Em Vale a pena sonhar, Apolonio de Carvalho conta de passagem uma parte da história da mulher que foi condenada a dez anos de trabalhos forçados e à deportação para a Alemanha, por levar consigo o último poema de Aragon, uma elegia a Gabriel Péri, combatente fuzilado pelas forças de ocupação: “Et, si c’était à refaire,/ je referais ce chemin.” [E se fosse para refazer,/ Eu faria de novo este caminho]. (p.147)
Ao final da leitura das memórias de Apolonio, conclui-se que esses versos são perfeitos para caracterizar a longa trajetória de solidariedade humana desse combatente internacionalista, nascido em 1912. O livro reconstitui com graça e poder de síntese a infância de brincadeiras com meninos brasileiros, paraguaios e bolivianos nas ruas de Corumbá; o crescimento como caçula de uma família que foi parar no Mato Grosso por conta do trabalho de seu pai, sergipano, oficial do Exército, cujo espírito libertário e incorruptível viria a levá-lo à incompatibilidade com certos superiores e à conseqüente imposição da reforma precoce. Além do exemplo do velho Candoca, Apolonio admirava o irmão mais velho, amante da liberdade, como todos em sua casa, inclusive a mãe, D. Sinhá – prima pobre de uma família tradicional de Bagé.
Muito amado pela floração de mães composta por suas várias irmãs mais velhas, preparado pelo pai para a liberdade, a tolerância e a indignação, Apolonio chegou à escola e arriscou seus primeiros versos, alguns dos quais reproduzidos no livro, com boa dose de auto-ironia. Mas não seria em versos que ele deixaria seu legado para a humanidade. O poema épico foi a construção de sua vida.
Em 1930, ele vai para a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. É reconhecido pelos colegas, professores e superiores, muitos dos quais marcariam a história militar e política brasileira. Sobretudo, lê muito: a influência principal é de José Ingenieros, a ensinar que a vida só tem sentido em função de um ideal. O ideal que logo Apolonio encontraria seria o socialismo.
O primeiro posto após a formatura é em Bagé. Sua eficiência e simpatia atraem os oficiais e também os comandados, que conquista com iniciativas como a de abrir o Cassino dos Soldados. Dada a ebulição política da época, e acreditando num Exército que portava as bandeiras de liberdade e justiça para o povo, não tarda a se envolver com a Aliança Nacional Libertadora. Após breve e ativa militância local, é preso e expulso do Exército, em 1936. A cadeia será a primeira grande escola brasileira de formação política de esquerda, segundo Apolonio, que sai de lá militante comunista, em 1937, pouco antes do golpe getulista.
Convocado a lutar na Espanha, ao lado das Brigadas Internacionais, defende a República contra as tropas de Franco. Derrotado, segue para a França, onde se engaja na resistência vitoriosa contra a ocupação nazista. Os capítulos que tratam de sua experiência de combate na Europa são os melhores. Dificilmente um leitor sensível deixará de compartilhar com Apolonio as lágrimas que confessa ter derramado em várias oportunidades.
De volta ao Brasil, passado o breve momento de democratização no pós-guerra, a vida do nosso herói entra numa fase de clandestinidade, ao lado dos filhos e da esposa francesa, a eterna cúmplice e companheira, Renée. Apolonio fala pouco desse tempo, inclusive do período passado na URSS. Talvez aquela época tenha sido sombria demais para seu espírito de poeta. Mas surpreende que ele se detenha pouco sobre os chamados anos dourados, entre o fim da década de 50 e o pré-64, período de extraordinária influência dos comunistas. Sobre o golpe militar e suas conseqüências – que o levariam a romper com o Partidão e ajudar a fundar o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) – ele faz várias considerações autocríticas, que atingem também as lutas guerrilheiras. Depois, narra rapidamente o exílio e o retorno ao Brasil, onde se envolveu na criação do Partido dos Trabalhadores, com o qual colabora até hoje.
Como bem observou Silvana Goulart, no pósfácio, o livro muda de tom a partir da metade, quando Apolonio retorna ao Brasil e se torna dirigente político: vai perdendo vigor a figura do memorialista e avultando a do homem público que faz um balanço autocrítico de sua atuação pessoal e da esquerda em seu conjunto. Essa segunda parte tem interesse para os que pretendemos conhecer a história e os dilemas das esquerdas brasileiras. Apolonio ensina um pouco da arte de fazer política, que ele já definira no início do livro – numa fórmula sintética e significativa – como mescla de luta e compromisso. (p.26) Mas o leitor, conquistado na primeira metade do livro pelos episódios cativantes vividos por Apolonio e seus companheiros, sente falta da presença mais ativa do memorialista.
Vale a pena sonhar é uma lição de vida e esperança, nesta época de hegemonia neoliberal, em que calhamaços de memórias de colaboradores da ditadura civil-militar têm obtido sucesso de vendas e até premiações de entidades literárias esclerosadas. O livro resgata e valoriza as lutas de inúmeros militantes de esquerda, menos ou mais conhecidos, muitos dos quais explicitamente citados e homenageados, que dedicaram suas vidas ao combate às desigualdades, às injustiças e à exploração capitalista.
Nosso Apolonio é carvalho de raízes fincadas no coração da humanidade, resistente às intempéries e aos ventos que apagam as luzes de muitos sonhos, mas também espalham suas sementes no tempo e no espaço, para outras floradas.
Marcelo Ridenti é sociólogo, autor de O fantasma da revolução brasileira (Ed. Unesp)