Especial

Um breve panorama das transições e pontes que nosso homenageado construiu junto aos movimentos sociais nas duas últimas décadas

Arte-Cartaz de "Filha da Anistia" (2011), composto por Alipio com os coautores e atores da peça, Carolina Rodrigues e Alexandre Piccini.

Lá vai o trem com o menino lá vai a vida a rodar lá vai ciranda e destino cidade noite a girar... (Ferreira Gullar)   Colecionador de Memórias Nós todos devemos muito ao Alipio. Eu o conheci em 1999, talvez num dos importantes momentos de mais uma transição histórica vivida, a um só tempo, pelo Ala e os movimentos sociais populares brasileiros aos quais se associava – ali em ascensão. Bio havia lançado com Izaías Almada e J.A. Greenville a coletânea sobre a experiência no Tiradentes: um Presídio da Ditadura (Expressão Popular, 1997), e já participava ativamente das pré-confabulações que viriam a desembocar, cerca de 10 anos mais tarde, na construção do Memorial da Resistência, na Estação Pinacoteca – antigo prédio do Dops. Os primeiros dois encontros com a figura “do Velho” foram breves, porém muito significativos, na casa da família Stedile, no mesmo ano. Estávamos, com outros jovens amigos, entre os quais Maurício Stedile e o Leonardo Mattes – alguns dos “filhos das tribos”, todos estudantes começando a construir os primeiros núcleos da Consulta Popular nas universidades de São Paulo, muito inspirados pela recentíssima “Marcha Popular Pelo Brasil”, a “marcha da ousadia”, que o MST havia realizado em meados de 1999, saindo do Rio e de vários outros pontos do país com mais de 100 mil pessoas tentando “organizar um movimento, orientar o carnaval, no Planalto Central do país”. Por um “outro projeto popular para o Brasil”, uma “opção brasileira” ante a histórica “opção imperialista”, nos termos de Mário Pedrosa, e a sua correlata recente “opção neoliberal”.

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Alipio ainda era o editor da Revista Sem Terra, e a reunião daquelas figuras mais velhas e experientes, junto a uma gama de jovens, também aguerridos sonhadores, nos inspirava e motivava a estar mais próximos com os movimentos sociais e suas construções cotidianas, mais do que qualquer outra forma ou opção de atuação política. O MST e tais movimentos apontavam para o novo, para o que acreditávamos e começávamos a nos engajar de corpo e alma em prol dos “Outros 500” para o Brasil e o “Outro Mundo Possível” – que a partir dos anos 2000 viraria lema do Fórum Social Mundial (FSM), desaguando em importantes conquistas e vitórias para o povo brasileiro naquele momento. Esses outros quinhentos e tais outros mundos, porém, se ainda forem possíveis, deverão muito a Alipio, este jornalista, escritor, artista plástico, pesquisador e curador, poeta e editor, além de diretor de videodoc quando preciso foi (dirigiu 1964: Um Golpe Contra o Brasil, pela TVT em 2013). Um trabalhador muito ativo da cultura e da comunicação de nosso país, com toda sua história de resistência à ditadura civil-militar anterior, uma referência para nós, os mais jovens. Ainda que ele  insistisse no contrário, naquele tom piadista de sempre: na real, era o “mais jovem há mais tempo”.

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No ano seguinte, vários desses movimentos sociais já muito referenciados nele saímos rumo a Porto Seguro (BA), em abril, justamente para os protestos pelos “Outros 500” contra as comemorações oficiais e oficiosas organizadas pelo governo de FHC (PSDB), com o governo baiano, ainda sob a total influência de ACM Velho, e sob o suborno de muitos poderes e lideranças sociais locais, com as nossas caravanas autônomas de todo o país: os sem-terra, o movimento negro, o movimento estudantil e dos demais trabalhadores da educação, feministas, além do grande acampamento e verdadeiro marco do (re)encontro nacional interpovos originários que se organizou como contraponto na ocasião. Os livros da Expressão Popular e a Revista Sem-Terra, editados por Alipio na ocasião, eram materiais informativos e formativos de cabeceira, companheiros dessas viagens. E realmente preparávamos uma enorme manifestação conjunta que foi reprimida, com a brutalidade de praxe, antes mesmo que tais caravanas e marchas diversas pudessem se encontrar na BR-116 rumo ao centro da cidade. Todo este novo tronco de movimentos sociais populares (com raízes e resistências ancestrais), que se renova no Brasil a partir de meados dos anos 1990 até hoje, deve muito a figuras como o Alipio, assim como ao casal Regina Lúcia dos Santos e Milton Barbosa, fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), que estavam em Porto Seguro nessa luta.

