deve ainda ser mencionado, ainda, o papel fundamental que o ABCD Jornal teve na greve, sob a direção de Julinho de Grammont, Antonio Marcelo, Robson Sasaki, Beatriz Faleiros e outros (1975 e 1982). Quando o Sindicado dos Metalúrgicos sofreu intervenção federal, o ABCD Jornal substituiu o jornal do sindicato, veículo de comunicação entre a diretoria do sindicato e a categoria. Esse jornal alternativo foi criado em consonância com o conceito de investir na conscientização das massas trabalhadoras, muito influenciado pela orientação do Alipio. Fundação do PT Alípio teve grande dedicação na criação do PT. Além de ser um de seus fundadores, participou ativa e diretamente na elaboração de seu programa. É importante lembrar que o PT surgiu da necessidade dos trabalhadores e das classes populares buscarem uma organização de massas, capaz de organizá-los e representá-los na condução de suas lutas políticas e se constituiu num avanço para a democracia do país. Para cumprir esse objetivo, militantes petistas (da qual Alípio fazia parte) defendiam que a principal atuação do partido deveria estar voltada para a organização das classes populares, pela base da sociedade, principalmente nos locais de trabalho e nos bairros. No entanto a participação eleitoral e a respectiva gestão das instituições do Estado, não deveriam ser desprezadas e deveriam ser conduzidas como forma de favorecer o fortalecimento da organização política. Essa orientação era extremamente importante, porque defendiam que embora pudessem propiciar benefícios imediatos, os problemas de exploração e de dominação política do povo brasileiro não seriam resolvidos nos limites do sistema capitalista e a luta exclusivamente institucional, pois não favorece o processo de acumulo de forças das classes populares, colocando-as sempre na dependência de uma democracia oferecida pelas classes dominantes, determinadas ao sabor das situações políticas em cada conjuntura Candidato a deputado federal pelo PT (1982) Na primeira eleição, depois da reforma partidária e com PT já existente, Alípio se lançou candidato a deputado federal. Na festa de lançamento da sua candidatura, ele faz uma intervenção política que expressa, de forma resumida e clara, os principais aspectos de seu perfil ideológico revolucionário e libertário. “Uma ponte para a Lua” (Alípio Freire) Construir uma ponte para a Utopia, uma sociedade que em primeiro lugar seriam expropriados todos os meios de produção, estaremos todos os trabalhadores proprietários dos meios de produção. Isso é necessário, mas não é suficiente. É necessário mais uma coisa. É necessário que a gente desde já recoloque a questão da Felicidade e do Prazer. Uma Revolução, uma mudança radical na sociedade que não fale da Felicidade e do Prazer, que não fale da possibilidade de todos nós, reconhecendo todas as diferenças, podemos conviver enquanto trabalhadores, isso aí não terá cumprido seu papel. Nós somos a crítica viva e real ao socialismo existente. E a retomada de toda a raiz libertária do socialismo que foi esquecida por muitos anos por vários movimentos. Esquecida, inclusive, porque a partir de um determinado momento a classe operária tomou o poder num Estado e o Estado virou uma razão para a classe operária. É preciso que o Estado seja destruído e que a gente esqueça a razão do Estado.  A nossa referência não pode ser a instituição, a nossa referência deve ser a massa em movimento. E esses movimentos não são somente reivindicativos, são as Festas. É importante fazer Festas. Existe hoje aqui um grande discurso [como houve] um grande discurso no dia 21 no Largo 13, que é o discurso do grupo, que é o discurso do conjunto, que é o discurso do Coletivo e que é o discurso da Utopia, que é a Felicidade. Nós temos de nos comprometer desde agora, desde já com a ponte para nós chegarmos a essa Felicidade. Não dá para deixar esses temas para depois. Não dá para tratar só da economia. É preciso tratar do que vai por dentro de cada um de nós. É preciso tratar de toda ansiedade, todos os desejos, de toda a perspectiva e todo o sonho que temos dentro da gente. E que a classe trabalhadora de conjunto tem dentro de si. Isso é fundamental para chegar lá, do contrário viraremos uns burocratas, uns velhos. Teremos um Estado na mão, um aparelho, uma máquina. Teremos um Estado forte, faremos guerras. Daremos mais um sapato para João, um vestido à Maria. Mas a Felicidade não é só isso, embora isso seja indispensável para a Felicidade. Nós queremos o sonho. Como diria Calígula, “nós queremos a Lua, algo que seja aparentemente impossível. E nós teremos a Lua.” A luta pela igualdade e o papel da cultura Alípio sempre defendeu uma sociedade baseada na igualdade entre as pessoas, sem qualquer tipo de discriminação. Segundo ele, apesar desta meta estar distante, uma vez que só será alcançada integralmente numa sociedade comunista, esse conceito deve ser aplicado desde já, mesmo numa sociedade capitalista. E essa aplicação necessita ser realizada pelos movimentos sociais e organizações dos trabalhadores, visando a defesa dos valores e práticas coletivas, e na defesa dos bens comuns, tanto nas conquistas imediatas, como para o desenvolvimento da consciência de classe, fazendo parte do processo de acumulação de forças. Alípio também destacava que a busca libertaria e o fortalecimento das classes trabalhadoras jamais serão conquistados se continuarmos a promover políticas que propiciam exclusivamente os benefícios econômicos, abandonando, ou colocando em segundo plano, as atividades que possam promover o avanço da consciência política e ideológica, condição para o fortalecimento das classes populares, avanço e manutenção de suas conquistas, inclusive estratégicas. Alípio citava, como exemplo, o fracasso da União Soviética, cujos governos acreditavam que bastava propiciar melhorias econômicas e sociais para que a superação dos valores conservadores viesse automaticamente. Segundo ele, essa mesma ideia política, que foi adotada pelos governos recentes e progressistas da América Latina e principalmente no Brasil, comprovou o seu fracasso por meio dos recentes golpes políticos. Isso explica a importância que Alípio dava as atividades culturais, nas suas variadas manifestações, uma vez que, segundo ele, elas tinham uma capacidade de influir nos valores da superestrutura da sociedade. Tanto é assim, que nos últimos anos dedicou-se intensamente a poesia: “...pois sem poesia não existem revoluções, mudanças estruturais ou construção do socialismo. Sem poesia (mesmo que não se traduza em poemas) apenas procederemos reformas higiênicas, importantes, necessárias e indispensáveis – mas não suficientes. Sem poesia  e sem dúvidas, estaremos sempre condenados à mesmice, a repetição de velhas formulas, ao insucesso”. O seu discurso também destacava a necessidade da crítica e da autocritica. Ponto importante na prática cotidiana de todos os militantes políticos atuantes nas lutas sociais, não como uma justificativa moral, mas como instrumento imprescindível para a superação de políticas e decisões equivocadas. E, em função da dimensão ou gravidade dos erros cometidos, a crítica deve se constituir um processo capaz de atingir todas as dimensões e não se limitar a simples reuniões com abordagens superficiais. Essa orientação atualmente seria extremamente oportuna e necessária a ser adotada para uma avaliação das políticas equivocadas adotadas, pelos partidos políticos de esquerda, diante do golpe de 2014 e o retrocesso político do país. Por tudo que foi exposto, a ausência de um revolucionário, com a dedicação, lucidez, coerência política, e os valores éticos do Alípio, é uma grande perda para os trabalhadores e o povo brasileiro. Para mim, particularmente, é a perda de um grande amigo e companheiro inesquecível. Delmar Mattes é geólogo e professor aposentado