Dia 16 de dezembro de 1976. São quase 7 horas da manhã em São Paulo. Uma equipe do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do II Exército acaba de prender, na avenida Faria Lima, dois militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Tirado à força do velho Corcel azul, encapuzado e enfiado em um Volks chapa fria, o operário Joaquim Celso de Lima, motorista do Comitê Central (CC) da organização, ainda tem tempo de ouvir quando um dos agentes usa o rádio:
— Tudo limpo. Pode tocar a operação.
A mensagem é recebida a quilômetros dali, na rua Pio XI, no Alto da Lapa, onde numerosa tropa de militares e policiais, sob o comando do tenente-coronel Rufino Ferreira Neves, faz o cerco à casa de número 767.
Dado o OK, a fuzilaria começa sem qualquer aviso aos ocupantes da casa. E, também, sem a preocupação de retirar os moradores da vizinhança. O matraquear das metralhadoras utilizadas no ataque vai durar o suficiente para destruir porta, janelas e basculantes e fazer cair pedaços de reboco do teto.
Na casa estão Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, membros da Comissão Executiva Nacional do PCdoB, e Maria Trindade, militante encarregada das tarefas domésticas. Num primeiro momento eles não entendem o que acontece, o estrondo, o reboco caindo. A Arroyo não lhe dão sequer esta chance.
Sai do banheiro, “Que é isso?”, e então é atingido pelas costas com tal impacto que o corpo parece saltar para a frente. “Que desgraça! Nos pegaram”, grita Pomar. Estas cenas e palavras estão gravadas na memória de Maria Trindade, que sobrevive ao massacre.
Drummond e Wladimir Pomar foram os primeiros a deixar a casa da rua Pio XI, onde se realizara durante os dias 14 e 15 de dezembro uma reunião do Comitê Central (CC) do PCdoB, com a participação de nove pessoas, das 11 presentes. Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade, embora militantes, não faziam parte da direção.
Encerrados os trabalhos, os dirigentes devem retirar-se em duplas, no carro dirigido por Joaquim, e sempre acompanhados por Elza Monnerat, também integrante do CC, moradora da casa e “olheira” nas diversas viagens feitas para trazer e, depois, levar de volta o pessoal. Por medida de segurança, todos, menos Elza e Joaquim, entravam e saíam de olhos fechados, para não reconhecer o local.
A casa está sob vigilância há vários dias. O Corcel é seguido, com cuidado, por vários carros empregados no esquema. É o que acontece depois com Drummond e Wladimir, após serem deixados nas imediações da avenida Nove de Julho: as equipes do II Exército passam a seguir os dois, separadamente — enquanto Elza e Joaquim retornam sem incidentes ao aparelho, para buscar a dupla seguinte.
Drummond é preso antes de iniciar viagem. Wladimir chega a notar que estão no seu encalço e tenta despistar os perseguidores. É capturado na avenida Santo Amaro, acusado de ser “puxador” de carros, e ali mesmo começa a ser espancado.
Já no DOI-CODI, apanhando “de soco, pau e botinada”, Wladimir percebe, antes da meia-noite, a presença do companheiro, revelada pelo comentário de um agente. O pacote de biscoitos “recheado” com o jornal do partido,A Classe Operária, mencionado por alguém em tom de galhofa, ele o vira nas mãos de Drummond antes de se retirarem da casa da Lapa. Depois, escutará gritos de dor.
Por volta das 4 horas da manhã do dia 16, Wladimir ouve uma correria, gente descendo escadas, uma voz que pede um médico com urgência. Drummond tentara fugir em meio a sessões de tortura, saltando de uma torre de rádio. Foi um voo para a morte, como revelará, anos depois, Marival Chaves do Canto, então sargento do Centro de Informações do Exército (CIE) que atuou nos bastidores da operação. Mas os jornalistas encarregados da cobertura do caso são obrigados a divulgar uma versão que nada tem a ver com a verdade: Drummond teria morrido atropelado quando tentava fugir, na esquina da avenida Nove de Julho com a rua Paim.
É meio-dia quando Frederic Chapin, cônsul-geral dos EUA em São Paulo, chega ao prédio da Cúria Metropolitana. Nervoso, quase invade a sala de D. Paulo Evaristo Arns. Fala da chacina, pede ao cardeal que inicie gestões para evitar a morte dos que estão presos. “Sabíamos da reunião há dias, mas não esperávamos que sob o Dilermando acontecesse o que aconteceu”, diz o diplomata. E avisa a D. Paulo que tem os nomes dos militantes presos. O Departamento de Estado dos EUA, portanto, estava informado de tudo, mas nada fizera para evitar a matança.
No final da tarde do dia 16 o Exército emite nota oficial, informando que se travou “um tiroteio na rua Pio XI, em face da reação à bala dos sitiados, daí resultando dois subversivos mortos, havendo um terceiro morto atropelado, quando de sua fuga”. A nota não fornece o número de presos nem seus nomes, e fala da colaboração de “outros órgãos de segurança”.
