
No dia 3 de maio de 2026, Milton Santos faria 100 anos. Mário de Andrade, certa vez, afirmou que era trezentos. Milton, como Mário e como Orlando Senna, faz parte, tranquilamente, da turma somos trezentos. Geógrafo, pesquisador, jornalista, consultor, cientista, advogado, editor, gestor público, escritor e professor universitário, Milton transitou ativamente por diferentes áreas de atuação e de conhecimento. Diferente de Mário de Andrade, turista aprendiz pelo Brasil, Milton viveu o mundo, mas não como Orlando, encantado pela América Latina. Andarilho internacional, ele morou, estudou e trabalhou em países como: França, Canadá, Estados Unidos, Venezuela, Peru e Tanzânia.
Em entrevista voltada à intensa movimentação cultural acontecida em 1950 e 1960 na Cidade da Bahia, como então era conhecida Salvador, Milton Santos afirmou sua desatenção, naquele momento, com a questão racial. Nada destoante da geração político-cultural que, em tais anos, estava em cena na Bahia e no Brasil e focava temas relativos ao campo, latifúndio, coronelismo, culturas do sertão, lutas camponesas e assuntos afins. Glauber Rocha, por exemplo, os traduziu, de maneira genial, em seus primeiros filmes dos 1960, com exceção de Barravento, voltado para as culturas negras, película em que herdou como diretor de Luiz Paulino, que havia deixado a cena. Diferente da geração de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, tão bem expressa recentemente em Os três obás de Xangô, de Sérgio Machado, que exaltou as culturas negras, a geração posterior deslocou seu olhar para o rural, em afinidade política com a luta contra o latifúndio, encarnação das velhas relações de exploração e considerado aliado do imperialismo. Milton Santos, formado em tempo intergeracional, esteve atento às regiões, às redes urbanas e às cidades.
Nascido, como Orlando Senna, na Chapada Diamantina, mas no município de Brotas de Macaúbas, filho de gerações de professores primários, Milton Santos começou a migrar acompanhando o trabalho pedagógico de seus pais. Ubaitaba, Alcobaça e Salvador foram suas moradas. Em Alcobaça, ainda criança, aprendeu francês. Em Salvador, durante dez anos, morou no Instituto Baiano de Ensino. Ali prosperou seu interesse pela Geografia. Em 1948, ele se formou em Direito na Universidade da Bahia, recém-inaugurada em 1946. A cuidadosa atenção dedicada à educação do filho foi um legado primoroso de seus familiares professores.
Formado, seu interesse pela Geografia se mantém. Milton, seguindo a trajetória de seus pais, se torna professor do Colégio Municipal de Ilhéus e lá se torna também jornalista e mais tarde editor de jornal. Em sua estada, escreveu Zona do cacau, depois publicado na prestigiosa Coleção Brasiliana. No livro, a influência de pensadores franceses já está presente. Retornando à Salvador, ele combina a carreira acadêmica universitária com o ingresso no serviço público. Entre 1956 e 1958, fez seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, com tese intitulada O centro da cidade de Salvador, orientado por Jean Tricart, demonstrando a escolha cada vez mais pronunciada pela Geografia. Sua titulação acontece em um tempo em que a atenção com a pós-graduação inexistia no país.
Ao regressar ao Brasil, ele cria o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais na Universidade da Bahia, onde desenvolve pesquisas sobre temas regionais e intenso intercâmbio nacional e internacional. Na instituição, ele faz concurso para livre docente. Pouco depois, Milton Santos é nomeado diretor da Imprensa Oficial da Bahia. Ele modernizou seu parque gráfico e passou a publicar a interessante Revista da Bahia, na qual são debatidos temas políticos, científicos e culturais. A concepção da Geografia de Milton Santos se abre para temáticas cada vez mais amplas e articuladas. Logo, ele é aprovado, em concurso, como Catedrático Interino de Geografia Humana na Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia.