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Em 2003, voltaríamos a nos encontrar na construção e formação do jornal Brasil de Fato, ainda na sua primeiríssima geração, sob a breve editoria geral do jornalista José Arbex Jr., enquanto Alipio seguia integrado ao Conselho do jornal. O ato de lançamento do BdF, no Ginásio Araújo Viana em Porto Alegre (RS), estava lotado com mais de 60 mil pessoas, durante o FSM, não tinha como não se arrepiar com a reunião e intervenções co-moventes de figuras como Aleida Guevara, Eduardo Galeano, Kiva Maidanik, Noam Chomsky, Hebe de Bonafini, Sebastião Salgado, Plínio de Arruda Sampaio, Leonardo Boff, dentre muitos outros. Construtor de Pontes Em 2006, Alipio passa a se interessar por ocupações urbanas dos sem-teto e a aprofundar suas reflexões, especialmente sobre a inovadora experiência da “Brigada de Guerrilha Cultural do MTST”, construída à época por militantes dos sem-teto junto a diversos coletivos culturais multilinguagens, negros e periféricos, estudantis e artísticos, pessoal dos saraus, em particular da  Zona Sul de São Paulo. Em 2007, se entusiasmou ainda mais com a cobertura conjunta da também explosiva “Semana de Arte Moderna da Periferia”, proposta pela Cooperifa com vários outros coletivos e movimentos culturais periféricos na ocasião – do aniversário de 85 anos da Semana de 22. Alipio nunca deixou de ser um existencialista com “a memória em 64/ os pés em 22/ a cabeça em 68/ e o coração sem tempo”, como nos versos de um de seus poemas da Estação Paraíso. Ala nunca mais deixaria de acompanhar de perto, e com grande entusiasmo, ter um carinho profundo, e maior parte das vezes, recíproco, tal vasta e riquíssima cena das novas estéticas de rexistências negras e periféricas, estudantis, culturais e políticas – incluindo as mais recentes dos estudantes secundaristas das bordas da cidade às periferias do Centro. Entre 2007 e 2008 realizamos uma vasta pesquisa sobre os “40 anos de 1968”, num coletivo de jovens estudiosos formados por Alipio a partir da finada “Brigada de Guerrilha Cultural” e de participantes de coletivos culturais periféricos da capital paulista, reunindo pessoas como Rodrigo Gomes, Francielle Jordânia, Leandro Armelin e Gustavo Moura, Lucrécia Martins e Pedro Henrique Nunes. Foi um trabalho de pesquisa minucioso e de fôlego. Em 2008, Alipio participou assiduamente da construção do “Tribunal Popular: o Estado Brasileiro no Banco dos Réus” (idealizado pelo por Miltão Barbosa, com inspiração em ação sobre o Furacão Katrina, no ano anterior, em New Orleans, EUA), do qual Ala foi um dos jurados na atividade final, realizada no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em dezembro daquele ano. Foi no bojo dessa construção, que durou praticamente todo ano de 2008, que Alipio conheceu e se aproximou das “Mães da Baixada”, as Mães dos Crimes de 2006 ocorridos no estado de São Paulo. Alipio foi importante para o que viria a se transformar no Movimento Independente Mães de Maio. O símbolo principal do movimento, a bandeira do Brasil em P&B com cruzes no lugar das estrelas, e a inscrição geometricamente bem disposta ao centro com as insígnias “Memória | Verdade E Justiça | Liberdade” tiveram seus dedos e suas sempre cuidadosas e rigorosas considerações em sua composição, neste caso plástica e cromática também. Alipio foi dos raros parceiros, colaboradores e autores a participar, também, dos primeiros dois livros-coletâneas lançados pelo movimento: Mães de Maio: do luto à luta (Nós por Nós, 2011) e Mães de Maio, Mães do Cárcere: a periferia grita! (Nós por Nós, 2013), com artigos importantíssimos – divisores na elaboração geracional de ex-presos e resistentes da ditadura a respeito da continuidade do terrorismo de Estado pós-“redemocratização”. Como Alipio bem sintetizou, num de seus poemas mais conhecidos: “DA TRAGÉDIA – Nós sobrevivemos ao pau-de-arara / Mas o pau-de-arara também sobreviveu”. De novo: reunindo e recontando histórias, construindo pontes, semeando novas inspirações para um futuro – realmente igualitário e livre. Semeador de sonhos Incansável, Alipio participou também da construção, a partir de 2009, do projeto de resgate da memória do “Cine Bijou”, na Praça Roosevelt, junto ao coletivo de artistas periféricos do Sarau da (Cidade) Ademar: Alê Ferros, Ane Alves e Sil Martins, entre outras figuras que participavam daqueles encontros com projeções e debate-papos, como as poetas e professoras Juliana Romão e a Lígia Harder. Ala em parceria com sua amiga, a diretora teatral e atriz Dulce Muniz e o ator Leandro Lago realizaram juntos sessões memoráveis.