Assina o general Dilermando Gomes Monteiro, comandante do II Exército, suposto fiador da abertura democrática em São Paulo, na condição de substituto do general Ednardo D’Ávila, exonerado em decorrência dos assassinatos de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho.
Aldo da Silva Arantes foi preso ainda na noite do dia 15, quando se aproximava da estação Paraíso do metrô. Haroldo Rodrigues Lima foi seguido até sua casa, na avenida Pompeia, e preso apenas no dia seguinte, ao deixar o local. Uma vez mais, o carro do partido, após transportar a dupla, retorna à rua Pio XI sem que se note qualquer anormalidade.
O Corcel deixa a casa 767 pela última vez, Joaquim ao volante, Elza como guia, José Gomes Novaes e Manoel Jover Teles como passageiros. Imediatamente o motorista sente-se seguido: as manobras dos perseguidores são ostensivas, próprias mesmo de quem deseja se fazer notar. Mas Joaquim só acreditará nisso em Pinheiros, quando já não resta dúvida do que está ocorrendo.
Estão nos seguindo”, avisa, e Elza manda que Novaes e Jover abram os olhos, terão que sair do carro e fugir a pé. Por um momento Joaquim acha que driblou a perseguição; pára o carro; Novaes e Jover descem rapidamente; o Corcel segue adiante. Minutos depois, é “fechado” por vários carros pertencentes à repressão. São quase 7 horas da manhã em São Paulo.
A operação da rua Pio XI liquidou três extraordinários lutadores da resistência ao regime militar. “Não tenho dúvida de que estava tudo planejado para estourar, prender e matar. Todos ali eram pessoas marcadas para morrer”, afirmou ao autor, em 1996, o ex-sargento Marival Chaves do Canto. Nas linhas seguintes, traçamos um breve histórico das vidas desses três homens, ceifadas pela Ditadura Militar.
Ângelo Arroyo, filho de Ângelo Arroyo e Encarnação Pardido, nascido em São Paulo em 6 de novembro de 1928, era um dos poucos operários pertencentes ao Comitê Central do PCdoB. No antigo Partido Comunista ele teria entrado ainda adolescente, em 1945, elegendo-se membro do Comitê Regional paulista já no ano seguinte, ao mesmo tempo em que dirigia a organização do partido na Mooca, bairro fabril.
Em meados de 1949, atuou na campanha O Petróleo é Nosso, e passou quase um mês encarcerado no DOPS depois que foi detido no centro de São Paulo, durante uma manifestação, ao lado do jornalista e militante comunista João Saldanha. “Arroyo e João Saldanha ficaram 28 dias presos, sendo torturados” (João Saldanha: uma vida em jogo, de André Iki Siqueira, 2007).
Mais tarde, como líder sindical metalúrgico, participa das fortes greves do biênio 1952-53 em São Paulo. Também nos anos 1950, Arroyo teria realizadoatividades políticas no campo, inclusive participando da revolta de Formoso e Trombas, em Goiás (cf. Vera Capucho,(2013).
Ascende ao Comitê Nacional do antigo PCB em 1954, eleito pelo IV Congresso. No V Congresso, em 1960, rejeita o caminho da “transição pacífica para o socialismo”, juntando-se ao grupo que fundaria o PCdoB, na Conferência Nacional Extraordinária de fevereiro de 1962. Arroyo é eleito membro do Comitê Central e da Executiva.
No início da década de 1970 estará nas matas do Araguaia, no Pará, integrando a Comissão Militar que dirige as forças guerrilheiras do PCdoB. Quando, na terceira campanha do Exército, a guerrilha é finalmente derrotada, os líderes restantes — Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, entre eles — decidem que Arroyo deve retornar ao sul do país e informar o partido sobre a situação no Araguaia. Arroyo resiste, mas eles o obrigam, em janeiro de 1974, a tentar a fuga junto com um companheiro, Micheas Gomes de Almeida (Zezinho), excelente mateiro.
Conseguem furar o cerco do Exército e restabelecer o contato com a direção nacional do PCdoB. Assim, é de Arroyo um excepcional relato das ocorrências da guerrilha, escrito em 1974. A derrota sofrida no Araguaia, a circunstância de ser um dos raros sobreviventes, fizeram dele um homem amargurado, “para quem o correto teria sido morrer com os demais companheiros”, segundo Wladimir Pomar (Araguaia, o partido e a guerrilha, 1980).
O mineiro João Baptista Franco Drummond era, aos 34 anos, um dos mais jovens membros do Comitê Central. Oriundo da Ação Popular Marxista-Leninista (APML, ou simplesmente AP), passou a fazer parte da direção nacional do PCdoB em 1974, data da fusão dos dois partidos.
Drummond nasceu em 28 de maio de 1942, em Varginha, filho de João Baptista Moura Drummond e Zilah Carvalho Drummond. Ativo no movimento estudantil, presidiu o Diretório Acadêmico da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde estudou de 1961 a 1966, e foi um dos organizadores do 27 o e do 28 congressos da União Nacional dos Estudantes (UNE). Depois atuou no movimento camponês do sul de Minas Gerais e, posteriormente, em Pernambuco. Sua ação contra o regime militar lhe valeu condenações, à revelia, a 14 anos de prisão.
