O roteiro é velho conhecido.
Primeiro constrói-se um inimigo – comunismo, instabilidade econômica, narcotráfico, “ameaça à segurança”.
Depois, justifica-se a intervenção.
Em seguida, o domínio territorial, político e econômico por forças estrangeiras é legitimado sob o falso pretexto de um reordenamento salvador.
“Exportar a democracia” pelo mundo quase sempre funcionou como fachada para encobrir interesses pouco louváveis.
Em 1954, o governo dos Estados Unidos apresentou Jacobo Árbenz como uma ameaça comunista – apesar de a Guatemala não ser um regime comunista. O anticomunismo serviu como narrativa legitimadora.
O motivo real? Árbenz promoveu uma reforma agrária que atingiu diretamente terras improdutivas da United Fruit Company, gigante norte-americana que controlava grande parte da economia guatemalteca – terras, ferrovias e portos. A empresa reagiu pressionando Washington. Foi o suficiente para desencadear uma intervenção norte-americana.
O mesmo ocorreu no Panamá, em 1989. Uma invasão militar dos Estados Unidos derrubou Manuel Noriega. O pretexto foi o combate ao narcotráfico e a “restauração da democracia”. O interesse real era o controle e o domínio do Canal do Panamá.
A defesa da democracia pelos Estados Unidos é seletiva: vale quando atende a seus interesses, desaparece quando não convém. Para conter o chamado “perigo vermelho”, Washington apoiou golpes militares, a instauração de ditaduras e a sustentação de regimes autoritários no Chile, no Brasil, na Argentina, ao mesmo tempo em que atuou para impedir o governo da Frente Sandinista de Libertação Nacional, que havia derrubado a ditadura de Somoza na Nicarágua.
O objetivo era claro: evitar que governos autônomos ameaçassem sua influência na América Latina e no Caribe. Ponto.
Quando a legalidade é rompida em nome do “bem”, o que costuma vir depois não é liberdade, mas caos, violência e pobreza. Trata-se de uma política externa que corrói tratados e convenções construídos no pós-guerra justamente para preservar a própria existência da humanidade.
O uso unilateral da força transforma o mundo em um tabuleiro de war. E esse tabuleiro agora chega à nossa fronteira.
O Norte do Brasil não é homogêneo, mas é governado, em grande medida, por elites políticas conservadoras – muitas delas alinhadas ao bolsonarismo não por convicção ideológica profunda, mas por convergência circunstancial de interesses: segurança, mineração, agronegócio, igrejas e retórica anti-esquerda. No conjunto, sustentam uma espécie de trumpismo tropical e endossam, de forma explícita ou tácita, a política externa estadunidense.
Esse dado se torna crítico quando combinado com uma intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. Governos estaduais e lideranças locais alinhados ao discurso do “combate ao inimigo” tendem a naturalizar a presença militar estrangeira na região, defender cooperação de “segurança” com tropas externas sem debate nacional e pressionar o governo federal a se alinhar ao eixo Estados Unidos/oposição venezuelana.
O resultado é um ambiente propício à militarização da Amazônia, à perda de autonomia estratégica e à erosão da soberania regional. Bases estrangeiras tendem a se firmar nas bordas, o fluxo migratório sobre Roraima tende a crescer, assim como a circulação de armas e grupos ilegais. Avança também a exploração predatória – mineração, garimpo, madeira – tudo embalado pelo mesmo discurso: “segurança”.
No fim, o risco não é apenas para a Venezuela. É para o Brasil. E para a própria ideia de soberania na América do Sul.
Mariana Jacob é assessora da Liderança do PT no Senado Federal