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Seu zeloso e permanente trabalho relacionado à memória, tal qual sua militância, também era “multiforme”, como bem definiu recentemente a crítica de arte Walnice Nogueira Galvão. Alipio participava e construiu ativamente, além do acervo e exposição fixa, duas importantes intervenções e muitos debates e outras atividades no Memorial da Resistência (assim rebatizado e inaugurado em 2008), especialmente junto ao então nascente Núcleo Memória – de preservação das histórias da ditadura, idealizado por ele, ao lado dos ex-presos e amigos Ivan Seixas e Maurice Politi, apoiados por figuras como o saudoso Milton Bellintani, além de Rita Sipahi e Clara Politi, e as mais jovens Tânia Veiga, Maria Carolina Bissoto, Vanessa Gonçalves, dentre outros poucos e bons. Duas das exposições mais notáveis no Memorial nessa época, com a participação determinante de Alipio, foram “A Luta pela Anistia: 1964 – ?" (2009) e “Insurreições: expressões plásticas nos presídios políticos de São Paulo” (2013), esta composta pelo seu acervo de obras de ex-presos da época da ditadura, muitas das quais feitas dentro do cárcere. Lembremos ainda a consultoria que prestou à pesquisa para a telenovela Amor e Revolução (2011-12) do SBT. Logo na sequência engata, especialmente junto aos jovens pesquisadores e realizadores de audiovisual, Tânia Veiga, Grazie Pacheco, Fred Moreira, Alexandre Silva (e equipe da TVT) a produção do já referido 1964: um Golpe Contra o Brasil (2013). Tais experiências de revisitação ao tema fizeram Alipio se aproximar de um debate crítico a respeito do punitivismo presente também nas esquerdas, e à luta abolicionista penal e antiprisional. Foi mais ou menos neste período que Alipio inspirou e ajudou, inicialmente, a construção do Coletivo Merlino e da Frente do Escracho Popular, ao mesmo tempo em que, na sequência, avançou na crítica (e autocrítica) sobre esta pegada dos escrachos – sendo o possível chocar de ovo de novas serpentes, então contribuiu nesses anos à formação da “Rede 2 de Outubro: pelo fim dos massacres”(por ocasião do vigésimo aniversário do Massacre do Carandiru - 2012); e, em 2013, para o que viria a se transformar na “Agenda Nacional pelo Desencarceramento e a Desmilitarização das Polícias” – cuja primeira redação ele palpitou crítica e ativamente – junto ao então militante da Pastoral Carcerária, Rodolfo Valente.