Entre 1974 e 1976, Drummond morou em Goiânia, trabalhando como fotógrafo. Depoimento de suas irmãs atesta que Drummond “sempre fazia analogia entre os atos do cotidiano e a fotografia, dizendo-nos que ambos, na sua singularidade, criavam efeitos desencadeadores”. Dizem mais, em diálogo imaginário com o irmão: “Falando em fotografia, João, que surpresa saber dos prêmios nacionais ganhos por você, sob pseudônimo, neste ofício que lhe permitiu sustentar sua família durante tantos anos” ( cf. Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, 1995).
Drummond dedicou-se à implantação de organizações de base do PCdoB em Anápolis, reduto oposicionista, segundo centro econômico de Goiás. Uma onda de prisões de militantes do PCB e remanescentes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em 1975, gerou notícias controversas: em reunião do Comitê Central, Drummond é dado como morto.
Durante alguns meses ele perde o contato com as estruturas partidárias. Resolve então, para rearticular-se, procurar pessoas em Salvador, onde morara. Casualmente encontra um militante, e refaz as ligações. Um ano depois, o decidido Drummond seria vítima do derradeiro “atropelamento” praticado pela ditadura. Arrancaram-lhe a vida, mas dele não obtiveram informação alguma.
Em 1º de setembro de 2023, em cerimônia presidida pela reitora Sandra Goulart Almeida, a Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG homenageou a memória de Drummond, e uma placa com seu nome foi descerrada.
Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar, nascido em Óbidos, Pará, em 1913, filho de Felipe Cossio del Pomar e Rosa de Araújo Pomar, ingressou no antigo Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1935, a tempo de apoiar a insurreição nacional da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Antes, porém, fuzil na mão, tomara parte do movimento de 1932 contra o poder central, que resultara em choques armados nas ruas de Belém nos dias 6 e 7 de setembro. Na ocasião, precisou fugir para o Rio de Janeiro.
Voltou a Belém, ingressou na Faculdade de Medicina em 1933, mas abandonou o curso após dois anos. Preso em maio de 1936, por seu envolvimento com a ANL, só foi libertado em junho de 1937, quando o Tribunal de Segurança Nacional o absolveu. Preso novamente em 1940, quando já integrava a direção estadual do PCB no Pará,conseguiu escapar da cadeia meses depois, com João Amazonas e outros companheiros, retornando ao Rio de Janeiro em viagem memorável.
Radicando-se na então capital federal em 1941, torna-se membro da Comissão Nacional de Organização Provisória do PCB (CNOP), da qual faziam parte, entre outros, Maurício Grabois, Diógenes Arruda, Amarílio Vasconcelos e João Amazonas. Em 1943, é um dos articuladores da Conferência da Mantiqueira, que reorganiza o partido, destroçado pela repressão do Estado Novo. Elege-se membro da Comissão Executiva. Em 1945 e 1946, dirige a Tribuna Popular, principal diário legal do PCB.
Nas eleições complementares de 1947 Pomar elege-se deputado federal por São Paulo, com 135 mil votos, votação extraordinária, a maior da época. Como concorreu pelo Partido Social-Progressista (PSP, de Adhemar de Barros), escapa à cassação dos mandatos dos parlamentares do PCB, aprovada em janeiro de 1948 pelo Congresso Naciona (em maio de 1947, os comunistas haviam sido postos na ilegalidade). Exerce seu mandato até 1950.
No V Congresso do PCB, realizado em 1960, será um cáustico crítico da linha política imposta por Luís Carlos Prestes. Em fevereiro de 1962 estará entre os criadores do PCdoB. Eleito membro do CC e da Executiva, é indicado redator-chefe deA Classe Operária. Neste período traduz alguns livros, como fonte de sustento. É o caso dos dois primeiros volumes da conhecida obra Ascensão e queda do III Reich, de William Schirer (1963).
Duas biografias suas estão disponíveis. Pedro Pomar, Uma Vida em Vermelho, de autoria do militante e escritor Wladimir Pomar (seu filho), foi lançada em 2003 pela Editora Xamã, e uma versão digital foi produzida pela FPA em 2013. "Pedro Pomar – Ideias e batalhas, de autoria de Osvaldo Bertolino, foi publicada em 2013 pela Fundação Maurício Grabois.
Pedro Pomar é jornalista, mestre em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Autor deMassacre na Lapa - Como o Exército liquidou o Comitê Central do PCdoB — São Paulo, 1976 (Fundação Perseu Abramo, 2006 – 3a edição).
Texto originalmente publicado no livro Massacre da Lapa - Como o Exército liquidou o Comitê Central do PCdoB - São Paulo, 1976 (Fundação Perseu Abramo, 2006 - 3ª edição). Ele foi atualizado pelo autor em março de 2024.