Especial

No livro que a editora Expressão Popular anuncia, Alípio Freire arroja-se a inéditas aventuras estéticas, exercitando-se no verso livre de uma sequência de poemas de tamanho variado

Na arte deste combatente sem esmorecimento não há desencanto, só esperança e propósito de prosseguir na luta.. Foto:Daniel Garcia/TD

No livro que a editora Expressão Popular anuncia, Alípio Freire arroja-se a inéditas aventuras estéticas, exercitando-se no verso livre de uma sequência de poemas de tamanho variado. Ou, para dizer de outro modo, um poema longo disposto em partes – ciclo, rapsódia ou suíte. São assim convocados os principais mitos da civilização ocidental, e particularmente os luso-brasileiros, como o título do livro já sugere. Do rebate a contraluz da trajetória de D. Sebastião emana a aura que impregna esta lírica, mesmo quando não trata diretamente do tema. Sem a égide de D. Sebastião, muito ficaria por entender. Mais que aos brasileiros, este mito pertence aos portugueses, com conhecidos reflexos nestas plagas: a começar pelo topônimo daquela que foi durante séculos a capital do Brasil e é até hoje seu cartão postal, a Mui Heróica e Leal Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, assim batizada em homenagem àquele que era então o rei. Sem falar nos numerosos afloramentos do sebastianismo, que cá e lá repontaram. Tudo isso começou em Alcácer-Quibir, em 1578. Pois, ao tombar nessa batalha no norte da África, em que capitaneava uma impensada e anacrônica cruzada contra os mouros, o jovem D. Sebastião não passava dos 24 anos. Seu cadáver nunca foi encontrado, esse desastre mergulhando o país numa catástrofe sem precedentes. Com ele pereceu a fina flor da nobreza cuja idade regulava com a sua. Na falta de herdeiros da linhagem real, Portugal perdeu sua independência, passando à coroa de Espanha. Só em 1640, e a muito custo, recuperaria a autonomia. Como o rei não morrera oficialmente, mas apenas desaparecera, começou-se imediatamente a tecer o mito de seu regresso. Agora ele era O Encoberto, oculto pelas brumas de que ressurgiria um dia, para reconduzir a nação a um destino triunfal. Mas a ferida era profunda. Foi assim que nasceu o sebastianismo, deixando marcas indeléveis no corpo social e na literatura lusitana. Falsos D. Sebastião apareceram sucessivamente, arrastando o povo que lhes dava fé e acorria a seu apelo. As famosas Trovas do Bandarra – um sapateiro vidente – foram lidas não como quimeras populares, mas como reatualizações de Nostradamus; e tanto em Bandarra quanto em Nostradamus era possível decifrar indicações da volta do messias. Essa forma peculiarmente luso-brasileira de messianismo – quando, em tempos de crise, o povo incorpora um salvador – resultou em surtos de sebastianismo que dilaceraram a história de Portugal e do Brasil. De fato, a morte de D. Sebastião encerra, com estrondo, o grande período das navegações e descobrimentos, fase áurea que terminou abruptamente, entrando desde então a nação portuguesa em gradual decadência, da qual não mais se recuperaria. Tanto basta para criar um mito e suas irradiações. Em Portugal, resultou em alta literatura e inspirou os maiores escritores, desde os presságios funestos de Os Lusíadas até a utopia do Quinto Império do padre Vieira. Este, nascido e crescido sob domínio espanhol, tentou convencer o rei D. João IV de que cabia a Sua Majestade assumir pessoalmente a missão d`O Encoberto. Sinais como esses impregnam a obra de Fernando Pessoa, especialmente Mensagem, quando, no poema “D. Sebastião, rei de Portugal”, atribui a El Rei estas palavras: “...onde o areal está/ Ficou meu ser que houve, não o que há.”. Ao fazer o elogio da loucura, a que se deve o desatino da empreitada e por isso mesmo sua grandeza, termina por notáveis versos: “Sem a loucura que é o homem/ Mais que a besta sadia,/ Cadáver adiado que procria?” Tal é o vasto pano-de-fundo histórico e mitológico que alimenta o imaginário destas páginas: as ressonâncias não se resumem ao título, mas se disseminam por todo o ciclo poético. Os dois primeiros poemas, um médio e outro curtíssimo, “Cântico” e “Recomeço de século”, formam um intróito e constituem uma incitação à continuidade das vidas e dos processos existenciais. O cunho central desta rapsódia vem a ser seu alcance universal. O poeta estaca e, a partir de um olhar panorâmico, em gesto inaugural convoca a história do mundo e a trajetória da humanidade. A registrar, a inspiração surrealista, que apreende e transfigura em palavras um material riquíssimo, multicultural, numa meditação sobre nossas origens. Nota-se de saída o manejo da intertextualidade e o diálogo com a grande tradição literária da “última flor do Lácio”: