Política

Recuperar o futuro é tarefa política central. E isso exige ligar as lutas do presente a um projeto nacional de desenvolvimento, democracia substantiva e soberania

Coordenando o grupo de trabalho responsável por apresentar um novo programa do Partido dos Trabalhadores, submetido no Congresso que se realizou neste fim de abril, apresentei um texto para reflexão sobre o caráter da crise do capitalismo e o nosso momento histórico. Nele, ofereci uma contribuição ao debate e à formulação do Programa do PT, procurando caracterizar a crise do capitalismo – que alguns veem não apenas como crise do neoliberalismo, mas do próprio sistema, como se fosse sua crise final, ou como se pudesse abrir um período histórico de crise revolucionária – e propus uma reflexão sobre nossa estratégia política e, portanto, sobre as tarefas e objetivos que devemos definir.

Chamei atenção também para outro elemento decisivo: vivemos um período de profundas transformações tecnológicas, com efeitos diretos sobre o mundo do trabalho, a configuração da classe trabalhadora e sua consciência social. Essa mudança, combinada com a desconstrução de direitos sociais e, em muitos casos, políticos, enfraqueceu sindicatos, partidos e lideranças. Ao mesmo tempo, a esquerda enfrenta uma correlação de forças adversa, tanto no cenário internacional quanto na disputa política no Brasil. Reconhecer essas mudanças e essa correlação é condição para pensar a ação política e a defesa e ampliação dos direitos sociais. No limite, é condição para refletir sobre a própria classe trabalhadora no país.

Como sustentei naquele texto, precisamos avaliar se a classe trabalhadora mantém sua centralidade, se há uma direita liberal disposta a uma aliança em defesa da democracia e de avanços sociais, e se existem setores empresariais comprometidos com um projeto nacional de desenvolvimento. Devemos perguntar, inclusive, se dispomos de força política e organizativa para colocar essas tarefas. Ou se, diante da ascensão da extrema direita, do uso da força militar como instrumento de pressão sobre países e da hegemonia conservadora no mundo, devemos concentrar esforços na defesa da democracia, dos direitos consagrados na Constituição de 1988 e da soberania nacional.

É um momento que exige reconhecer os limites do PT e das esquerdas no Brasil, à luz das mudanças culturais, políticas e sociais das últimas décadas. Isso não implica recuo na luta, mas condição para avançar com mais consistência. Nos últimos anos, enfrentamos reformas regressivas, o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a prisão política, ilegal e depois anulada do presidente Lula, o enfraquecimento de partidos e sindicatos, o avanço das big techs e das redes, a influência crescente das igrejas evangélicas e a consolidação eleitoral da direita e da extrema direita. Não se pode analisar a trajetória recente da classe trabalhadora sem considerar também a ofensiva jurídica e política contra o PT, os movimentos sociais e nossos governos, sobretudo entre 2013 e 2019. Os tempos não foram e não são fáceis.

Formação histórica e luta de classes no Brasil

Desde que o capitalismo se consolidou como modo de produção dominante, a classe trabalhadora se afirmou como o principal contraponto à hegemonia burguesa. Não apenas porque produz a riqueza social, mas porque carrega a possibilidade de questionar uma ordem fundada na exploração e na desigualdade. Marx e Engels formularam isso de modo clássico ao afirmar que a história das sociedades é a história da luta de classes. Essa formulação permanece atual como chave explicativa: o capitalismo não elimina o conflito, apenas o reorganiza, criando novas formas de dominação e exploração.

No Brasil, esse processo assumiu características próprias. Nosso capitalismo se formou sob o peso da escravidão, da grande propriedade, da dependência externa e da exclusão política das maiorias. Em raros momentos da nossa história a burguesia brasileira assumiu um projeto nacional de desenvolvimento. Ao contrário, predominou o pacto conservador, a subordinação aos centros do capitalismo e a contenção da participação popular. Por isso, a questão da classe trabalhadora no Brasil ultrapassa o plano econômico, envolvendo a formação da nação, a natureza do Estado, o caráter da democracia e o lugar do país no mundo. A luta dos trabalhadores sempre foi, ao mesmo tempo, social, política e nacional. E os momentos de maior avanço do País coincidem com períodos de organização popular, conquista de direitos e deslocamento na correlação de forças.

O PT nasceu dessa trajetória. Surgiu das greves do ABC, do novo sindicalismo, dos movimentos sociais e da reorganização popular no final da ditadura. Representou a construção de um instrumento político próprio dos trabalhadores, capaz de articular lutas imediatas e estratégia histórica, ação institucional e mobilização social. Esse foi seu papel central: organizar os de baixo para disputar o poder, dar expressão política aos trabalhadores e transformar resistência em força dirigente. Foi isso que o tornou a principal referência da esquerda brasileira – e também o principal alvo das classes dominantes, da mídia conservadora e das operações de lawfare que buscaram inviabilizar a presença popular no governo.

