Cultura

O caos se ancorava na amorosa e intensa dedicação coletiva de fazer algo, em um mundo e um país quase sem sentido, que parecia tudo interditar. O filme de Henrique Dantas desvela o caos criativo e a força coletiva em meio a circunstâncias doentias

Henrique Dantas, jovem cineasta baiano, depois de filmar Os filhos de João, disponível na Netflix para quem quiser ver a bela película sobre os Novos Baianos, acabou de realizar um novo longa-metragem: Os anti-heróis do udigrundi baiano, documentário premiado do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema, edição de 2026. No filme, o chamado “cinema marginal” na Bahia é mexido e revirado de modo, ao mesmo tempo, afetuoso e crítico.

O chamado “cinema marginal” brasileiro aconteceu no período mais brutal da ditadura civil-militar, entre os anos de 1968 e 1973. Ele explode depois de impasses do Cinema Novo, interditado em boa medida pelo regime autoritário, que limitou a liberdade e a imaginação no país e colocou em xeque as possibilidades de realização de filmes críticos da desigual sociedade brasileira. Além disso, a ditadura tentou coaptar cineastas, inclusive oriundos do próprio Cinema Novo, via obtenção de apoios para realização de seus filmes com a criação da poderosa Embrafilme, que visava desenvolver-domesticar o audiovisual brasileiro.

Os anos do “cinema marginal” foram tempos sombrios, com a repressão aos movimentos contestadores da ditadura, armados ou não, com censura, prisões, torturas, assassinatos, como o de Rubens Paiva, e exílios como os de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré. Com a vida prejudicada, a juventude buscou alternativas para expressar seu mal-estar com a situação, seja por meio de movimentos políticos, pacíficos ou armados, seja através de manifestações comportamentais, como o movimento hippie, ou por meio de outras rebeldias. O “cinema marginal brasileiro” teve como seus palcos principais São Paulo e Rio de Janeiro e envolveu figuras como Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha, A Mulher de Todos), Júlio Bressane (Matou a Família e foi ao Cinema, O Anjo Nasceu) e Ozualdo Candeias (A Margem, A Herança), além, da atriz Helena Ignez.

Apesar da repressão generalizada, o Brasil conheceu uma “floração tardia”, no dizer perspicaz de Roberto Schwarz, entre 1964 e 1968, do potente movimento cultural que floresceu antes da ditadura. Até o golpe de 1964, o país viveu um período de intensa criatividade e inteligência nas mais diversas áreas da cultura. A ditadura, em sua fase inicial, mesmo reprimindo a sociedade e a cultura, não conseguiu conter a vida daquele movimento, pelo menos até 1968, quando o golpe dentro do golpe, com o AI-5 e o decreto 477, implantou a fase mais terrível e violenta da ditadura. O novo golpe impôs um vazio cultural ao país, como denunciou a revista Visão, conduzida por Wladimir Herzog, logo depois preso, torturado e assassinado pelo regime autoritário. Após o aniquilamento da “floração tardia”, o clima social, político e cultural do país se tornou ainda mais desesperador. Nesse contexto nasce o “cinema marginal”.

A situação na Bahia viveu uma perplexidade singular, pois a ditadura, desde 1964, e a dinâmica cultural, mais concentrada no eixo Rio de Janeiro e São Paulo, forçaram a migração de parte significativa dos criadores culturais para aqueles estados. Nomes expressivos no movimento cultural baiano, intenso entre meados de 1950 e o golpe civil-militar de 1964, deixaram a Cidade da Bahia, como muitas vezes era chamada Salvador. Dentre muitos outros: Carlos Nelson Coutinho, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé, José Carlos Capinan e Muniz Sodré. Outros tiveram que se exilar no exterior, a exemplo de Milton Santos.

Para além da perseguição da ditadura e do esvaziamento da cena local, outras dinâmicas atentaram contra a vida cultural baiana. A construção no país de uma indústria cultural, com a subordinação da televisão a uma lógica, crescentemente nacional, de produção e difusão, destruiu programações, que visibilizavam as culturas regionais, e equipamentos culturais associados às emissoras de rádio e televisão, como orquestras, grupos de teatro e de dança, coletivos musicais etc. Programas que divulgavam atrações culturais locais foram suprimidos. Caetano Veloso se recorda de ter visto Gilberto Gil pela primeira vez em um programa musical da TV Itapoan, dos Diários Associados na Bahia. Com isso, a cena cultural baiana perdeu muito de sua dinâmica e de sua visibilidade, mecanismo vital para as manifestações da jovem cultura, que emergia na Cidade da Bahia.