Fagundes Varela, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e muitos outros, entre os quais Omar Khayam. Mas também pululam as citações pop, provenientes de ditados e frases-feitas, ou então pinçadas em canções: “se oriente, rapaz” e “vou navegando, vou temperando”. Sublinham a presença do ready-made, em incrustações das mais diversas procedências, inclusive o latim escolar (“Morituri te salutant”). A fusão entre erudito e popular vinca o discurso, que faz bom uso do coloquial. Outro registro a ressaltar, e que não poderia ser de somenos neste poeta, é o humor, em várias gradações, que vão do mais deslavado ao mais insidioso. A intromissão do lúdico, do infantil, até do tatibitate, só vem a acentuar o humor.Efeito para o qual concorrem a enumeração caótica e o pendor para a “palavra puxa palavra”, seja por paronomásia seja por afinidade de sentido. A opulência vocabular ganha relevo extraordinário. Entretanto, o surrealismo talvez seja o filão mais rico em que esta suíte se abebera, aparecendo já saliente em “Marco zero”, com suas homenagens a Oswald, em “Mourarias da Nau Catarineta” e em “Cordel da senhora rainha dona Tareja”. Neste último, diferindo do verso livre predominante na suíte ao utilizar a redondilha maior típica do gênero, o poeta interroga a mãe de D. Afonso Henriques, fundador da nação portuguesa. Este, como se sabe, expulsou o invasor mouro e se desentendeu com a mãe, mandando pô-la a ferros, como dizem os cronistas coevos. O poeta tenta deslindar o enigma do mito – mais um mito luso a compor a matéria literária –, já que a reputação da rainha acolhe várias versões. Todas essas características fortalecem a “Romança da Cadela Dourada”, poema extenso que ocupa mais da metade do conjunto. Ali vêm convergir harmoniosamente os elementos que se vinham acumulando: o surrealismo, os jogos vocabulares, as fontes históricas. No jorro incoercível da imaginação, o poema é visionário, profético, sibilino, exemplar de poesia invocatória. Não é casual que as alusões bíblicas sejam tantas. Nesta instância, as fontes tornam-se ainda mais remotas: não mais as sagas apenas lusitanas, mas sim as orientais, hebraicas, árabes e gregas. O leitor tem sua suspeita atiçada e dirigida pelas notas ao final dos poemas, indicando em que latitudes foram compostos. Em livro anterior, Estação Paraíso, belo volume dado à luz pela editora Expressão Popular, Alípio Freire recolheu parte de seus poemas, criados ao longo de muitos anos e que, caso raro no país, privilegiam a política. Escritos em memória de um passado militante, celebram a crônica da resistência à ditadura e os que nela tombaram. Predominam amplos vôos líricos, numa dicção a muitos graus de elaboração, que se quer chã e despretensiosa. A exemplo de Das Brumas de Alcácer-Quibir, trazem um diálogo aberto com nossa tradição poética, a todo momento irrompendo interpelações a outros vates, que vieram antes e que impressionaram este. Na arte deste combatente sem esmorecimento, não há desencanto, só esperança e propósito de prosseguir na luta, arrostando perdas, ostentando cicatrizes. Seus temas, apesar de tudo, não roubam o brilho ao raio de sol desferido pelo humor, que ilumina com certa frequência o panorama de Estação Paraíso – outro elemento em comum com o presente livro, não poupando o leitor da garra do autor. No livro anterior ainda se observava uma certa contenção. Agora, o estro rompeu as amarras e alçou voo livre, libérrimo. No entanto, o credo do poeta, que nunca se desmente, já fora plantado (ou chantado, como se escrevia no tempo de D. Sebastião) num padrão de pedra, nessas páginas que vieram antes. Como ele mesmo bem sabe, ao explicitá-lo no que poderia ser o lema de seu brasão, ainda que brasão proletário por convicção:

Com a memória em 64

os pés em 22

a cabeça em 68

e o coração sem tempo

E não poderia ser mais precisa a formulação. O ano de 64 efetuou a ruptura de nossos destinos, ao interromper a trajetória democrática brasileira mediante a brutalidade de uma ditadura militar. Em 68 nossas vidas se definiram perante o AI-5, quando as perspectivas se cerraram tendendo a zero e as trevas tombaram, soando a dobre de finados das esperanças de toda uma geração. Mas a fé na utopia forjou a resistência e teve guarida em posições políticas de confronto, encontrando suporte estético nos ideais libertários e de vanguarda da Semana de Arte Moderna de 1922: façanha de que só é capaz um coração que fique suspenso acima do tempo. Sem isso qualquer sobrevivência seria em vão; é o que diz este poeta, que ora nos empresta sua voz. Walnice Nogueira Galvão é crítica literária, professora emérita da FFLCH da USP e integrante do Conselho de Redação de Teoria e Debate