Internacional

Donald Trump tem, infelizmente, mudado o mundo como ninguém. Ele tem como meta, ainda que por caminhos aparentemente tortuosos e sem compromissos com o dito e não dito por ele próprio, um mundo sem regras, sem nenhuma limitação ao capital, onde prevaleça a “lei” dos mais poderosos. Tal mundo se chama barbárie.

Por que vocês não sabem do lixo ocidental?

Não precisam mais temer

Não precisam da solidão

Todo dia é dia de viver

Eu sou da América do Sul

Milton Nascimento

Os Estados Unidos impuseram as regras internacionais desde o final da Segunda Guerra, da qual emergiram como a maior potência econômica-cultural-militar mundial, ainda que em um contexto internacional que logo se configurou como dividido, por meio da Guerra Fria, entre dois blocos: o capitalista e o socialista. A crise do chamado Socialismo Real no final dos anos 1980, desfez a bipolaridade, tornando os Estados Unidos a única potência mundial. O chamado Socialismo Real pouco era, na real, socialismo. Nele a economia e a política estavam estatizadas e não propriamente socializadas. Com a crise, a supremacia norte-americana se tornou planetária e o mundo foi imposto como unipolar.

Deste então, os Estados Unidos esculpiram o mundo a seu bel-prazer pela força, pressão e/ou hegemonia. O planeta se fez neoliberal e impôs a globalização da abertura de mercados. Sob a dominação unipolar dos Estados Unidos, guerras, pressões, intervenções e negociações impuseram e criaram regras na economia, na política e em outras áreas. O mundo neoliberal norte-americano, aos solavancos, viveu avanços e crises. Ele tentou decretar o fim da história, mas ela, rebelde, ainda que em frangalhos, sobreviveu. O mundo unipolar viu nascer novas potências como a China, viu se reerguer potências militares como a Rússia, viu emergir blocos potentes como os BRICS e começou a ver fissuras no poderio unipolar dos Estados Unidos. Tais mudanças demandam períodos largos, algo relativo à duração centenária da decadência dos grandes impérios. O tema de como os Estados Unidos iriam reagir ao novo contexto que se desenhava passou a ser vital para entender os destinos do planeta. A ascensão de Donald Trump acontece neste panorama.

Os Estados Unidos de Donald Trump na atualidade buscam destruir sua criação, pois ela, de diversos modos, virou disfuncional e carregada de contradições, próprias da história humana, que subsiste, apesar de todos os decretos de seu término. Novos conflitos, tensões, países e blocos surgiram. Alguns definharam, outros se desenvolveram. O mundo com regras, apesar de tecidas sob forte influência norte-americana, começou a possibilitar experimentos, que fugiam ao seu estrito e estreito controle. Tais irrupções, inicialmente breves e modestas, cada vez mais se fizeram relevantes, até ficarem inaceitáveis ao domínio norte-americano, que sobressaltado, viu neles a face de sua própria decadência, enquanto império, que já não detinha todos os lances do jogo, embalados por suas regras. Elas, inventadas sob ótica norte-americana, já não serviam a sua supremacia mundial.

Em 2025, Donald Trump 2.0 iniciou a devastação do antigo mundo de regras, criação da supremacia unipolar norte-americano, sempre é bom repetir. Sem pudor e respeito com sua própria criatura, ele detonou as regras econômicas internacionais e seus organismos guardiões, a exemplo da Organização Mundial do Comércio (OMC), que por anos e anos impôs a abertura de mercados, o livre comércio, como ideal de desenvolvimento, a ser obrigatório para todos os países do planeta. Insistentemente o imaginário internacional foi moldado por tal visão, fabricada em hegemônica. O mantra foi repetido a todo instante e em todos os cantos do mundo. A mídia corporativa internacional e muitos organismos planetários impuseram tal visão neoliberal como pensamento único. Em 2025, sem qualquer escrúpulo, Donald Trump afrontou o neoliberalismo com regras, impondo agora uma espécie de neoliberalismo sem regras, subjugado unilateralmente ao governo dos Estados Unidos, no qual as empresas poderosas podem tudo, em especial as norte-americanas. Exemplo máximo: as big techs que agem pelo mundo sem regras. Quaisquer tentativas de regulamentação de suas atividades mundiais são tomadas, consideradas e publicizadas como agressão à liberdade de empresa e de expressão, que afinal para elas e para o governo imperial é a mesma coisa. O terremoto foi mundial. Os danos foram gerais. A OMC se quedou sem lastro, como um sonâmbulo. A atitude de muitos países, em especial do Ocidente, que tanto defendiam o livre comércio, foi não só acanhada, mas acovardada, quando não de total subserviência. O livre comércio se transformou em uma palavra de alma fantasmagórica. A guinada do mundo foi gigantesca em direção ao planeta sem regras acordadas. Em lugar delas, apenas as “regras” da “lei” do mais forte. O novo velho mundo nasceu em 2025.

Mal se iniciou 2026, sem sequer existir tempo para festejar o novo ano, como acontece tradicionalmente no Ocidente, Donald Trump, imerso na fragilização crescente das regras internacionais, outra vez apostou alto. A subserviência anterior de países funcionou como estímulo, como cheque em branco para maiores investidas. Tratava-se agora de escancaradamente impor, sem limitações quaisquer, os interesses norte-americanos, ainda que para isso fosse necessário destruir a ordem internacional em sua dimensão política, a exemplo do princípio básico do respeito à soberania nacional, e, em consequência, sepultasse regras e organizações internacionais, como a já debilitada ONU, incapaz de enfrentar e resolver os conflitos internacionais, que dilaceram o século 21, como o genocídio em Gaza e as guerras da Ucrânia e do Sudão, para lembrar apenas algumas. Assim, a destruição da ordem política internacional, que os Estados Unidos já vinham realizando desde as suas várias intervenções bélicas que atropelaram a ONU, a exemplo do Iraque, completaria a nova modelagem do mundo sem regras.