Em 1961, depois de estar na Cuba revolucionária como jornalista, acompanhando a visita do presidente Jânio Quadros, Milton Santos pediu demissão da Imprensa Oficial para ser nomeado pelo governante para o cargo de subchefe da Casa Civil. Com o final da fugaz gestão de Jânio Quadros, tempos depois, Lomanto Júnior, governador da Bahia, levou Milton Santos para dirigir a Comissão de Planejamento Econômico (CPE), um dos primeiros organismos de planejamento estadual existentes no Brasil. O golpe civil-militar de 1964 prendeu Milton Santos. Ele é obrigado a deixar a CPE e a Universidade da Bahia e se exilar.
Interditado de exercer sua inquietação político-criativa em terras baianas e nacionais, ele se transforma cada vez mais em cidadão-andarilho do mundo e da Geografia. Ao transitar pelo planeta, ele ensina, pesquisa, orienta, escreve, publica, palestra, discute, milita, faz consultorias e revoluciona a Geografia. Nos doze anos de exílio, ele se transformou em um dos pensadores brasileiros mais aclamados e reconhecidos internacionalmente. Nada causal, que depois de seu retorno ao país em 1976, ele conquistasse em 1994 o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, considerado uma espécie de Nobel da Geografia, além de receber inúmeras homenagens internacionais e mais de dez títulos de Doutor Honoris Causa de universidades mundo afora.
Seu reconhecimento como brilhante pensador não deve silenciar sua inquietação expressa na sua múltipla atuação e no seu compromisso com as questões de seu tempo e espaço. Aliás, uma de suas categorias analíticas fundamentais no seu revolucionar a Geografia. Sua trajetória de intelectual comprometido recorda, com afinidade, a noção de intelectual orgânico do pensador Antonio Gramsci, devido às suas continuadas afinidades com os interesses de seu povo, por contraposição à noção acomodada de intelectual tradicional. Sua manifesta necessidade de participar das transformações sociais em andamento no mundo, no Brasil e na Bahia, de analisá-las em profundidade e submetê-las à crítica, expressam sua ativa atitude frente à vida e seus desafios. Seu compromisso teórico-prático é notável.
Dois exemplos expressivos de sua relação com as questões vitais de seu tempo e espaço afloram em seus posicionamentos acerca da globalização, antes mesmo que tal noção se transformasse em inevitável agenda pública na virada do milênio. Ele contrapõe, de modo vigorosamente crítico, a perversa globalização capitalista à possibilidade de uma outra globalização afinada com os interesses dos povos. Neste contexto, Milton Santos aflora como um dos pensadores mais antenados para lidar com a nova circunstância glocal ao propor O retorno do território. A noção e suas derivadas, tais como territorialidade e territorialização, passam a ser incorporadas e acionadas para entender corrosivamente a nova circunstância do planeta e para esboçar alternativas potenciais de resistência e superação do capitalismo em sua proposição globalizante.
Suas formulações acerca do território, sempre distanciadas do mero ambiente físico, enfatizam o território usado, concebido mobilizando suas dimensões econômicas, sociais, políticas e culturais. Tal noção robusta de território inspira múltiplos pensamentos e intervenções em muitos países. As discussões acerca dos enlaces entre cultura e território e de distintas possibilidades de territorialização das políticas culturais na atualidade perpassam os estudos de cultura e, mais especificamente, de políticas culturais. Noções tais como: território, territorialidade, territorialização, desterritorialização, reterritorialização e afins importam e povoam hoje os estudos da cultura.
Em um momento, no qual o mundo parece tender a se desglobalizar, com o desmantelo arrogante e brutal das normas, mesmo aquelas antes negociadas de modo desigual e impostas por meio da dominação do Ocidente, a atuação e o pensamento crítico-solidário de Milton Santos para com os de baixo e os de movimentos lentos floresce como potência e perspectiva para a luta e a imaginação de outro mundo possível. O pensamento e a atuação de Milton Santos permanecem vivos em seu centenário de nascimento. Eles inspiram múltiplas lutas e transpiram transformações sociais e culturais no complexo planeta em que vivemos, no qual se confrontam: unipolaridade e multipolaridade; autoritarismos e democracias; devastação e preservação ambiental; capitalismo neoliberal e sociedades alternativas; monocultura e diversidade cultural; enfim: barbárie e utopia.
Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)