Array

É mais do que reformar a instituição. É fortalecer a inteligência pública do Brasil. É dar ao Estado melhores condições de formular políticas à altura do presente com predição

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A modernização do IBGE não é uma questão secundária, nem um tema restrito aos especialistas em estatística ou geociências. Trata-se de um desafio central para a capacidade de o Brasil compreender a si mesmo, planejar melhor o seu desenvolvimento e governar com responsabilidade em um tempo de mudanças aceleradas, marcado pela formação de uma nova sociedade de serviços hiperconectada na era digital.

Nenhum país decide bem quando não conhece adequadamente a sua própria realidade. E poucos países necessitam tanto de informação pública de qualidade quanto o Brasil. Somos uma sociedade continental, desigual e heterogênea, atravessada por profundas diferenças regionais, rápidas mudanças demográficas, novas formas de trabalho e crescente digitalização da economia e da vida social hiperconectada. Nesse contexto, medir bem, como o IBGE faz há 90 anos, não é apenas uma exigência técnica, mas uma condição de soberania, de eficiência do Estado e de qualidade da democracia.

Quando a estatística e a geoinformação chegam tarde, a política pública também pode se atrasar. Quando a informação não capta as mudanças do presente, o poder público passa a decidir com base em um retrato incompleto do país. E, quando isso se prolonga, o Estado perde capacidade de antecipar problemas, alocar recursos com precisão e planejar o futuro.

O caso do Censo Demográfico é emblemático. Embora os primeiros resultados do Censo 2022 tenham sido divulgados em prazo relevante, a disponibilização do conjunto mais amplo de informações se estendeu por um maior período. Isso revela a dificuldade de transformar a maior operação estatística do país em conhecimento plenamente mais rápido à sociedade, aos gestores e ao planejamento nacional.

A comparação histórica é inevitável. Quase um século e meio depois do Censo de 1872, ainda prevalece a lógica em que a distância entre produzir a informação e difundi-la integralmente continua sendo medida em anos. É evidente que o país de hoje é muito mais complexo. Mas, justamente por isso, o sistema estatístico e geocientífico brasileiro precisa dispor de condições adequadas para ser mais ágil, mais integrado e mais moderno.

O problema não se limita ao Censo. Os dados sobre o PIB dos estados e municípios também seguem sendo divulgados com defasagem em relação à realidade corrente. Isso significa que prefeitos, governadores, legisladores, pesquisadores e agentes econômicos frequentemente precisam tomar decisões sem dispor, em tempo oportuno, de uma visão atualizada da estrutura produtiva dos territórios que governam ou estudam.

Em um país federativo como o Brasil, isso tem consequências graves. As desigualdades são territoriais. O dinamismo econômico é territorial. As carências de infraestrutura, os desafios urbanos, as transformações do emprego e as possibilidades de desenvolvimento também se expressam no território. Quando a informação territorial chega tarde, o planejamento já nasce envelhecido.

Há, porém, um desafio ainda mais profundo, uma vez que o Brasil precisa de um sistema estatístico e geocientífico capaz de captar não apenas o país que foi, mas o país que está emergindo. E essa nova nação já é atravessada pela plataformização do trabalho, pela expansão da economia digital, pelo uso crescente de dados, pela automação, pela inteligência artificial e por novas formas de organização da produção, do consumo e da circulação da informação.

Nesse ponto, a defasagem aparece nítida, um desafio aos institutos nacionais de estatísticas do mundo todo. Isso porque os países começaram a incorporar de forma mais direta certos fenômenos recentes, como o teletrabalho e o trabalho por plataformas digitais, justamente quando eles já haviam se tornado parte da vida de milhões de pessoas. O problema não é apenas a distância entre a coleta dos dados e a divulgação da informação, mas também a demora em reconhecer o que precisa ser medido.

Em outras palavras, a sociedade muda mais rapidamente do que sua infraestrutura estatística e geocientífica. Não diminui a importância histórica do IBGE, pelo contrário, pois reforça a sua centralidade neste primeiro terço do século 21. O Instituto permanece como uma das maiores construções republicanas do país, responsável por dar inteligibilidade ao território, à população e à economia nacional. Justamente por isso, a sua modernização deve ser tratada como prioridade estratégica da nação. Não se trata de substituir a sua tradição, mas de atualizar a sua capacidade de cumprir, no século 21, a missão pública que lhe cabe de retratar a realidade nacional.

Ocorre que a maior e mais importante instituição de pesquisa pública do país foi exposta, especialmente a partir de 2016, a um ciclo intenso de instabilidade. Nos sete anos seguintes, por exemplo, o IBGE teve cinco presidentes, com média de apenas dezesseis meses de gestão. O planejamento perdeu espaço para a administração da emergência. Sem concursos públicos, houve redução do quadro de servidores, sem reajustes salariais e queda real do orçamento, o que comprometeu tanto a continuidade de pesquisas tradicionais (Censo Agropecuário, POF, PINTEC e outras) quanto a criação de novas pesquisas voltadas a temas emergentes, como população em situação de rua, brasileiros no exterior e violência contra as mulheres.

Felizmente, o governo do presidente Lula compreendeu a gravidade da situação e abriu um novo ciclo de recuperação e modernização do IBGE. Concursos vêm sendo realizados, com a ampliação do quadro em mais de 2,5 mil novos servidores. Também tem sido realizada a seleção de quase 50 mil recenseadores, permitindo restabelecer a rede nacional de coleta e viabilizar a realização de novos censos e pesquisas.

