Especial

A falta de talento para ficar mal de nada adiantou. Abatido pela Covid, cuja disseminação pandêmica foi alimentada por um governo genocida, morreu sem velório e sem a despedida dos amigos que tanto prezava

Deixou o amigo bengalante e os rinocerontes espalhados pela casa vazia. Foto: Daniel Garcia/TD

Créditos: Daniel Garcia/TD

Alipio Raimundo Viana Freire era baiano. Eu, mezzo baiano, mezzo paulista. Às vezes, nos chamávamos pelos respectivos codinomes da época da clandestinidade: ele, Bio ou Raimundo; eu, Walter ou Lao. Éramos quatro, portanto. Ou seis. Todas as quintas-feiras tínhamos um encontro sagrado que seguia madrugada adentro, no qual se discutia de tudo: política, movimentos sociais, filosofia, história, artes plásticas, literatura, música, cinema, ideologias, crenças, ritos e linhagens do candomblé – tudo temperado com humor e causticidade, sua marca registrada. Até as cantorias e performances que – na sua fértil e jocosa imaginação – deveriam ser cantadas nos respectivos velórios de  Walter e Raimundo antes da cremação, eram tratadas em detalhes surrealistas, com script e tudo. Com seu ar fleumático, Alipio comparecia rigorosamente a todos os velórios de amigos, companheiros e pessoas próximas levados pela “indesejada das gentes”. Era para ele um imperativo moral estar presente nesses momentos coletivos de despedida, prestar solidariedade e dar uma palavra de conforto aos familiares. Por várias vezes lamentou com tristeza não ter podido ir ao funeral do Carlos Takaoka, amigo e companheiro de militância e de cárcere. Já no meu velório, jurava que iria vestido de Carmen Miranda cantando “adeus batucada”. Era meio tácito que eu morreria antes dele. E justificava sua sentença lançando mão da autoironia: “não tenho talento para ficar mal” – frase repetida toda vez que eu, preocupado com sua saúde, lhe telefonava perguntando se estava bem. Não foi assim, infelizmente. A falta de talento para ficar mal de nada adiantou. Foi abatido pela Covid, cuja disseminação pandêmica foi alimentada por um governo genocida. Morreu sem velório e sem a despedida dos amigos que tanto prezava. É muito triste. Dói. Assim como dói escrever e falar do meu amigo usando os verbos no passado. Alipio era exímio no manejo da autoironia, outra marca registrada. Não gostava de falar de suas dores e “achaques da idade”. Nesse particular era resignado, quase um estoico. Já dos amores, a fala era um pouco mais direta. Da futura atriz Helena Ignez, por ela apaixonado na juventude, à Rita Sipahi, companheira desde o presídio (“conheci Rita na cadeia/ ela atravessava páteos/ para receber visitas/...depois casei com Rita), falava com menos contenção. Mesmo separados, mas morando próximos e em contato diário, Alipio se referia a Rita com muito carinho e preocupação. Mostrava fotos, contava das viagens e das peripécias vividas juntos, emocionando-se às vezes. Nesses momentos, eu sentia o enorme afeto pela companheira emanando das entrelinhas do relato. Também rolavam, nos nossos encontros, histórias engraçadas da adolescência na Bahia, da vivência no Presídio Tiradentes (que ele chamava de “o grande manicômio”), de fatos bizarros que aconteceram nas tensas ações de “expropriação” das quais ele participou. Lembro-me de um deles: a história do companheiro que, comandando a ação em um banco, subiu no balcão de arma em punho e começou a discursar inflamado, explicando os motivos da expropriação quando, um gesto desmedido fez suas calças arriarem, deixando “as partes” à mostra. Descrevia a cena com detalhes estéticos, atento à ambientação, à cenografia, ao humor e ao tom da narração, de modo a trazer o ouvinte para a situação simultânea de tensão e comicidade que avacalhava o ato de valentia viril. Nessas horas,   era o diretor de