Cultura

Quero abordar o desenvolvimento de uma política pública bem-sucedida, nem sempre cuidada com o devido carinho por administrações petistas: comunicação, mais especificamente a presença da televisão e rádio do estado.

 

O PT governa a Bahia desde 2007, desde a surpreendente vitória de 2006, quando o carlismo cantou vitória antes do tempo. Dois mandatos de Jaques Wagner, dois de Rui Costa, e o atual, do governador Jerônimo Rodrigues. Uma hegemonia à beira de duas décadas. É possível destacar, sem qualquer esforço, duas visíveis e grandes transformações decorrentes desses mandatos: Educação e Saúde, onde houve notáveis melhorias na infraestrutura e na qualidade dos serviços. Há outras tantas. Enfrenta o problema da segurança pública, como o resto do país. Crescimento do crime organizado e uma polícia violenta, com esforços recentes tentando equacionar o combate às facções e o respeito aos direitos humanos.

Nesse texto, quero abordar o desenvolvimento de uma política pública bem-sucedida, nem sempre cuidada com o devido carinho por administrações petistas: comunicação, mais especificamente a presença da televisão e rádio do Estado. Vou ousar, e começar dizendo: a política pública de comunicação da Bahia é um caso a ser estudado por quem queira pensar em relacionar-se com a população, uma política pública de excelente qualidade, e de acordo com a visão teórica do Partido dos Trabalhadores na área, raramente aplicada com sucesso.

Quando o atual diretor, Flávio Gonçalves, assumiu a direção do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB) em 2016, ainda encontrou terra arrasada. Os dois primeiros mandatos petistas tiveram de lidar com outras urgências, desenvolver políticas públicas voltadas ao atendimento de necessidades elementares da população, e não haviam tido ainda a chance de se preocupar com a comunicação, dar a ela a devida prioridade. A chegada do novo diretor foi um ponto de virada – o governo sabia das qualidades de Gonçalves, largamente demonstradas nessa década.

Terra arrasada

Quando se diz terra arrasada, não é figura de retórica: a Televisão Educativa da Bahia (TVE) chegava com sinais apenas a Salvador e Região Metropolitana. Nem Feira de Santana, nem Vitória da Conquista, maiores cidades do interior, eram beneficiadas por sinais. No ranking de audiência, ocupava o 4º, quando não 5º lugar, em nenhum momento alcançava o 1º lugar. Não era assistida. Necessário criar as condições para ela chegar a uma população de quase quinze milhões de habitantes, a um território superior ao da França – desafio de bom tamanho.

Governo meteu mãos à obra. Hora de uma política pública de comunicação. Não ficar na dependência apenas das televisões e emissoras de rádio comerciais, sempre atentas aos próprios interesses, nunca necessariamente às reivindicações das maiorias. Flávio Gonçalves, mestre em Políticas de Comunicação e Cultura pela Universidade de Brasília, olhava para a missão do IRDEB: produzir conteúdos que informassem, educassem e entretivessem. E fortalecessem a enorme diversidade da Bahia.
Como fazer isso se até aquele momento a televisão não chegava ao povo?

Reflete, então: rádio e televisão requerem a construção de alguma empatia com a população. O cidadão, a cidadã devem sentir, em algum dia do ano seja, que “esse negócio tem a ver comigo”. E “esse negócio” só terá relevância se tiver espectador e ouvinte, se as pessoas puderem parar para ouvir e assistir, se o “negócio” estiver à disposição delas.
Ao fazer isso, poderão até criticar, e isso é bom. Como se faz com o SUS – a maioria da população se vale dele, e critica, e ao fazê-lo, ajuda o serviço a melhorar. Rádio e televisão, precisam ter audiência. Só assim podem tornar-se necessários. A primeira medida seria disponibilizar o sinal, garantir pudesse a população assistir aos programas da televisão e da emissora de rádio.

Se isso não acontece, a discussão sobre a possibilidade de audiência crescer é inócua, vazia. São instalados então cem retransmissores, atingindo os 27 territórios da imensa Bahia, um significativo primeiro passo, decisivo. Ainda insuficiente. Precisava crescer em potência: instaladas mais 116 estações retransmissoras, chegando então a alcançar 280 municípios, 12,5 milhões de baianos.

Uma das maiores coberturas da Bahia, semelhante à Rede Globo e da afiliada dela, TV Bahia, superior à cobertura da Record, SBT e Band. Começava a ser gente grande.

Em 2025, o sinal da TVE foi disponibilizado para todo o Brasil – qualquer município pode captar o sinal por antenas parabólicas (canal 222). No Brasil, as parabólicas alcançam oitenta milhões de pessoas. O alcance da TVE chega a dois milhões de antenas instaladas. Na Bahia, o alcance do sinal foi universalizado. A palavra de ordem do direito à comunicação, levada a sério: a população pode acessar a televisão e a rádio públicas. E poder acessar é essencial. É a forma de garantir tal direito.
TV Educa, três em um

Houve atenção especial com a Rádio Educadora. Contava com um transmissor de três quilos, analógico. Comprado um de 35 quilos, digital: passa à condição de emissora mais potente de Salvador, a alcançar aproximadamente trinta municípios, atingindo cinco milhões de baianos. Como, no entanto, a Rádio Educadora também está disponível no sinal aberto da televisão, chega também a doze milhões de pessoas. Não ficava nada a dever à televisão.