Alterações urbanas em Salvador, com o declínio do antigo centro histórico também impactaram a vida cultural, pois ela se nutria de uma combinação umbilical entre boemia e animação cultural nos espaços centrais da cidade. As remodelações urbanas implantadas por governos municipais e estaduais afetaram sobremodo tais enlaces. Elas, juntamente com a repressão da ditadura, afetaram a dinâmica do movimento cultural, debilitando sua vida e as andanças boêmio-culturais no centro da cidade.

Outro fator que não pode ser esquecido. A Universidade da Bahia, depois Universidade Federal da Bahia, acolheu entre meados de 1950 até 1961, com o final do mandato do reitor Edgard Santos, um empolgante movimento cultural, que combinou expressões de vanguarda europeia, trazidas pelos inúmeros professores estrangeiros acolhidos pela universidade, com a dinâmica político-cultural brasileira, a exemplo daquela produzida pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, em sua versão baiana. Especialmente nos anos de 1964 e de 1968, a universidade sofreu forte repressão, com a perseguição de professores, estudantes e técnicos. Ela afetou sobretudo a animação cultural universitária.

Nem todos foram forçados a abandonar a vida cultural baiana. Orlando Senna tentou continuar a viver a cultura na cidade, mas sua demissão do cargo de diretor do Teatro Castro Alves indicou que os tempos estavam cada vez mais sombrios, forçando pouco depois sua migração para o Rio de Janeiro. O Teatro Vila Velha, com João Augusto, e, já nos anos 1970, o Instituto Cultural Brasil-Alemanha (ICBA), dirigido por Roland Schaffner, e a atuação político-cinematográfica de Guido Araújo, entretanto, mantiveram viva alguma dinâmica cultural, que, por certo, alimentam o “cinema marginal” baiano. Mas a cultura na Bahia estava bastante debilitada se comparada à criativa agitação cultural antes existente.

O “cinema marginal” foi uma rebeldia contra ditadura e contra o conservadorismo que oprimia a sociedade e, especialmente, os setores jovens de classe média. A rebeldia não tomou uma imediata conotação política, pois focou mais o mal-estar de ordem existencial e moral, traduzindo-se como revolta contra os valores dominantes impostos pela sociedade burguesa, sobredeterminada naquele momento pelo autoritarismo do regime civil-militar. A juventude se sentiu excluída e enojada com aquele universo de valores conservadores. O mal-estar com a sociedade instituída aproximou e distanciou o “cinema marginal” de outras dinâmicas contraculturais, como o movimento hippie, vigentes então no Brasil e no mundo. Entretanto, as relações entre os variados movimentos de rebeldia, inclusive em suas opções mais políticas, não aconteceram sem tensões.

Entre 1968 e 1972 foram produzidos quatro filmes na Bahia: Meteorango Kid, herói intergalático (1969), de André Luiz Oliveira; Caveira, my friend (1970), de Álvaro Guimarães, O anjo negro (1972), de José Umberto e Akpalô (1972), de Deolindo Checcucci e José Frazão. Eles tensionam seu tempo. Eles expressam anarquicamente o mal-estar de setores jovens das classes médias com a sociedade. Em Meteorango Kid, o anti-herói Lula (Antonio Luiz Martins), estudante universitário, vive o desesperado mal-estar diário, inconformado com a moral, a vida e a ditadura vigentes. Em Caveira, my friend, a película retrata um grupo de assaltantes, tema bastante comum no “cinema marginal”, acolhedor de comportamento desviantes na sociedade. Em O anjo negro, a figura negra, misteriosa, mítica e poderosa de Calunga (Mário Gusmão) desmorona relações patriarcais, além de introduzir uma singularidade baiana no “cinema marginal” ao realçar a figura negra de Mário Gusmão e trazer para a cena culturas afrobaianas. Em Akpalô, filme desaparecido, novamente a singularidade cultural negra da Bahia se faz presente.

Henrique Dantas, em licença poética, acolhe no seu udigrundi baiano, o temporão SuperOutro, lançado em 1989. O irreverente diretor (Edgard Navarro) e seu irreverente filme justificam a inserção atemporal. O anti-herói, mendigo e louco (Bertrand Duarte), como um Dom Quixote contemporâneo, através de sua alucinada imaginação enfrenta a realidade hostil da cidade e malogra, mas realiza sua última atuação tragicômica: voar como um super-herói. Fora do tempo, Edgard Navarro transpõe atitudes e traços vitais do “cinema marginal” para o contexto dos anos 80, quase 90. O país já parecia outro, em lugar da ditadura uma transição pelo alto para uma democracia limitada, mas mantém, perigosamente, valores e desconfortos dos anos sombrios. O escracho e a atitude anárquica frente aos incômodos de uma sociedade, que parece não mudar, apesar da transição para a democracia, alimentam o filme de marcas vitais do “cinema marginal”. Sua inclusão no udigrundi baiano é bem-vinda.

