Especial

Em 1974, logo após 5 anos de confinamento, Alipio foi morar com a gente. Um pouco antes, tinha me enviado uma colagem, era um elefante, que segue enquadrada na minha casa

Elefante, colagem de Alipio Freire. Reprodução

Meu nome é Camila, filha de Rita e Ari, irmã de Paulo e Maiana, enteada de Alipio e Cida, mãe de Flora e Bento, sogra de Danilo e avó de Tom. Nos conhecemos há 50 anos. Foi no Presídio Tiradentes. Eu tinha 5 anos. Alipio estava preso havia dois. Em 1974, logo após 5 anos de confinamento, ele foi morar com a gente. Um pouco antes, tinha me enviado uma colagem, era um elefante, que segue enquadrada na minha casa. Com 28 anos, ele convivia com duas crianças e nos ensinava como se portar à mesa, quando falar, quando sair da sala para os adultos conversarem. Ao mesmo tempo, reservava tardes para ouvirmos música juntos. Explicava os significados intrínsecos das letras, contextualizando, fazendo conexões, assim como fez com “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque, e muitas outras músicas de Gal e Bethânia. Sempre de uma forma estimulante, com um olhar feminista, eram aulas sem parecer ser. Aos quinze anos, perguntei como era uma sessão de tortura. Essas ideias me assombraram sempre. Mais tarde, vim a entender que os medos construídos no inconcreto são muito mais poderosos. Na época, ele me explicou o que era tortura, deu contornos, tingiu cores e me encheu de informações que permitiram que eu me libertasse das dores que eu não tinha sentido... foi parceiro a vida toda. Foi parceiro. Lembro bem de um dia quando estávamos viajando em Atibaia, eu já adulta, tinha acabado de perder o pai de minha filha, Flávio, num acidente de carro. Estava muito ferida pela vida, extremamente frágil e ele me chamou pra descer um rio de pedras. Fomos. No início, ele me deu instruções rápidas sobre onde pisar, onde me apoiar e duas ou três vezes segurou a minha mão. Depois, imprimiu um ritmo na descida que era rápido e certeiro... fiquei com medo. Pouco falávamos, ele à frente. Eu caia e levantava, ele seguia. Lembro de me desesperar, chorava por dentro, ele seguia em frente. Por fim, chegamos ao destino. Eu estava com raiva, tinha precisado de ajuda e ele sempre seguia em frente... Após algumas horas de descanso entendi. Ele tinha me ensinado sobre como caminhar entre as pedras e a levantar depois das quedas, o trabalho tinha sido meu. Eu tinha conseguido transpor os desafios, eu tinha conseguido! Ele tinha feito tudo muito consciente, nunca nada era por acaso. A partir dali me tornei mais forte, mais resistente. Reconheci em mim a força que estava guardada e que ele me ajudou a revelar. Esse era o Alipio. Um companheiro de vida, um gigante gentil, incisivo, discreto com suas vitórias, engraçado, mordaz. Nunca vou esquecê-lo, assim como meu elefante. Meu amor e gratidão eternos. Camila Sipahi é designer gráfica