Pandemia, crise. Em meio à tempestade na educação, surgiu a ideia de criar a TV Educa, outro canal, com aulas ao vivo, dadas por professoras e professores da rede estadual, de manhã, de tarde e de noite, de segunda a sexta-feira, entre 7h30 e 22 horas. Enfrentar a pandemia, e dar início a um novo canal.

Modalidade de ensino médio com intermediação tecnológica, uma forma complementar de ensino, de muita utilidade, especialmente para quem estuda e trabalha, oferecendo conteúdos alinhados à Base Nacional Comum Curricular. Dessa maneira, três em um à disposição de telespectadores e ouvintes: TVE, TV Educa Bahia e Rádio Educadora pela TV.

Magia do futebol
Bem, mas e a audiência?

Se esta não acontece, todo esforço iria por terra. A direção do IRDEB refletiu sobre o que fazer, e resolver por um caminho simples: apostar na cultura popular. Primeiro, no futebol, paixão da gente brasileira. Transmissão dos campeonatos baianos de futebol. Série A, série B, Sub-20, Sub-17, Sub-15, campeonato feminino, campeonatos intermunicipais, campeonatos indígenas, diabo a quatro, não apenas os torneios onde rola a grana – mergulhar onde o povo está. Parece óbvio, mas nem sempre o óbvio é percebido.

Criou impressionante identidade com o esporte da bola, virou Casa do Futebol Baiano, assim conhecida agora, apropriadamente. Trouxe espectadores de uma nova geração, torcedores dos times locais, não mais só flamenguistas, vascaínos, corintianos, são-paulinos, como antes. Pôde fazer isso, ampliar em muito a cobertura do futebol, porque não aprisionada pelo dinheiro, insista-se. Disso resultou uma TV pública de massa.

O futebol foi o gancho para atrair um amplo contingente para acompanhar o restante da programação. Nos jogos, divulga-se a programação inteira, chamando muita gente. Não foi tão somente uma jogada de marketing, e não é pecado fazer o bom marketing. Os aficionados pelo futebol descobrem outra tevê, outra programação, programa de entrevistas, um Bob Fernandes entrevistando as mais variadas personalidades.

Não custa dizer: o futebol propiciou feito inédito. Campeonato baiano deste ano, Bahia x Vitória, os dois maiores times do estado, 25/1/2026, e a TVE disparou, primeiríssimo lugar, vinte pontos. TV Bahia, afiliada da Rede Globo, em segundo lugar, com 4,5 pontos de audiência. Nem pensar nisso lá pelos idos de 2016. Nunca, aliás. Parecia um sonho. Melhor, sonho realizado. TV pública de massa. Mas em meio ao sonho, a direção do IRDEB não se inebria, não se perde. Tem paradigmas, orientação, diretrizes, filosofia.

Longe das Bets, combate ao feminicídio
A TVE não aceita nenhuma menção às Bets. Não exibe anúncios publicitários de empresas de jogos eletrônicos. Considera a propaganda das Bets um absurdo. Primeira emissora a adotar tal política, impulsionada pelas informações sobre os impactos sociais, econômicos e psicológicos negativos associados aos jogos, especialmente entre trabalhadores, jovens e beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família.

Tem consciência da gravidade do fenômeno do machismo. Dos assassinatos em série contra mulheres Brasil afora. No decorrer das transmissões futebolísticas, desenvolve-se uma campanha contra o feminicídio. Não é só transmitir o jogo: investir noutra cultura, combater a cultura misógina dos homens, combater essa absurda noção de propriedade alimentada pelo mundo masculino em relação à mulher.

“Nós temos posição, visão de mundo”, afirma Flávio Gonçalves. A comunicação não rima com isenção. Ela é educativa, contribui fortemente para a educação, para a cultura do povo.

A direção do IRDEB tem noção do papel cultural da comunicação de massa. Especialmente em relação às crianças. A TVE se consolidou como um espaço seguro, educativo para as crianças. Programação diária de manhã e à tarde, conteúdos cuidadosamente selecionados, respeito às diferentes faixas etárias, promoção de valores essenciais: inclusão, diversidade, criatividade e respeito.

Quando se fala em mergulho na cultura do povo da Bahia, lembrar da maior festa do estado: o São João. Cobertura pra ninguém botar defeito durante toda a última década. Assim com o Carnaval, o espetacular Carnaval, com a Lavagem do Bonfim, com a Festa de Iemanjá. E exibe programas jornalísticos, como TVE Revista e TVE Notícias, além de semanalmente exibir programas de entrevistas com personalidades do esporte, da cultura, da política, meio ambiente, educação, direitos humanos. Fez história ao ser a única emissora de TV da Bahia presente nas Olimpíadas e Paralimpíadas de Paris 2024, oferecendo uma cobertura exclusiva e personalizada para o público baiano.

