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Dois inimigos número um da ditadura. Um, por veterano comunista, a incomodar as classes dominantes desde os anos 1930, e um cabra marcado para morrer nos primeiros dias após o golpe de 1964. A palavra de ordem: matá-los

Marighella tombou na noite de 4 de novembro de 1969. Assassinado por Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais conhecidos policiais do aparelho repressivo de então. O inimigo número 1 da ditadura militar. Assim era conhecido o mulato baiano, nascido na Baixa dos Sapateiros, em Salvador, em 5 de dezembro de 1911.

Lamarca tombou em Pintada, município de Ipupiara, sertão da Bahia, ao lado de Brotas de Macaúbas, no dia 17 de setembro de 1971. Crivado de balas pelo major Nilton Cerqueira. O inimigo número um da ditadura militar. Assim era conhecido o capitão nascido no Estácio, zona norte do Rio de Janeiro, em 27 de outubro de 1937.

Dois inimigos número um da ditadura.

Um, por veterano comunista, a incomodar as classes dominantes desde os anos 1930, e um cabra marcado para morrer nos primeiros dias após o golpe de 1964. A palavra de ordem: matá-lo.

E o mataram.

O outro, não fosse a disposição de combater a ditadura, por capitão do Exército: rasga a farda e sai Brasil afora na luta. Isso, para a ditadura era imperdoável. A palavra de ordem: matá-lo.

E o mataram.

Conjuntura política no andar de cima

Tais assassinatos, feitos à queima-roupa, de maneira covarde, ocorrem numa conjuntura explosiva. O regime militar vivia um momento de radicalização. Viera o AI-5, como resposta ao amplo movimento de massas de 1968, sobretudo das camadas médias, representadas pelos estudantes. O primeiro passo da radicalização dos militares.

Costa e Silva, o então ditador, ensaia abertura em 1969. Prepara emenda constitucional para extinguir o AI-5 e garantir vigência à Constituição de 1967. Adoece uma semana antes da assinatura da emenda constitucional, 31 de agosto daquele ano.

Assume uma Junta Militar. Nem pensar mais em qualquer abertura. Se a situação era difícil, plena de arbítrio e autoritarismo, torna-se ainda mais sombria. Não se permite a posse do vice Pedro Aleixo, e logo depois, em 30 de outubro, assume o general Emílio Garrastazu Médici. Nesse meio tempo, início de setembro, há o sequestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, a dar asas à terrível imaginação dos mais duros do regime, só contida pela força dos EUA junto aos generais brasileiros.

A Junta Militar, entre tantas medidas discricionárias, estabelece a figura da prisão perpétua e da pena de morte “em caso de guerra revolucionária e subversiva”. Era o terror. Médici será o mais terrível dos ditadores. O governo dele será o período em que mais se matará adversários políticos da ditadura.

As burguesias, brasileira e internacional, deliravam de satisfação com aquele regime. Dizer isso de modo a evitar se acredite na existência de militares operando no vácuo ou se creia tenham tais burguesias quaisquer compromissos com a democracia.

Conjuntura política no andar de baixo

O ano de 1968 nos entusiasmou. E nos encheu de ilusões. Era tempo de voluntarismos. A vontade no posto de comando. Tempo de Vietnã. De glorificação de Guevara. De afirmação do pensamento foquista, ou debraysta, revolução na revolução. O inimigo está nos cercando, não deixemos que ele escape. Acreditava-se na disposição de uns poucos homens e mulheres, na coragem deles, para tomar das armas, poucas fossem, e derrotar a ditadura.

Marighella, o velho comunista, formado na escola do PCB, único partido a não enveredar pelos caminhos do pensamento foquista, não passou ileso por esse espírito do tempo. Sai do PCB, e já no ano de 1967 está dando providências para a formação da Ação Libertadora Nacional (ALN), ao tempo do início das primeiras ações de expropriação de bancos.

Foi tomado inteiramente pelo pensamento voluntarista: fomentava a ação revolucionária, viesse do modo que viesse, sem necessidade de pedir licença a ninguém, não queria mais a existência de um partido a dirigir a Revolução. Cuido sempre de lembrar: é um grave equívoco celebrar apenas o Marighella guerrilheiro. A maior parte da existência comunista dele se deu dentro do PCB.

Lamarca, muito mais novo, mesmo no Exército, vai se convencendo da necessidade da luta armada, tomado, de uma forma ou de outra, pelo pensamento debraysta. Quando foge com uma Kombi entupida de armas do 4º Regimento de Infantaria, em janeiro de 1969, está disposto ao confronto aberto com o regime militar.

Integra naquele momento a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Mais tarde, Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Depois, outra vez VPR refundada por ele. E no fim, Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Várias organizações, diferentemente de Marighella, cuja militância restringiu-se a dois agrupamentos.

Nesse clima, e estamos falando do clima pós-AI-5, a vitória revolucionária estaria na ponta do fuzil e as discussões se concentravam na forma de luta, sempre luta armada, acentuando-se a perspectiva militarista. Salvo sempre o PCB, a acreditar no processo de acumulação de forças, na luta de massas, na opinião do partido era o único caminho para derrotar a ditadura, e isso veio a se revelar verdadeiro.

Com tal ideologia dominante na esquerda favorável à luta armada, praticamente impossível qualquer análise profunda da correlação de forças. Diria: marxismo abandonado. O inimigo estava na ofensiva: olhando hoje parece óbvio. Para o pensamento dominante na esquerda, não.

