
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
O Brasil entrou em uma zona perigosa da história imposta pelo receituário neoliberal. Não se trata de uma crise aberta, que convoca ação, mas a da crise normalizada, que parece dissolver a capacidade de reagir coletivamente.
Nada parece funcionar plenamente e, ainda assim, tudo continua. A política opera sem parecer representar, o trabalho se expande sem muito proteger, a economia cresce sem maior mobilidade social. E, talvez o mais grave, a nova sociedade de serviços hiperconectada que se forja em plena era digital transcorre sem conseguir sequer imaginar uma alternativa consistente a esse estado geral de coisas.
Um novo momento histórico decisivo e paradoxal. Não apenas para o Brasil, mas para a própria ideia de sociedade que todos os progressistas desejam sustentar.
Nunca houve tantos recursos, tanta tecnologia, tanta capacidade produtiva. E, mesmo assim, cresce a sensação de que o futuro parece escapar. Como se estivesse aprisionado ao tempo presente que insiste em se repetir, desgastar e não se transformar.
Franco Berardi chamou isso de “era da impotência”. Um tempo em que o possível existe, mas não se realiza. Um tempo em que a sociedade perde a capacidade de agir sobre si mesma.
Mas é preciso afirmar desde o início que a impotência não é destino. Mas sim, o resultado de escolhas pode ser revertido por decisões.
O Brasil conhece bem essa encruzilhada. De um lado pela estrutura social marcada por desigualdades históricas. De outro, pela nova realidade assentada na fragmentação do trabalho, instabilidade da renda e dissolução das referências coletivas.
O que está em curso não é apenas uma crise. É a transformação profunda na forma de organizar a vida social. Diante disso, não se pode responder com as mesmas fórmulas do passado. Novas doenças, novas receitas.
Como já alertou Georg Simmel, a modernidade intensifica a vida a tal ponto que o indivíduo se vê saturado. Hoje, essa saturação se converteu em esgotamento frente a vida submetida a pressão constante, num tempo acelerado que não permite reflexão nem construção coletiva.
A Escola de Frankfurt mostrou que a racionalidade pode se transformar em instrumento de dominação. E é exatamente isso que se vive, uma racionalidade que organiza a economia, mas desorganiza a sociedade, que produz riqueza, mas corrói o sentido. O resultado é um sujeito isolado, pressionado, responsabilizado individualmente por problemas que são, na verdade, coletivos.
Enquanto isso, como analisaram Claus Offe e Wolfgang Streeck, o sistema econômico enfraqueceu a sua capacidade de integrar. Ele não garante estabilidade, não projeta futuro, não oferece segurança coletiva.
Mas segue funcionando. Segue funcionando porque, como destaca Mark Fisher, o ilusionismo neoliberal faz acreditar que não há alternativa. Que o mundo é assim e assim permanecerá.
Essa crença precisa ser rompida, porque o que está em jogo não é apenas o crescimento econômico. É a capacidade de uma sociedade existir como projeto coletivo.
Urgente afirmar que há, sim, alternativas. Que é possível reconstruir o trabalho como direito. Que é possível reorganizar o tempo social. Que é possível fortalecer o comum. Que é possível orientar o desenvolvimento para o bem-estar coletivo.
Resumidamente, a reafirmação fundamental de que o futuro se constitui enquanto construção política. Não virá automaticamente, tampouco acontecerá espontaneamente pelas forças mercantis, nem mesmo decorrente do determinismo tecnológico. Ele dependerá da nossa capacidade de decidir, organizar e agir coletivamente.
O Brasil precisa voltar a imaginar. Mais do que isso, precisa voltar a agir sobre o que imagina. Isso exige ruptura com o que se tornou naturalizado pelo neoliberalismo. Exige disposição para enfrentar interesses e reconstruir caminhos coletivos. Não será simples. Mas necessário.
Porque uma sociedade que perde a capacidade de projetar o seu futuro começa, lentamente, a perder também sua coesão, sua legitimidade e sua razão de existir.
No sentido contrário, afirmar que o Brasil pode e deve sair da era da impotência neoliberal. Para recolocar o futuro no centro da vida pública e para transformar as possibilidades em realidade.
Marcio Pochmann é professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE. Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]
Referências
BERARDI, F. Futurability: the age of impotence and the horizon of possibility. Londres: Verso, 2017.
BERARDI, F. A fábrica da infelicidade: trabalho cognitivo e crise da new economy. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
SIMMEL, G. As grandes cidades e a vida do espírito. In: VELHO, Otávio Guilherme (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
ADORNO, T. ; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
OFFE, C. Contradições do Estado de bem-estar social. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
STREECK, W. Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático. São Paulo: Boitempo, 2018.
FISHER, M. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020.