Saga do Dois de Julho
Fez História ainda, e aqui justifica-se grafar em maiúsculo, ao se constituir na emissora de televisão no estado que mais produziu e exibiu conteúdos dedicados a contar a verdadeira história do Dois de Julho, data símbolo da Independência do Brasil na Bahia, cujo bicentenário aconteceu em 2023.

Tratava-se de restaurar a memória historicamente subestimada, quando não apagada, e de fortalecer o sentimento de pertencimento e orgulho entre as novas gerações, passar-lhes a convicção de que sem a luta da independência na Bahia não haveria Brasil livre da Metrópole portuguesa.

A TVE ofereceu a mais extensa programação sobre o bicentenário da Independência da Bahia, e do Brasil: filmes, documentários, séries, programas especiais, transmissões ao vivo, reportagens tudo voltado à valorização dos heróis e heroínas daquela luta, uma luta da qual participaram, sobretudo, pessoas escravizadas, ex-escravos, trabalhadores pobres, cujo sangue foi derramado em favor da libertação do Brasil, e isso nunca deve ser esquecido.

O mergulho na cultura aprofundou-se ainda mais em 2023, quando a Educadora FM lançou a primeira chamada pública da história da emissora para programas musicais. Espaço para produtores independentes, músicos, pesquisadores e DJ’s apresentarem projetos de samba, rap, blues, choro, música baiana, o que mais lhes viesse à cabeça.
Selecionados dez programas, exibidos em 2024, aos sábados e domingos, com iniciativas inovadoras e inclusivas: “Som Delas”, voltado exclusivamente às mulheres negras, pessoas trans, indígenas e LGBTQIAPN+; “Na Muvuca”, comandada por Nininha, voz LGBT da cena musical baiana. E tem mais “Alvorada do Samba”, “Educa Rap”, “Tambores da Liberdade”, “Rádio África”, “Educadora Blues”, “Outros baianos” e “Encontro com o Chorinho”. Entre 2023 e 2024, seguiu realizando o maior festival de música do Brasil.

A 22ª edição bateu recorde, com 814 inscrições, premiando artistas em categorias como melhor música, melhor intérprete e melhor arranjo, vitrine para novos talentos, fortalecimento de artistas independentes. O festival cuidou da memória: em 2023 homenageou Nelson Rufino, com 81 anos completados então, autor de sambas memoráveis – “A verdade dos seus olhos”, “Tempo Ê”, “Alerta mocidade”, “Aruandê”, “Doce acalanto”, “Mel pra minha dor”, “Todo menino é um rei”, “Eu e a dor”, entre tantos outros. Em 2024, reverenciou os Novos Baianos, de inegável influência na música popular e no rock brasileiros.

Ampliou e modernizou o Cineteatro Dois de Julho, uma sala para atividades culturais as mais variadas, cinema, teatro, shows, dando prioridade na programação à diversidade de linguagens artísticas, valorizando o protagonismo de artistas baianos e a promoção de atividades voltadas a públicos variados, a preços populares ou gratuitos.

Vai pra China, TVE!
Ela foi. Tornou-se protagonista de um marco histórico: única emissora a participar em 2023 do encontro internacional de televisões de países de língua portuguesa, realizado em Macau. O convite para estar presente foi exclusivo, dirigido apenas a tevê educativa da Bahia: estimulante reconhecimento do protagonismo e relevância da TVE no cenário da comunicação pública do Brasil.

Consolidou trajetória de integração e internacionalização. A reunião congregou emissoras públicas de Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e da própria televisão chinesa, de Macau, e isso deu chance à TVE de iniciar novas parcerias, a garantir a chegada dos conteúdos dela ao continente africano.

Tem sido destacada, vitoriosa a caminhada internacional da TVE. Venceu a 12ª edição dos Prêmios TAL (Televisión América Latina), na TVE homenageia/Cultural, cobertura do Carnaval 2024. A premiação teve a participação de 457 produções de 52 canais de doze países da América Latina. Os Prêmios TAL constituem o momento maior de reconhecimento da televisão pública, educativa e cultural do continente latino-americano.

Aproximar-se do povo, mergulhar no mundo cotidiano da população, envolver-se com o futebol, com as festas populares, sem deixar-se envolver pela superficialidade. Essa a caminhada do IRDEB nessa década. Nesse movimento de aproximação da cultura popular, não abandonar o respeito à verdade, não deixar de valorizar a cultura em sentido mais amplo, defender os direitos dos oprimidos, combater a violência contra a mulher, contra a população LGBT, ser intransigentemente antirracista, defender os direitos humanos com rigor.

Nunca se contentar apenas com ter audiência. Garantir o direito à comunicação, sem dúvida, mas uma comunicação de qualidade, a favor da democracia, sempre. Com respeito à diversidade, sempre. Uma comunicação que tem lado. Essa lição, a Bahia deu. Dá.

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros