Política

Em nosso país, o racismo não depende de episódios para se manifestar, mas abre-se uma janela que efetivamente coloca no centro do debate nacional a questão da desigualdade de raça e de gênero

Diferentemente de 2013, as manifestações agora nascem sob um novo significado. Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas

Junho de 2020, diferentemente do junho de 2013, momento em que, em minha opinião, foi gestado o ovo da serpente da atual conjuntura, as manifestações do novo período nascem sob um novo significado: a luta contra o desmantelamento do Estado brasileiro; o descaso do presidente com a saúde da população; e os episódios de racismo recentes nos Estados Unidos e que se espraiam para cá.

Outro elemento de extrema significação é a presença maciça de jovens negras e negros das periferias nessas novas manifestações, fato novo na dinâmica brasileira que sempre teve as classes médias puxando os cordões das mobilizações.

A insatisfação crescente com o viés bonapartista do governo e a forma miliciana protofascista de agir de seus apoiadores ao pregar a “intervenção militar”, o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal despertaram setores do centro e até da direita dos riscos da manutenção da ordem democrática.

As forças progressistas encamparam a bandeira do impeachment de Bolsonaro ao perceberem que a sua permanência no cargo cavalgando diversos crimes de responsabilidade era um risco para a democracia. Surgiu nesse processo uma série de iniciativas para a formação de frentes. E aí começa o dilema. Frente democrática ou frente de esquerda?

Em recente artigo na Folha de S. Paulo, Fernando Haddad, a meu ver, resolveu a equação. Ao propugnar a constituição de duas frentes: uma mais ampla em defesa do Estado democrático de direito e uma mais à esquerda que tenha em seu escopo a defesa intransigente do Sistema Único de Saúde (SUS), a proteção ao mais pobres, os direitos civis e dos trabalhadores. Subscrever os diversos manifestos é um acerto. Demonstra maturidade das esquerdas e o necessário rompimento da bolha que querem nos colocar.

Idas e vindas do capitão

É posto que, Jair Bolsonaro desde o início de seu governo demarcou uma clara fronteira entre ele (e os seus) e o restante da população brasileira. A começar quando disse que iria colocar a esquerda brasileira na prancha (o que na linguagem dos piratas quer dizer matar os inimigos), coisa que nem a ditadura militar instalada em 1964 conseguiu.

Ao tentar impor a ferro e fogo suas pautas regressivas, desconsiderando a separação constitucional dos poderes que impõe a linearidade entre Executivo, Legislativo e Judiciário, Bolsonaro virou o nome da crise. Assim, cavalgando com a popularidade inicial e a tolerância da população com os mandatários em início de gestão, abusa da sorte.

O linguajar do mandatário, sempre remetendo para situações de estresse, alimentando sua base radicalizada, cria nos demais setores da sociedade brasileira repulsa à sua forma de governar. Bolsonaro nesse curto período de governo já cometeu crimes de responsabilidades em série. A ausência de bom senso fez com que o STF agisse juntamente com o Congresso para frear iniciativas tresloucadas.

As ameaças veladas de intervenção militar longe de amedrontar o conjunto da sociedade serviram para expor os militares perante grande parte da comunidade internacional e local, demonstrando a face fascistoide do governo. Penso que dificilmente a caserna alimentará uma aventura como essa, dado que passados 56 anos do golpe civil-militar as Forças Armadas ainda não se recuperaram do vexame histórico.

Bolsonaro é produto de inúmeras iniciativas que visaram interditar o Partido dos Trabalhadores e suas lideranças. Encontram-se como ação encadeada: a criminalização da política com viés parcial implementada desde os anos 2014, pela chamada Operação Lava-Jato; o não reconhecimento por parte do PSDB e seus aliados da vitória de Dilma Rousseff; secundando-se o bloqueio e a disseminação das pautas bombas no Congresso Nacional, culminando com o impedimento da presidenta por um golpe palaciano-parlamentar em 2016.

A condenação e a consequente prisão do ex-presidente Lula em um processo sem provas, decisão confirmada pelo TRF-4, que primou pela celeridade de um supersônico em uma justiça conhecida e reconhecida pela morosidade, resultou na sua interdição eleitoral.

Eleito em 2018, depois de uma das campanhas mais sujas da história brasileira, na onda de fake news, via digital, paga de forma ilegal criou um ambiente farsesco contra seu oponente, o candidato petista Fernando Haddad. O capitão venceu uma eleição cujo símbolo alegórico é mamadeira de piroca, produzida pela campanha vitoriosa.

Inaugurado o governo com o ministro da economia Paulo Guedes foi aprofundado o desmonte dos direitos trabalhistas iniciado na gestão Temer. Ampliou-se o descarte das políticas sociais consignadas na Constituição de 1988 e a implementação de “reformas” cuja espinha dorsal é o contínuo arrocho aos mais pobres.

Nesse ínterim, surge a covid-19.

Guiado pela lógica de um modelo “terraplanista”, Bolsonaro começou tratando a pandemia de coronavírus como uma “gripezinha”. Ironizando todas as orientações da ciência e principalmente as emanadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Agindo assim o governo viu cair no seu colo o contágio e o morticínio dos brasileiros. No primeiro momento, dizendo-se preocupado com a economia tentou colocar a população contra governadores e prefeitos, no que foi devidamente rechaçado  pelo STF que garantiu a autonomia dos entes estaduais e municipais.

Seguindo com a forma errática de administrar, já está no terceiro ministro da saúde sendo último um general paraquedista.

Tudo isso, vem alargando a curva da impopularidade do presidente e começa a movimentar as ruas.

A morte de George Floyd nos Estados Unidos foi o estopim que alastrou a insatisfação com a persistência do racismo e o estilo Trump de governar. Em nosso país, o racismo não depende de episódios para se manifestar. Ele faz parte do cotidiano. A violência do Estado contra os pobres, os  mestiços e os pretos, em particular, é uma constante. Tudo isso abre uma janela de oportunidades para que efetivamente se coloque no centro do debate nacional a questão da desigualdade de raça e de gênero.

Defender e ampliar a luta antirracista no Brasil tem que ser um dos objetivos estratégicos das forças democráticas e progressistas. Não uma mera retórica.

Alberto Cantalice é membro do Diretório Nacional do PT e diretor responsável pela área de Comunicação da Fundação Perseu Abramo