Ao mesmo tempo, a instituição do processo de planejamento participativo, transparente e democrático, com ampla e inédita participação dos servidores. O IBGE passou a contar com plano anual de trabalho e com diretrizes para o Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas de 2026 a 2030. Também está em debate interno um novo estatuto, algo particularmente relevante, já que, desde 1973, o Instituto não atualizava seu marco estatutário sem a participação efetiva dos seus trabalhadores.

A modernização tecnológica, por sua vez, tem sido orientada pelo princípio da soberania dos dados. Com a nuvem soberana responsável pela guarda das bases institucionais, a proteção do sigilo estatístico passa a estar mais bem assegurada, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados. O uso de inteligência artificial e ciência de dados representa, ainda, um salto importante na forma de realizar pesquisas e de oferecer resultados mais rápidos, inclusive com potencial de apoiar políticas públicas preditivas.

Tudo isso ganhou corpo em apenas dois anos e sete meses de gestão, a mais longa desde 2016, o que assegurou a estabilidade mínima necessária para que a recuperação e a modernização do IBGE pudessem avançar. Como em toda transformação de envergadura estrutura, as resistências se manifestam. Isso não é novo.

Ao longo dos 155 anos do Sistema Estatístico brasileiro, dirigentes comprometidos com a inovação institucional frequentemente enfrentaram críticas e ataques. Ainda assim, essas resistências não impediram avanços decisivos. Basta lembrar figuras importantíssimas como Bulhões de Carvalho, nas décadas de 1910 e 1920, Teixeira de Freitas, entre as décadas de 1930 e 1940, e Isaac Kerstenetzky, na década de 1970, que foram responsáveis, em contextos distintos, por processos de modernização da estatística e geografia pública no Brasil.

Nos dias atuais, a transformação digital exige dos institutos nacionais de estatística no mundo, um conjunto de inovações igualmente profundas. Entre elas, destacam-se a integração de registros administrativos, os investimentos em interoperabilidade, o aperfeiçoamento metodológico, a criação de ambientes seguros de dados e a formação de sistemas mais contínuos de atualização estatística e geocientífica. A lição é simples: para quem se moderniza antes mede melhor e quem mede melhor, governa também melhor.

Vários países já iniciaram esse processo há mais tempo. Na Estônia, por exemplo, a plataforma X-Road conecta de forma descentralizada os sistemas governamentais, permitindo que os dados circulem com segurança entre órgãos sem necessidade de centralização. O cidadão dispõe de identidade digital única, e cada acesso aos seus dados é registrado.

O Canadá criou o Social Data Linkage Environment (SDLE), um ambiente seguro que permite o cruzamento de múltiplas bases de dados sem comprometer a privacidade. O modelo utiliza identificadores anonimizados e separa rigorosamente os dados pessoais dos dados analíticos.

O Reino Unido, por sua vez, avançou na criação dos trusted research environments (ambientes de pesquisa confiáveis) nos quais pesquisadores acessam dados sensíveis, como registros de saúde, de forma remota, sob regras rigorosas de segurança, finalidade e controle institucional. São experiências que apontam soluções concretas para os desafios da nova era digital.

Nesse contexto, o Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (Singed) indica a via brasileira. As experiências internacionais mostram que a modernização é possível. Para isso, o Brasil precisa sustentar esse novo ciclo de fortalecimento do IBGE. Isso exige recursos, continuidade da estabilidade institucional, inovação metodológica, uso inteligente da tecnologia, integração segura de bases públicas e uma agenda de pesquisas sólida, capaz de retratar a sociedade e a economia digital em toda a sua complexidade. Exige também compreender que estatística e geociência pública não é um gasto acessório. É infraestrutura essencial do Estado moderno.

Sem um IBGE mais ágil, mais robusto e mais atualizado, o país continuará tentando responder a desafios novos com instrumentos envelhecidos. Continuará planejando com atraso. Continuará enxergando apenas parcialmente a própria transformação. E poderá seguir sendo governado, em grande medida, pelo retrovisor.

Modernizar o IBGE, portanto, é mais do que reformar a instituição. É fortalecer a inteligência pública do Brasil. É dar ao Estado melhores condições de conhecer o território, compreender a população, acompanhar a economia e formular políticas à altura do presente com predição. É criar as bases para que a ação pública deixe de correr atrás dos fatos e volte a antecipá-los.

No fim das contas, a questão é simples. Um país que não conhece bem a si mesmo perde a capacidade de escolher com clareza o seu caminho. E um Estado que mede tarde, mede mal ou deixa de medir o essencial acaba condenado a decidir quase no escuro.

O Brasil não pode se permitir isso. Não em uma era de transição tecnológica acelerada. Não em uma sociedade marcada por desigualdades persistentes. Não em um país que precisa, com urgência, reconstruir sua capacidade de planejamento e seu projeto nacional.

Fortalecer e modernizar o IBGE é, portanto, uma escolha sobre o tipo de país que se deseja ser. Um país que conhece a sua realidade para transformá-la ou um país que continua tropeçando na própria incapacidade de medi-la. A diferença entre uma coisa e outra pode definir não apenas a qualidade das estatísticas e das geociências, mas a qualidade do futuro dos brasileiros.

Marcio Pochmann é professor titular de economia na Unicamp, presidente do IBGE.