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Na mesma época Alipio também se aproximou de alguns grupos teatrais muito importantes da cena do Movimento de Teatros de Grupo (MTG) de São Paulo – cena teatral mais ampla, aliás, que nunca deixara de frequentar e acompanhar com enorme interesse. Alipio conheceu neste período o jovem casal de diretores e atores teatrais Alexandre Piccinini, falecido ano passado,  e Carolina Rodrigues, com quem realizamos juntos, Alipio com um papel mais que fundamental em todo o processo criativo, o espetáculo e a temporada itinerante da peça A Filha da Anistia (2011-12), apoiada pela Comissão da Anistia. A partir do processo criativo do espetáculo Morro como um país, da então Cia. Kiwi (atual Coletivo Comum de Teatro), se aproximou do casal de atores e dramaturgos, Fernando Kinas e Fernanda Azevedo (2013-14); também passou a ser frequentador e interlocutor assíduo do espaço-coletivo da Cia Antropofágica em Perdizes, com destaque para as muitas conversas com Thiago Reis da Antropofágica, e sempre foi um grande entusiasta da “Feira Antropofágica de Opinião”, releitura da antiga, que a Cia atual propõe anualmente nas redondezas do Memorial da América Latina – entre outros cantos de liberdade. 1922 e 1968 sempre rondando o Alipio... Da junção de coletivos renovadores da nova cena teatral paulistana, mais ou menos na mesma época, junto às Mães de Maio, ao Bloco Unidos da Lona Preta do MST da Grande São Paulo (coordenado por Tiaraju Pablo), ao grupo de cinema Memória Viva (Thiago Mendonça, Renata Jardim, Adriana Barbosa, Alex Rocha etc.) e às rodas de samba tradicionais da resistência negra, indígena e afroperiférica, especialmente o Projeto Nosso Samba de Osasco (puxado por Selito SD), além do Espaço de Cultura Latino-Americana (ECLA), entre outros, nasceu o Cordão da Mentira (em 2012), em cujas saídas e cortejos anuais Alipio esteve sempre presente, até na virtual realizada durante a pandemia em 2021, com Ala já internado  pela infecção de Covid-19. Como la cigarra Teria muitos outros capítulos para falar de construções diversas vividas pelo Alipio ao longo dos últimos anos, como a relação e intercâmbio muito intenso, marcante reciprocamente, do Ala junto a movimentos sociais recentes América Latina adentro, especialmente na Argentina, com destaque para a admiração e adoção recíproca, entre companheiros, junto aos piqueteiros da Frente Popular Dário Santillan, da Argentina.

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Encerro este meu breve panorama tratando de uma das últimas transições e pontes que Alipio não deixou de ladrilhar até os seus últimos suspiros, literalmente. Refiro-me à idealização e construção da Rede Nacional de Apoio às Famílias de Vítimas Fatais da Covid-19 no Brasil (Rede Apoio Covid), ao trabalho de acolhimento das expressões de luto e da memória, das lutas por reparação e justiça, e pelo fim deste novo genocídio, agora viral, que abateu o Brasil por promoção ativa de uma das piores serpentes chocadas pelo mesmo golpe civil-militar de 1964, alguns dos piores pupilos de Ustra, que acabaram por abater também o nosso Ala – 57 anos depois do primeiro golpe. Desde o início desta pandemia, Alipio e Rita contribuíram para a construção desta nova rede, integrando o seu Conselho de Referências, pelo direito à memória, à verdade, a reparações diversas, à justiça e à liberdade, ante o vírus e os vermes: velhos ou novos. Semeando sonhos e rebeldias até o fim de sua passagem aqui neste plano. E depois de semanas da intubação, cantarolando como la cigarra. Danilo Cesar é historiador e produtor cultural