Internacional

Sua “política” do porrete, com ameaças e recuos, assusta e humilha dirigentes de organismos multilaterais e de países imaginados poderosos. Sem resistência e regras acordadas, o planeta caminha célere para a barbárie

Escrevo sob o pesadelo da nova guerra detonada por Trump no mundo. Desde que ele virou governo norte-americano, há mais de um ano, Trump tomou conta da agenda pública mundial e a transtornou com suas ameaças e intervenções bélicas ilegais. Em uma cena planetária tecida pela mediocridade de “lideranças” internacionais incapazes de frear ou dar limites ao canastrão e por uma mídia ocidental totalmente subjugada à aparente ausência de lógica do fanfarrão, ele cotidianamente faz ameaças, verbais e práticas, e promoveu guerras em busca, ironicamente, do prêmio Nobel da Paz. Acontece que o canastrão e o fanfarrão, eleito presidente depois de deslegitimar as urnas, têm em seu poder o maior arsenal bélico da história já visto pela humanidade e o utiliza sem limites e sem respeitar quaisquer normas democráticas e parâmetros de civilidade. Desta força deriva sua imprevisibilidade capaz de atormentar o planeta.

Como senhor das guerras, ele ameaça a todos e muitíssimos se rebaixam a sua arrogância. Ele destrói toda ordem internacional existente, construída inclusive sob a hegemonia dos Estados Unidos e do Ocidente. Não resta quase nada daquilo que, um dia, foi acordado entre os países e entre os organismos multilaterais, como a ONU. Em lugar de acertos negociados e pactuados, ainda que com as limitações provenientes da desigualdade entre as nações, resta desordem, caos, falta de lei, violências simbólicas e físicas cotidianas na tela e na vida. Muitos países e organizações multilaterais por cálculo, por medo e/ou por incapacidade de suas “lideranças” não resistem aos arroubos do poderoso chefão e deixam que ele imponha a “lei” do mais forte, que nada tem de lei e tem tudo do tacão brutal do mais forte. Sua “política” do porrete, com ameaças e recuos, assusta e humilha dirigentes de organismos multilaterais e de países imaginados poderosos. Sem resistência e regras acordadas, o planeta caminha célere para a barbárie.

Gabriel Cohn em instigante texto recente fez um paralelo entre a situação atual e aquela vivida pela humanidade, antes da Segunda Guerra Mundial, quando de concessão em concessão os países capitalistas, ditos democráticos, se curvaram vergonhosamente às exigências de Hitler, na ilusão de conter a guerra. Tudo foi dado, países sacrificados e valores imolados, a guerra se fez com o nazismo fortalecido e nações esmagadas. O filme Munique - The Edge of War, de 2021/2022, traduzido em português como Monique no limite da guerra, dirigido por Christian Schwochow, mostra o calvário de concessões do primeiro-ministro Neville Chamberlain no encontro de Monique na quimera de deter a pretensão guerreira no nazismo. Com o início da guerra, Chamberlain renuncia alguns meses depois e falece após pouco tempo. O devaneio de deter os autoritarismos por concessões e negociações se torna realidade de modo brutal.

Não se imagine ingenuamente que Trump é um mero vaidoso tresloucado, doido solto no mundo. Pior, ele representa enfaticamente amplas parcelas da burguesia dominante e do capitalismo neoliberal atual. Dentre tais setores, podem ser citados: a poderosa indústria bélica norte-americana, as big techs, os conglomerados de energia não renováveis, e muitos outros segmentos. Pior, ele não só representa, como se propõe como uma das lideranças ou mesmo, devido ao seu narcisismo, o líder maior da extrema direita mundial, que pretende: destruir, por dentro, as democracias, os direitos e as regras nacionais e internacionais; preservar o atual mundo unipolar sob o jugo norte-americano; dizimar o multilateralismo; impor autoritarismos nos Estados e nas sociedades e aniquilar toda e qualquer concepção político-cultural alternativa, diversa e plural. Trump personifica tal projeto de morte e de vida aprisionada. Para chegar a tais objetivos, vale tudo, sem nenhum limite e sem escrúpulos.

