Luiz Carlos Prestes (1898-1990) foi o primeiro nome da lista dos cassados pelo primeiro Ato Institucional de abril de 1964, e não por acaso. Para a direita golpista – e em todos os tempos –, o comunismo sempre foi o principal inimigo, e o anticomunismo o pretexto, sempre inventado, para todos os golpes ocorridos no país. Em 1964, Prestes era o maior representante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a maior organização da esquerda na época, seu secretário geral desde 1943, conhecido nacional e internacionalmente.
Além do mais, Prestes opunha-se ao governo desde 1922, quando apoiou o Levante do Forte de Copacabana1, embora não tenha participado por estar acamado com tifo. Transferido para o Sul, por suas simpatias pelo levante, Prestes não parou de conspirar, não só apoiando o segundo levante de 5 de julho de 1924, em São Paulo, como participando ativamente. Chefiou a coluna que subiu do Rio Grande do Sul para encontrar-se com a paulista, que descia em Foz do Iguaçu e formou a famosa Coluna Miguel Costa-Prestes. Miguel Costa era o comandante da coluna e Prestes, chefe de seu Estado Maior, seus feitos militares fizeram com que a coluna se perpetuasse com seu nome, dali ficou conhecido como o Cavaleiro da Esperança.
No início de 1927, com a coluna já internada na Bolívia, Prestes continuou no pais até conseguir colocar o último soldado que estivera sob seu comando e seguiu para Buenos Aires, onde continuou a conspirar. Em breve os tenentes passaram a apoiar a candidatura de Getúlio Vargas e Prestes negou-se a acompanhá-los. Em Buenos Aires, toma conhecimento dos comunistas e da existência da III Internacional, simpatizou-se dos ideais comunistas desde que fora apresentado às leituras indicadas por Astrojildo Pereira, ainda na Bolívia. Em maio de 1930, Prestes lançou um manifesto que deixava clara sua adesão ao comunismo. Em outubro de 1931 seguiu para Moscou, onde trabalhou como engenheiro, sua profissão de formação.
Já como membro do Partido Comunista desde agosto de 1934, em abril de 1935 retornou ao Brasil com o firme propósito de conduzir uma revolução – nacionalista e democrática –, convencido de que o país estava maduro para iniciar um processo revolucionário. Eleito presidente de Honra da Aliança Nacional Libertadora (a maior frente democrática e antifascista que o pais conheceu), em março de 1935, Prestes começou a pensar na organização da revolução. Equivocadamente convencido que ela se iniciara no Nordeste, em novembro daquele ano, Prestes deu as ordens para o levante no Rio de Janeiro. O levante foi rapidamente derrotado e, a partir daí, o anticomunismo tornou-se o fio condutor de todos os avanços da direita no país.
Em fevereiro de 1936, Prestes e sua companheira Olga Benário foram presos, e o Cavaleiro da Esperança ficou por quase dez anos isolado numa cela, tendo ao lado seu camarada Harry Berguer. Enlouquecido pelas torturas que sofreu, soube que sua companheira grávida foi entregue à Gestapo. Olga, além de militante comunista, era judia.
Em abril de 1945, com a anistia política propiciada pela evidente derrota dos nazistas, com o final próximo da guerra e nos estertores do Estado Novo, Prestes foi finalmente libertado e eleito senador da República nas eleições de novembro daquele ano, com a maior votação já recebida por alguém até então. A bancada comunista eleita para a Constituinte teve importante papel, mas o início da Guerra Fria e o governo de direita do general Eurico Dutra acabaram por impedir a atuação dos comunistas, cujo partido foi colocado na ilegalidade (maio de 1947), tendo em seguida cassados os mandatos de seus parlamentares (janeiro de 1948).
Prestes foi outra vez para a ilegalidade, abrandada em 1958. Participou ativamente do V e do VI Congressos do PCB (1960 e 1967, respectivamente), viveu a dura clandestinidade depois do golpe de 1964 e seguiu para Moscou em 1971.
Principalmente depois do Ato Institucional nº 5 (AI-5) e do governo Ernesto Geisel, com a prisão, tortura e assassinato de boa parte do comitê central, o partido foi reconstituído com sua direção exilada em Moscou, em janeiro de 1976. Seguiram-se, no exterior, reuniões da direção na Bulgária, na Hungria e em Praga, esta em janeiro de 1979.
Na ocasião, a maioria do comitê central já se opunha politicamente a Prestes, e iniciou-se o rompimento com o partido. Em março de 1980, sua Carta aos Comunistas rompeu de vez suas relações com a maioria do comitê central, que acabou por transformar o PCB no PPS e depois no atual Cidadania.
A vida de Prestes, uma figura profundamente humana, foi a de um homem que dedicou toda a sua vida ao ideal que abraçou o comunismo. Dirigiu o PCB por 37 anos e teve a coragem, política e moral de rever posições políticas, já passado dos 80 anos. Lutou por um mundo melhor até sua morte, em março de 1990 e foi, para uma imensidão de brasileiros, o Cavaleiro da Esperança.
Marly Vianna é professora de História aposentada da Universidade Federal de São Carlos