si mesmo, exibindo outra qualidade por todos reconhecida: era um excelente contador de histórias. Como escreveu Flávio Aguiar, “Alípio era, ele mesmo, um ‘Mar de Histórias’”. Era de uma mordacidade feroz, sobretudo com a retórica autorreferente de alguns ex-presos políticos e com o discurso heróico de muitos que ainda hoje posam como tais e vivem das “glórias“ do passado. Dizia que somos produto do tempo histórico e não seres especiais ou excepcionais; que fizemos o que tínhamos de fazer coerentes com o sentido que imprimimos à nossa existência. Ao insistir no “dar um sentido à existência”, seguia as pegadas de Sartre. Aliás, era mais sartreano que marxista – me parecia. Embora tenha passado horrores nas mãos da repressão comportando-se dignamente e carregando vida afora as sequelas na coluna vertebral avariada, nunca vestiu a indumentária de herói destemido. Desdenhava dessa fútil ostentação. Suas vaidades se situavam nos detalhes, em outros territórios: no pugilato com a palavra em poesias de puro corte, nos textos “de combate”, nas belas ilustrações, nos desenhos que dialogavam com a poética. Crítico afiado, o era também de si mesmo. Na sua militância não vou me deter. Muitos já escreveram a respeito em textos que me emocionaram. Nem me deterei nas atividades de jornalista engajado e seu grande legado. Lembro apenas que foi criador e editor da Revista Sem Terra do MST, editor e membro do Conselho de Redação da revista Teoria e Debate, um dos fundadores e membro do Conselho Político do Jornal Brasil de Fato e da editora Expressão Popular. E como diretor dirigiu o documentário 1964 - Um golpe contra o Brasil. Rigoroso, chato às vezes, solidário sempre, Alipio era movido por uma ética comunista férrea e uma enorme generosidade. Quando, ao telefone, lhe contava da última das minhas frequentes quedas, ele respondia: “vou chamar um táxi e vou já praí; sei que está precisando de ajuda”. Era um custo convencê- lo do contrário. “Não venha; dois velhos bengalantes a trançar suas bengalas é um risco que resultará em queda dupla”, dizia para tentar dissuadi-lo. Adorava estar entre jovens. Recebia jovens estudantes de arte, atores amadores, e os acolhia com atenção, cuidado e maneiras finas – resquícios aristocráticos, como eu dizia para provocá-lo. Muitas foram as palestras que proferiu em vários estados, sobre a luta pelos direitos humanos e principalmente acompanhando a exibição do filme que dirigiu. Nos intervalos das “tertúlias” das quintas-feiras, saiamos caminhando devagar pelas ruas do Bom Retiro. Hora de dar risada e falar merda, segundo ele, com acento baianês. Mas aos olhos dos transeuntes mais parecia um rabino sério, de longas barbas, com seu báculo a comandar os discípulos. Alipio conhecia a maioria dos moradores de rua dos arredores, alguns pelo nome. A todos cumprimentava com um aperto de mão e ouvia suas histórias e tragédias pessoais. Era frequente irmos à farmácia comprar remédios e fraldas para abastecê-los. Certo dia um morador da praça, meio constrangido com a minha presença, se aproximou para consultá-lo ao pé de ouvido. Alipio ouviu com atenção. Em seguida, atravessou a rua, foi à farmácia e voltou com remédios. O pobre estava sofrendo com as hemorróidas sangrando e ficara encabulado de confessar de público sua moléstia. Um menino, dos seus 13 anos, viciado em crack, o chamava de avô, tamanho o acolhimento que recebia. Assim era meu amigo: teimoso, sarcástico, solidário e dotado de enorme generosidade. Estava escrevendo um romance cujo título era “Os Rinocerontes”. Também revisava poesias para futura edição. Partiu antes. Deixou o amigo bengalante e os rinocerontes espalhados pela casa vazia. Heladio José de Campos Leme é economista e cientista político, professor aposentado e ex-preso político