A mídia condescendente, sempre americanizada, naturaliza todo absurdo, naturaliza as agressões, naturaliza a arrogância, naturaliza a desfaçatez com a diplomacia, naturaliza a destruição das regras de convivência planetária. A mídia quando muito ri das idas e vindas de suas contínuas ameaças, de suas escaramuças, de seus espetáculos calculados, como se fosse o caso de rir do absurdo e esquecer que se trata, na verdade, do terror e de situações abomináveis de intensa gravidade.

As bizarras “justificativas” de Donald Trump para sua violência, simbólica ou física, propositadamente delirantes, encantam a mídia, que considera como notícia sempre o inusitado, esquecendo que ele pode ter conotações e consequências altamente nefastas. O ganho imediato de audiência e de lucro, além da adesão subserviente aos patrões do neoliberalismo internacional e nacional, justificam, sem mais, a degradação a médio e longo prazos. Suas aberrações terminam por ser aceitas, como se fossem meras asneiras, brincadeiras, delírios e coisas do gênero. Seus ataques aos povos e ao meio ambiente parecem ser tomados como apenas equívocos sanáveis e temporários. A gravidade da situação se dilui na graça sem graça, na graça desgraçada do jogo de poder. A mídia, internacional e nacional, se curva, sem vergonha, às artimanhas espetaculares do falastrão. Elas são programações sistemáticas de ordem e desordem. Elas não respeitam ninguém, nem qualquer regra da política, da sociedade ou da civilidade. No entanto, a mídia não cansa de colocá-lo em evidência a todo instante, prisioneira de seus encantos. Cada qual tem os encantos que merece.

A condescendência da mídia, internacional e nacional, em conjunto com a mediocridade das “lideranças” mundo afora, incentiva o tormento do mundo em seu giro perigoso para o autoritarismo sem fim e para o ódio cultivado pela extrema direita. Muitos, inocentes ou não, aplaudem seus gestos e atos, como se as alegações de definir quem é ou não ditador, quem pode ou não governar, quem deve ou não ser assassinado, quem precisa ou não de se submeter à justiça, quem pode ou não ter soberania fossem questões menores para a vida democrática, para o direito internacional e para os direitos humanos.

As decisões unilaterais de: destituir governantes; assassinar pessoas; bombardear cidades; impor sanções; silenciar pluralismos; perseguir adversários; destruir economias; satanizar povos; estigmatizar culturas, reprimir imigrantes, criminalizar indivíduos, dentre muitas outras agressões hoje tornadas corriqueiras pelo senhor das guerras, nunca podem ser banalizadas, pois elas representam a desmontagem da democracia e da possibilidade de convívio, baseado na pluralidade, diversidade e civilidade. Impossível uma vida humana, demasiadamente humana, se um senhor das guerras impõe ao mundo a vontade de uma elite capitalista trilionária, que despreza a humanidade e se esbalda em ilhas e em orgias.

As ameaças e atos de Donald Trump transformam e violentam o planeta. A possibilidade do diálogo e da paz, sempre precárias em um mundo tão desigual organizado pelo capital, que sempre são pequenas parecem agora rarear. Conforme o jornalista Bob Fernandes, em um mundo com 12.200 ogivas nucleares, a expressão “guerra nuclear” deu salto de mais de 5.000% nos últimos dias. Há dois anos, a ONU contava 56 conflitos armados no mundo. Hoje, dados recentes da ONU e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha indicam mais de 120 conflitos armados mundo afora. Antes desta guerra o mundo já vivia o maior ciclo de gastos militares desde a Guerra Fria, US$ 2,7 trilhões. Ou seja, R$ 14 trilhões e 56 bilhões. Neste mundo, extremamente perigoso, naturalizar e justificar as ameaças e os atos de Donald Trump, senhor da guerra, é inaceitável. A luta pela paz nunca foi tão vital para a sobrevivência da humanidade e do planeta.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)