Especial

Alipio era artista e defendia que a expressão e a fruição artística são direitos inalienáveis de todo cidadão, independentemente de idade ou classe social

Desenhos de uma elegância refinada e precisa. Pequenos ideogramas, partituras de músicas silenciosas, quase haicais visuais. Reprodução

Meu amigo Alipio Freire era artista. Fazia poesia com linhas, cores e palavras. Seus desenhos antecederam, para mim, seus poemas. Desenhos de uma elegância refinada e precisa. Pequenos ideogramas, partituras de músicas silenciosas, quase haicais visuais. Não me lembro quando, nem onde os vi pela primeira vez. Recordo apenas que me encantaram e propus que fizéssemos uma exposição na Emia (Escola Municipal de Iniciação Artística de Santo André), que em 1992 completava dois anos de existência. Trabalhávamos, então, na Prefeitura Municipal de Santo André: ele no Departamento de Comunicação e eu no Departamento de Cultura. Eu admirava seus desenhos e, penso hoje, ele admirava o projeto da Emia, uma escola de arte que possibilita que crianças, adolescentes e adultos de todas as classes sociais criem e apreciem arte. Meu amigo Alipio era artista e defendia que a expressão e a fruição artística são direitos inalienáveis de todo cidadão, independentemente de idade ou classe social. Mas isto só fiquei sabendo mais tarde, quando nos reencontramos,  três anos depois, na Prefeitura Municipal de Diadema: ele no Departamento de Comunicação e eu no Departamento de Cultura. O primeiro projeto que desenvolvemos juntos foi a exposição A Fabulosa Alegria de Viver, com trabalhos realizados por artistas plásticos nos presídios políticos de São Paulo entre 1969 e 1979. Uma pequena amostra de sua coleção, que na época contava com cerca de quatrocentas obras. Foi quando conheci o artista militante, que travava uma luta incansável em todas as trincheiras imagináveis: possíveis e impossíveis. Foi, também, quando descobri a trincheira do artista colecionador. Conservar as obras era um projeto de resistência:

Tempo houve em que a estatura dos homens e mulheres se media pela generosidade dos seus códigos de valores, pela coerência dos seus gestos com seus discursos, e destes com suas idéias.

Tempo de esperanças coletivas, quando o grande projeto era uma nova sociedade, de mulheres e homens novos. Tempo de mulheres e homens candidatos apenas a construir um mundo novo – não lhes importando o preço pessoal que devessem pagar.

 Tempo de uma fabulosa alegria de viver.

Tempo haverá.

De grande dignidade.

Pois diversos são os tempos.

E se o presente se nos apresenta como o paraíso da fisiologia e do carreirismo; se o presente se nos apresenta mesquinho, e o neoliberalismo – o projeto do grande capital-; parece invencível e a muitos só restou aderir…outros resistem e resistirão.

E é esta resistência que nos devolve a fabulosa alegria de viver.

(Alipio Freire, Diadema, 1995)

A exposição foi concebida por Alipio como uma instalação. Os visitantes entravam em um túnel escuro, reproduzindo uma sala de tortura, que desembocava na galeria iluminada. O espaço expositivo contava, ainda, com fotos e textos, contextualizando o período no qual as pinturas foram produzidas. Era nosso primeiro projeto conjunto e pude apreciar sua generosidade, sua capacidade de envolver a equipe e valorizar cada participante, sem distinção de cargo ou função.

Assim, ainda que sob a coordenação dos Departamentos de Comunicação e de Cultura (através sobretudo da sua Divisão de Artes Plásticas), “A Fabulosa Alegria de Viver” significa um esforço de criação e execução coletivo, envolvendo do Jurídico à Secretaria de Administração; de Obras a Parques e Jardins; do Projeto Pé na Rua à Escola Profissionalizante; das secretarias ao prefeito; dos “guardinhas” aos profissionais mais especializados; dos marceneiros aos projetistas; dos desenhistas às costureiras, e destas à chefia de Gabinete; dos artistas que trabalharam suas obras na prisão aos pintores e eletricistas de Diadema; da história dos que resistiram à daqueles que fazem a história presente. De todos nasceu esta instalação.

Um trabalho coletivo capaz de criar a fabulosa alegria de viver.