A invasão do território nacional da Venezuela e o sequestro de seu presidente agrediu as mais fundamentais normas internacionais pactuadas na ONU, dilacerando o princípio do respeito à soberania nacional. Independente da avaliação que se possa fazer do governo Maduro, trata-se da desqualificação de norma internacional fundamental, em tese aceita por todos os países. Novamente a pífia reação de diversas potências regionais, em especial ocidentais, abre espaço para que o mundo político conformado por regras, ainda que provenientes da supremacia norte-americana, desapareça e em seu lugar irrompa um preocupante espaço político internacional sem regras, no qual a “lei” do mais forte seja a (falta de) regra universal. O desrespeito imperial às normas políticas do ano novo de 2026 abre um perigoso precedente para novas intervenções, sob as alegações mais aleatórias, como aquelas arremessadas contra a Venezuela e seu presidente. Nenhum país está seguro frente ao poderio militar planetário do Estados Unidos e sua insaciável indústria bélica-armamentista. O desmoronamento da ordem política internacional se acelerou, depois das constantes humilhações da ONU e de outros organismos supranacionais, que deveriam colaborar na governança global, mas que se mostram cada vez mais incapazes disso.

A recente saída dos Estados Unidos de 66 organizações multilaterais, celebrada no dia 08 de janeiro, confirma o projeto de destruição da ordem internacional e da instalação da desordem. Isto é, do mundo sem regras, a não aquelas do mercado e da potência imperial. Em todos os organismos, o império afirmou que seus interesses não eram mais respeitados e realizados. Pelo contrário, conforme visão reiterada, eles haviam sido invadidos por interesses contrários e distantes dos norte-americanos. Sem eles os cuidados com o planeta e as políticas públicas de cooperação entre as nações podem entrar em colapso, talvez o propósito intencional dos Estados Unidos para sedimentar o desmantelamento do mundo com regras e reforçar sua dominação, em declínio. Para eles, por certo, nenhuma governança global tem o menor sentido a não ser aquela norte-americana, baseada em seu poderio militar, e no predomínio do capital.

A destruição das regras econômicas internacionais e a dilaceração das normas políticas de convivência entre as nações abre precedentes perigosos e coloca em xeque a própria civilidade e diplomacia no trato das questões pertinentes a agenda pública planetária. Também em tal esfera as atitudes de Donald Trump corrompem a etiqueta diplomática internacional. Em seu lugar, ameaças expostas a torto e a direito, violências verbais, afirmações grosseiras, mentiras deslavadas, falas sem fundamento e justificativas banais tomam conta, de modo escandaloso, das relações internacionais dos Estados Unidos e tendem a se espraiar pelo planeta. A arrogância do império se mostra escancarada, sem nenhum subterfúgio. A transformação da diplomacia em um mero balcão de negociações, realizadas sob ameaças e porretes, típicas de um mandatário, que a cada instante reduz o papel de estadista ao de negociante, caracteriza a atuação internacional do gestor e dos Estados Unidos. A brutalidade sequer preserva a delicadeza, por vezes irritante, da diplomacia. Agora, ela se torna a linguagem do império e sua prepotência.

Celi Pinto, em texto recente, anotou que nem sequer o uso, mesmo instrumental, da democracia como justificativa passa a ter sentido. A democracia e os direitos humanos que inúmeras vezes foram manipulados para justificar o injustificável, como o apoio do império aos inúmeros golpes contra a democracia pelo planeta e o evidente desrespeito dos direitos humanos, por meio de apoio a ditaduras sanguinárias, como a de Pinochet, tudo isso parece coisa do passado. Agora a dominação sem regras faz sem rodeios de belas palavras, mas de maneira direta, explícita e violenta, no patamar simbólico ou físico. O império abriu mão da democracia e dos direitos humanos, sua atitude autoritária emerge como cada vez mais evidente. Ele se soma e estimula os autoritarismos e neofascismos no planeta. A narrativa não precisa de máscaras. Ela é brutal, violenta e escancarada. Democracia e direitos humanos são desejos, mesmo manipulados, do passado. O mundo sem regras, a rigor, detesta a democracia e os direitos humanos.

Tal estilo não deve, nem pode ser subestimado. Tratar Donald Trump como bufão, um tresloucado, não tem sentido. Ele representa forças poderosas da sociedade capitalista norte-americana e internacional cada vez mais distantes de quaisquer pretensões de civilidade, de democracia, de direitos humanos e mais próximas da versão mais selvagem e autoritária do capitalismo. A equivocada desqualificação não faz jus a capacidade de Donald Trump de liderar; de convencer parcelas representativas da população norte-americana e mundial; de invadir toda hora as telas e a agenda publicizada internacional, subjugando-a com repetitivos arroubos de espetacularidade; de amedrontar populações por ameaças e chantagens em todo o planeta; de submeter os dirigentes de países subservientes; de se impor pela violência e pela força do poderio militar, que dirige. Donald Trump tem, infelizmente, mudado o mundo como ninguém. Ele tem como meta, ainda que por caminhos aparentemente tortuosos e sem compromissos com o dito e não dito por ele próprio, um mundo sem regras, sem nenhuma limitação ao capital, onde prevaleça a “lei” dos mais poderosos. Tal mundo se chama barbárie.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)