Especial

Alípio não se contentava com o que já estava escrito. Queria ainda trabalhar sobre seus textos, lapidá-los, torná-los ainda mais aceitável por seu rigor de artista rigoroso
 

Alipio, em retrato da artista plástica Laura Fraíz-Grijalba Lindoso. Reprodução

Grande parte dos textos literários do Alípio Freire está inédita. Artista plástico, além de escritor, ele via seus textos organicamente ligados à maneira como seriam editados e por isso, creio, tinha o maior cuidado em escolher uma editora que pudesse publicá-los respeitando a forma como ele, o autor, previu. Além disso, não se contentava com o que já estava escrito. Queria ainda trabalhar sobre eles, lapidá-los, torná-los ainda mais aceitável por seu rigor de artista rigoroso. Seu único de livro de poesias publicado, em 1992, Estação Paraíso aconteceu dessa maneira. Primeiro, ele mesmo os publicou em uma tiragem artesanal para os amigos mais próximos, e os colocou em uma caixa de papelão forrada com tecido junto com um Livro de Leitura – Composições que trazia uma série de seus desenhos, acompanhando o livro de poesias propriamente dito, o Estação Paraíso (“texto, imagens e caixa: um só objeto”). Em 2007, finalmente o livro veio à luz para um público maior, pelas mãos da Editora Expressão Popular. Foi muito bem recebido pelos leitores e pela crítica literária, como pode ser visto no texto crítico de Wilberth Salgueiro, publicado no jornal literário Rascunho, de Curitiba. Antes, em 2006, a Expressão Popular publicou Contos Brasileiros, do qual Alípio participou com a coordenação e um conto, “A Longa Marcha”, onde fala de uma adolescente grávida, militante do Movimento dos Sem Terra. Depois, vieram os outros ainda inéditos. Deles, dois originais ele deixou em uma caixa, prontos para seguir assim que fosse decididoqual editora. Três outros estão praticamente finalizados, esperando apenas a revisão final que, lamentavelmente, já não será feita por ele. Todos os de literatura vinham sendo escritos há muitos anos. Com certa constância, no grupo de amigos que sempre reuníamos, ele nos brindava com alguns trechos ou frases de seus poemas, ou poemas inteiros (em geral, curtos), soltando-os como sepor acaso e esperando nossa reação, recebida com aquele seu sorriso largo e conhecido. Hoje penso que, nessas reuniões, ele testava as ideias que estava germinando. Assim, por um tempo, ele soltava comentários sobre rinocerontes machos e suas fêmeas em frente a espelhos vestidas com tutus (personagens da alegoria que ele estava criando). Ou soltava um poema curto sobre o ridículo de um general (de outro livro que estavacomeçando a elaborar). Tínhamos (ele e eu) um contato específico em relação a esses originais. Como escritora, Alípio sempre foi um dos meus primeiros leitores e interlocutores a quem devo o que nunca poderei pagar. E assim, reciprocamente, quando ele tinha uma versão relativamente pronta dos seus, me passava o texto para leitura. Anos e anos se passavam, esses originais não eram publicados, o que me deixava perplexa, tanto como escritora como por ter sido editora (da Marco Zero, de saudosa lembrança, onde o Alípio trabalhou um período curto). Em nossas conversas, nesses anos todos, muitas vezes entrava o assunto de sua demora em publicar seus livros e, não muito tempo atrás, angustiada com suas hesitações em enviá-los logo para uma editora, lhe perguntei com a franqueza que sempre fez parte de nossas conversas, se o que pretendia era guardá-los para serem publicados post-mortem. Não perdoo ao genocida que o matou com seu negacionismo e sua política de disseminação do vírus ter dado a essas minhas palavras o gosto de uma amarga profecia. Quando chegou a vez de Alípio se vacinar, ele já estava com a Covid-19. O primeiro e o mais antigo desses textos, talvez de uns dez anos atrás (realmente, ele não tinha pressa) é um romance escrito como uma espécie de alegoria (era o romance dos rinocerontes, ou dos “rinos”, como ele dizia) tratando da jornada de um militante contra a repressão da ditadura civil-militar. Estávamos em um momento de ascensão da esquerda mas o final da versão que li era de terrível pessimismo. Como se, desde então, ele pressentisse o que se seguiria. O texto estava praticamente pronto até ele decidir, entre outras considerações, a abrir um capítulo (ou intercalar os capítulos) com um dicionário sobre os tipos de tortura usados, e seus instrumentos. O segundo é um extenso poema intimista, lírico, sensual, belíssimo: Das Brumas de Alcácer-Quibir. Estava tão pronto que já tinha inclusive uma poderosa apresentação de Walnice Nogueira Galvão. Dada sua grandeza, é o que mais sinto ele não ter publicado em vida. O terceiro, Da Ordem Política e Social, é um conjunto de poemas curtos e jocosos (como ele adorava fazer), mostrando como poderes e instituições estavam podres. É o Alípio, com sua verve e ironia, tirando as roupas dos poderosos, as fardas dos generais, as togas dos juízes. Esse era um original interminável. A cada momento, ele tinha um novo poema para acrescentar. Pensava, inclusive, talvez em desdobrá-lo em dois. Durante a pandemia, pelo que sei, Alípio estava trabalhando em mais dois originais: um reunindo seus textos escritos para jornais, artigos de grande atualidade também hoje; o outro, com textos avulsos ou poemas curtos. No meio dos papéis que ele deixou, é provável que outros textos apareçam, ainda que não finalizados. Só nos resta agora esperar um pouco mais. É certo que Rita, Camila e Maiana haverão de encaminhar, da maneira mais linda e fiel possível, esses seus originais inéditos à publicação, e assim poderemos celebrar, depois da pandemia, mais um maravilhoso legado que nosso múltiplo e querido Alípio Freire nos deixou. Maria José é escritora, autora de Maria Altamira (Instante, 2020), entre outros