(Alipio Freire, Diadema, 1995)

Esta apresentação sintetiza de forma exemplar sua utopia socialista. Reconheço, hoje, que a exposição selou nossa parceria de trabalho. Foi quando ficou claro que compartilhávamos, além da arte, o mesmo prazer em servir à cidade, assim como o entendimento de estarmos servindo a um público que, muito provavelmente, nunca saberia quem idealizou e pôs em movimento aquele projeto, mas se beneficiaria com a sua existência. Os Centros Culturais estavam, então, sob minha responsabilidade e constatava que, apesar do amadurecimento do trabalho das oficinas de arte, o conceito de espaço cultural ainda não estava enraizado na cidade. Alipio entendeu, sem necessitar de nenhum convencimento (porque já era convicto), que para que os Centros Culturais se tornassem, realmente, espaços de cidadania, fazia-se necessário investir na conscientização da população através dos meios de comunicação. Com o slogan, "Um espaço de arte e de graça – apareça no Centro Cultural do seu bairro", foram criados outdoors e cartazes espalhados por toda cidade, ao mesmo tempo que os Centros promoviam festas e reuniões nas quais a população tinha a oportunidade de discutir o caráter e a importância dos equipamentos de cultura para a cidade. Diadema terminou o ano de 1996 com mais de 2000 alunos frequentando as oficinas de teatro, artes plásticas, cerâmica, dança, canto coral, educação musical, violão, percussão e cavaquinho. Esse número, quando acrescido ao de espectadores dos espetáculos, atingiu a marca de 15000 pessoas favorecidas pela ação dos dez Centros Culturais. Enquanto o processo de apropriação se desenrolava, Alipio idealizou e produziu um livro Diadema Centro Cultural. A escolha do título revela a intenção de provocar estranhamento. Diadema conhecida pela violência, celebrada pela cultura. Acreditando que o que acontecia nas oficinas só poderia ser plenamente compreendido através do testemunho das imagens, contratou o fotógrafo Gal Oppido para registrar as atividades cotidianas de cada espaço. O livro de 155 páginas tem apenas 22 de texto, incluindo as do índice e as dos créditos das fotos e dos artistas e agentes culturais envolvidos no projeto. Um livro de arte. Em dezembro de 1996 todos usuários dos Centros Culturais receberam um livro no qual podiam se reconhecer como protagonistas de um amplo processo de criação.

Impossível pensar em democracia sem pensar em plena garantia do direito de acesso e produção de conhecimento; sem pensar o pleno direito à expressão, ao domínio da comunicação e seus instrumentos; sem o pleno direito ao verbo de modo que se faça carne; sem pleno direito à fala. (…)

Com as oficinas, os frequentadores do centro experimentam as diversas linguagens e técnicas artísticas, têm sua iniciação enquanto sujeito do fazer artístico e, ao terem acesso ao fazer, conquistam não apenas o direito à fala, mas, o que é muito importante, desfetichizam aquela “arte”, desmontam o inefável, dando passos firmes em direção da cognição dos signos e suas relações. Mais ainda, exercitam e desenvolvem seu potencial de expressão - de criador de novos símbolos, de organizador/desorganizador de discursos e normatizações. E como se tornam subversivos! E como são capazes de pensar e expressar dimensões antes impensadas ou impensáveis da realidade ( objetiva ou subjetiva - tanto faz )! Idealizam. Propõem. Refletem. Produzem conhecimento, uma vez que criam. O conhecimento é sempre um exercício de criação.

 (Alipio Freire, Posfácio, Diadema Centro Cultural, 1996)

 Foi assim que nos tornamos amigos. Muito amigos. Até que ele se tornou meu padrinho de casamento. Afilhada, era para ele, um título muito mais poético que qualquer outro que eu pudesse ter. Mas isto só vim a saber mais tarde. Quando já era tarde demais… Meu amigo Alipio era artista e meu padrinho. A bênção, Camarada Padrinho! Ana Angélica Albano é professora Livre Docente da Faculdade de Educação da Unicamp. Licenciada em Desenho e Plástica pela FAAP, doutora e mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Coordenou projetos culturais de Iniciação Artística nas Prefeituras de São Paulo, Santo André e Diadema (de 1983 a 1997).