Os governos do PT demonstraram que, quando a classe trabalhadora chega ao poder, o país muda. Crescem salários, expandem-se empregos, recua a fome, amplia-se o acesso à educação e o Estado volta a investir. Mas mostraram também os limites estruturais impostos pelas elites, que toleram inclusão desde que não altere o núcleo do poder. Quando percebem risco, reagem, e reagem duramente. O golpe de 2016 e a prisão de Lula em 2018 foram expressões dessa reação. Movimentos de recomposição de poder de um bloco rentista, conservador e antinacional, historicamente disposto a recorrer à ruptura para manter seus privilégios.

A reconfiguração da classe trabalhadora

Enquanto isso, avançava um outro processo, a transformação da própria classe trabalhadora. A desindustrialização, a financeirização, a digitalização e a plataformização alteraram profundamente as formas de trabalho. O operariado industrial perdeu peso relativo, enquanto cresceram os serviços, a informalidade, o trabalho precário e mediado por aplicativos. Isso levou alguns a falar no fim da classe trabalhadora. É um erro evidente de análise, pois o que houve, na verdade, foi sua reconfiguração. A exploração permanece central, mas assume novas formas, muitas vezes menos visíveis. O entregador submetido a algoritmos, a mulher sobrecarregada entre trabalho precário e cuidado, o jovem negro da periferia entre desemprego e informalidade, todos integram essa nova classe trabalhadora, ainda que nem sempre se reconheçam como tal.

A esquerda precisa compreender essa nova realidade. A classe é hoje mais fragmentada, atravessada por desigualdades de renda, gênero, raça e território. Isso torna mais complexa a construção de unidade política. Se antes a fábrica concentrava trabalhadores e identidade, hoje o capital fragmenta, isola e individualiza. A ideologia do empreendedorismo e da meritocracia cumpre papel decisivo nesse processo, ao transformar problemas estruturais em responsabilidades individuais. Por isso, o ataque aos sindicatos foi estratégico para as elites: tratava-se de enfraquecer o principal instrumento de organização coletiva. Reforma trabalhista, terceirização e ofensiva cultural antissindical caminharam nesse sentido.

Ainda assim, a resistência persiste. Ela se expressa nas greves de entregadores, nas lutas urbanas, nos movimentos de mulheres, na juventude negra, nas mobilizações por moradia e direitos básicos. A classe trabalhadora segue ativa, mas de forma dispersa. O desafio é transformar essa diversidade em força política organizada.

Esse é o tamanho do desafio para o PT. O partido precisa reconhecer que a classe trabalhadora mudou, que suas formas de organização tradicionais perderam eficácia relativa e que a disputa política exige novas mediações. Isso não significa abandonar os sindicatos, muito menos renunciar ao trabalho de base clássico. Significa ampliar o repertório, ocupar novos territórios sociais, compreender as periferias urbanas como centro da política contemporânea, dialogar com os trabalhadores de plataforma, com os informais, com o mundo do cuidado, com a juventude precarizada, com as novas linguagens e formas de sociabilidade produzidas pela vida digital e pela fragmentação urbana. Também significa recolocar a formação política no centro. E lembrar que a extrema direita conseguiu falar com parcelas da classe trabalhadora, explorando medos, ressentimentos e frustrações que a esquerda, em muitos momentos, não soube organizar politicamente.

Reconstruir o horizonte de futuro

Há, por fim, uma questão decisiva: reconstruir a ideia de futuro. O capitalismo contemporâneo rebaixa expectativas e reduz horizontes. Milhões passaram a viver administrando urgências, sem perspectiva de transformação. Recuperar o futuro é tarefa política central. E isso exige ligar as lutas do presente a um projeto nacional de desenvolvimento, democracia substantiva e soberania.

O PT nasceu para cumprir esse papel de transformar indignação em organização e organização em mudança política. Para seguir à altura de sua história, precisa compreender a nova morfologia da classe trabalhadora, sem nostalgia nem capitulação. Precisa combinar luta institucional e mobilização social, reconstrução sindical e novas formas de organização, defesa de direitos e criação de novos.

A classe trabalhadora continua sendo protagonista, ainda que de forma mais contraditória e múltipla. Continua sendo resistência, porque sobre ela recaem as principais violências do capital. E continua sendo possibilidade histórica, porque nenhuma mudança profunda no Brasil será feita sem ela. O desafio do nosso tempo é reconstruir, dentro dessa diversidade, a unidade política necessária para enfrentar a burguesia rentista, autoritária e dependente que segue bloqueando o país. Preparar o PT para isso é, ao mesmo tempo, uma tarefa partidária e uma missão estratégica para o futuro do Brasil.

José Dirceu é advogado e militante político, foi ministro da Casa Civil.