E ela resolve partir pra cima. E nesse caso, partir pra cima significava, como significou, e para todas as forças, inclusive o PCB, o massacre, o uso do martelo-pilão contra a formiga, como disse impiedosamente Adyr Fiúza de Castro, um dos mais violentos generais da ditadura.

Marighella e a noção da morte próxima

Marighella, depois de mais de três décadas no PCB, revolucionário impaciente, considera o partido apático, e vai para o confronto aberto. Junta centenas de militantes na ALN, sobretudo jovens, e parte para a luta armada.

Há o sequestro do embaixador americano, Charles Burke Elbrick, sobre o qual ele não foi informado, embora a ALN participasse. No episódio, embora se solidarize com os revolucionários, compreende: a esquerda não ia aguentar o tranco. Repressão viria com gosto de gás. E a vida dele, por um fio: teve consciência disso.

E o mataram.

Não podiam deixá-lo vivo.

Matá-lo significava não permitir a existência de um herói vivo.

Não permitir a palavra dele, de tanto alcance.

Dar o exemplo: quem se colocasse na linha de tiro da ditadura, seria morto.

Não havia contemplação.

Revolucionários simbólicos, capazes de estimular a esquerda, deviam ser sumariamente executados.

O inimigo número um não podia permanecer vivo.

E o mataram.

O assassinato de Lamarca

Nem dois anos se passam, e no dia 17 de setembro de 1971 Lamarca é assassinado sob o sol dos sertões da Bahia.

Ele provocava, como é fácil prever, uma raiva incontida nos militares. Fora um deles. Não podia viver. Um sujeito capaz de levar 63 fuzis FAL para a luta armada? Não. E ele ainda carregava nas costas o fato de ter escapado a um cerco de milhares de homens das Forças Armadas durante a chamada Guerrilha do Vale do Ribeira. Permanecer vivo um exemplo desses? De modo nenhum.

Não. Tinha de morrer. E morreu fuzilado pelo então major Nilton Cerqueira e pelo cabo Dalmar Caribé. Ambos mataram na mesma ocasião o inseparável companheiro do capitão, José Campos Barreto, Zequinha.

Era agora o inimigo número um da ditadura.

Porque um forte símbolo para a esquerda armada.

E porque um traidor, na linguagem castrense de então.

E o mataram.

Trágicas escolhas

Ao lembrar os dois inimigos número um da ditadura, presta-se homenagem às centenas de homens e mulheres mortos, destroçados por ela. Os dois são lembrados pelo simbolismo deles, pela coragem, pelo fervor revolucionário.

E a lembrança é feita tentando situá-los nas circunstâncias históricas vividas por eles, e discutindo as escolhas feitas pelos dois, no calor da hora, em meio ao que acreditavam urgência da revolução.

Dois heróis trágicos. 

Os dois recusaram-se a sair do País, e tal opção hoje poderia ser vista como a mais correta.

Marighella fazia de tudo para ajudar na saída de companheiros, como o fez com Joaquim Câmara Ferreira, principal companheiro de ALN. Mas, recusava-se terminantemente a ir para o exílio.

Lamarca negou-se a qualquer medida nesse sentido quando João Lopes Salgado foi a Brotas de Macaúbas para tentar convencê-lo a um recuo, quando já se mostrava próximo o cerco a levá-lo à morte.

Atitudes semelhantes.

De alguma forma, reféns da coragem e do idealismo revolucionário. Sentiam-se mal, os dois, em deixar companheiros combatendo enquanto seguiam para o exílio.

Ao dizer isso, ao discutir tais escolhas, não se pretende esconder a única responsável pela morte deles: a ditadura. Na esquerda, estamos acostumados a rever, a discutir nossos erros. Como disse Jacob Gorender, a luta armada foi um erro. Até porque levou à perda de revolucionários essenciais à nossa luta de então.

Nada disso, no entanto, nos leva a esquecer o papel de homens e mulheres cujo sangue é testemunho de um tempo de horror. Tempo de heróis. Heróis trágicos, como Marighella e Lamarca.

É possível e necessário discutir os caminhos, e o fizemos neste texto, mas não é possível desconhecer que tenham deixado como legado a todos nós a coragem, o ânimo revolucionário, a atitude corajosa de pensar na libertação do Brasil.

Para não nos referirmos apenas a marxistas, vale lembrar Hannah Arendt, para quem a principal virtude de quem faz política é a coragem. Tal virtude nunca faltou a Lamarca e a Marighella. Continuamos precisando de muita coragem para enfrentar os desafios do Brasil e do mundo.

Evidente, e pensamos ter deixado nítido esse pensamento: a coragem solitariamente não é suficiente para a política.

O fazer político, e mais ainda a política revolucionária, reclama reflexão, capacidade de entender o mundo, analisar correlação de forças, compreender o tático e o estratégico, sempre ligados a um horizonte.

E este horizonte, ontem como hoje, é a superação do mundo produtor de mercadorias, a ultrapassagem do neoliberalismo e do capitalismo, com toda a miséria representada por eles.

Viva Marighella!

Viva Lamarca!

Viva todos os que tombaram na luta contra a ditadura!

Referências:

JOSÉ, Emiliano. Carlos Marighella: inimigo número um da ditadura militar / Emiliano José. – São Paulo: Editora Casa Amarela, 2004.

JOSÉ, Emiliano; Oldack de Miranda. Lamarca: O capitão da Guerrilha / Emiliano José, Oldack de Miranda. – 17ª. ed. – São Paulo: Global, 2015.