As diversas e deliciosas entrevistas com autores e estudiosos do “cinema marginal baiano” recuperam o dilema de filmar em meio ao autoritarismo, ao conservadorismo, à ausência de condições para fazer cinema e ao desespero de falta de alternativas sociais. Um desafio apenas assegurado pela visceral contestação existencial. A atitude anárquica do criar cinema fica exposta em falas acerca da quase inexistência de um roteiro prévio, com suas sucintas três páginas, ou das mudanças intermináveis e ininterruptas dos roteiros durante as filmagens, devido a múltiplos fatores, dentre eles as viagens alucinógenas. O caos se ancorava na amorosa e intensa dedicação coletiva de fazer algo, em um mundo e um país quase sem sentido, que parecia tudo interditar. O filme de Henrique Dantas desvela o caos criativo e a força coletiva em meio a circunstâncias doentias. Diferente dos tempos individualistas atuais, os anos do udigrundi baiano eram tempos de desespero enfrentados anarquicamente em coletivo.

As cinco películas acolhidas no filme são marcadas por clima e atitudes comuns frente a vida e a sociedade. Ácidas, elas pretendem corroer o conservadorismo e o autoritarismo, recorrendo para isso ao deboche, à irreverência e à desconstrução. Seus anti-heróis são tragicômicos. Eles parecem não buscar algo, mas expor, como uma ferida aberta, seu desconforto com o mundo alienado. Suas estéticas possuem traços compartilhados. Seus conteúdos e formas denunciam o mal-estar vigente. Pode-se imaginar que o contexto e a visão de classe média sejam os criadores do “cinema marginal”, pois independente das nuances criativas de cada diretor, sumamente importantes para tecer a singularidade de cada obra, os filmes possuem um horizonte político-cultural comum, que circunscrevem seu horizonte cultural. Ele expressa segmentos jovens das classes médias, mesmo quando filmam e se encantam com outras classes sociais, como acontece com O anjo negro, que tem sua singularidade anotada na entrevista de seu diretor, José Umberto, em perspicaz sintomia com mudanças silenciosas em andamento na sociedade baiana, mesmo nos anos sombrios, que parecem ter poder de tudo paralisar e domesticar. As culturas afrobaianas encantam o diretor de classe média, com elas também seduziram Glauber Rocha em Barravento.

No final do filme, Henrique Dantas dá uma lição de delicadeza amorosa-crítica. Ele, que vivenciou o udigrundi baiano em imersão generosa e profunda, não pode se calar frente às limitações do tempo presentes nos filmes. Eles, apesar da rebeldia, se contaminaram, de modo inconsciente, traiçoeiramente por valores conservadores vigentes na Bahia. Sem pretensão de exigências atemporais, Henrique Dantas expõe, no momento final do filme, contradições presentes nas películas rebeldes. Seus ares contestadores não os impedem de serem atravessados por algumas cenas homofóbicas e machistas. Marcas de um tempo de valores outros, acolhidos mesmo na irreverência criativa do “cinema marginal” baiano. A inventiva homenagem dedicada por Henrique Dantas ao udigrundi baiano implica em traduzi-lo em sua plenitude de encantos e de contradições.            

Afirmar o udigrundi baiano como expressão fílmica de classe média não desmerece seu contributo. Apenas assinala sua criação datada e determinada na sociedade capitalista. Cabe reconhecer o direito da diversidade de olhares sociais sobre os dramas da sociedade e das pessoas. O problema, em verdade, é a negação de que outras classes sociais tenham esse direito interditado pelo capitalismo desigual. A diversidade cultural é componente vital da democracia ampliada, que não se contenta apenas com eleições e votos, por mais importante que sejam. Ela exige, além dos ritos políticos democráticos formalizados, a efetividade da igualdade e direitos idênticos para todos. A democracia ampliada demanda que a pluralidade de vozes político-sociais se torne existente e reconhecida.

O filme de Henrique Dantas retém intensa contemporaneidade. Em um mundo distópico, transbordante de ameaças, autoritarismos, guerras, moralismos e violências cotidianas, tratar os dilemas de rebeldias acontecidas em pretéritos tempos sombrios, ditatoriais e conservadores, que pareciam não ter fim, demonstra vigorosa atualidade. Ela se torna ainda mais intensa quando o filme demonstra que, apesar de tudo, projetos coletivos, anárquicos e caóticos, conseguiram se realizar, quando amados e vivenciados. Por certo, tal atitude coletiva diz muito aos habitantes da atualidade, que precisam de força coletiva para não cair no imobilismo e na indiferença ou, ainda pior, permitir que autoritarismos e barbáries invadam o mundo e o Brasil.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)