Especial

Alipio viveu uma vida intensa e defendeu as ideias mais jovens: o comunismo, a revolução, a humanidade, a liberdade, a fraternidade, a igualdade, a felicidade e a alegria

Queria viver mais e – como fazem muitos bons ateus – lutou o quanto pode para ficar por aqui conosco. Reprodução/Acervo de Natalia Revale

Em 1993, a chamada esquerda petista ganhou o Encontro Estadual do PT de São Paulo e indicou o secretário de Comunicação do partido, diretor responsável por duas publicações impressas que tinham circulação nacional: o boletim Linha Direta e a revista Teoria e Debate, esta última criada em 1987. A nova direção introduziu alterações no Conselho de Redação da revista. O conselho anterior era composto por Eugênio Bucci, João Machado, Maria Rita Kehl, Paulo de Tarso Venceslau, Renato Simões e Ricardo Azevedo. O novo conselho passou a ser composto por André Singer (que se licenciaria), Carlos Eduardo Carvalho, Eduardo Tadeu Pereira, Emir Sader, Eugênio Bucci, Fernando Haddad, Igor Fuser, José Corrêa Leite, Maria Rita Kehl, Markus Sokol, Paulo de Tarso Venceslau, Ricardo Azevedo, Valter Pomar (diretor da revista) e Alípio Freire. Além de integrante do Conselho, Alípio assumiria também a edição da Teoria e Debate, tarefa que ele tocou entre 1993 e 1995. A conferir nos arquivos, mas Alípio deve ter editado da edição 22 (setembro de 1993) até a edição 29 (agosto de 1995). Tinha um estilo muito peculiar de trabalhar, mas sobre isso quem melhor pode falar é a Rose Spina, secretária de redação e para muitos efeitos coeditora da revista. Antes, depois e paralelamente ao trabalho da revista, Alípio tocou inúmeras atividades, relacionadas a sua trajetória profissional, política e pessoal. Seu nome completo era Alipio Raimundo Viana Freire. Nasceu em 4 de novembro do ano de 1945, na cidade de Salvador, Bahia. Desde 1961 morava em São Paulo. Militante da Ala Vermelha, foi preso em 31 de agosto de 1969, por sua participação na luta armada contra a ditadura militar. Passou cinco anos preso. Depois, entre tantas outras coisas, trabalhou como jornalista e foi presidente da seção paulista da Associação Brasileira de Imprensa, posição que ele ocupava quando discursou – junto de Wladimir Pomar, Rachel Pomar, Luís Eduardo Greenhalgh e Apolônio de Carvalho – no traslado dos restos mortais de Pedro Pomar. Artista plástico e jornalista, participou de inúmeras iniciativas editoriais (como a revista Sem Terra e o jornal Brasil de Fato), mostras, filmes e documentários. Aliás, no mesmo período em que editava a Teoria e Debate, Alipio também dirigiu um programa de TV do PT São Paulo, dedicado à memória dos mortos, torturados e desaparecidos pela ditadura militar. O programa foi transmitido em TV aberta, como manda a lei. Há boatos de que causou um certo desagrado em setores da direção partidária de então, talvez porque já estivessem na “vibe” de “virar a página” dos golpes. Alípio Freire também trabalhou nas administrações petistas das prefeituras de Diadema, Santo André e Campinas. Jandyra Uehara, Miriam Belchior e Izalene Tiene saberão contar sobre estas experiências, respectivamente. No caso de Campinas, ele contribuiu muito no trabalho de participação popular. Alipio era uma pessoa muito gentil, muito bondosa e extremamente culta. A casa onde viveu por vários anos no Pacaembu com a Rita Sipahi era um retrato disso. Outra de suas qualidades – além de gostar de cachorros, tendo dado a pelo menos um amigo uma inesquecível filhote de labrador – era um senso de humor mordaz, que volta e meia produzia comentários que os não tão amigos consideravam inconvenientes. Por sinal, algumas de suas opiniões sobre determinados personagens do nosso partido são absolutamente impublicáveis – o que não quer dizer que ele estivesse errado, muito antes pelo contrário. Nos últimos tempos, Alipio passou a usar bengala, com a qual compareceu em certa bodas de ouro a convite do grande companheiro Clóves Castro. Como muitos outros de sua geração, Alipio viveu uma vida intensa, na qual defendeu as ideias mais jovens que existem: o comunismo, a revolução, a humanidade, a liberdade, a fraternidade, a igualdade, a felicidade e a alegria. Alípio partiu aos 75 anos de idade, no dia 22 de abril de 2021. Queria viver mais e – como fazem muitos bons ateus – lutou o quanto pode para ficar por aqui conosco. Nos seus arquivos, certamente há muita coisa interessante e importante, muitas linhas e muitos planos. Infelizmente, Alipio não cobrirá mais nenhum ponto, nem poderá mais nos ajudar a “combater o oportunismo do comitê central”. Um puta abraço, Alípio Freire! Valter Pomar é diretor da Fundação Perseu Abramo e membro do Diretório Nacional do PT