O escritor volta e meia é obrigado a parar para pensar. No meio de um esforço de revelação do protagonista, se vê na encruzilhada. Perguntando-se por onde caminhar e como caminhar. Qual o caminho, e escolhido, se avança de modo veloz ou mais lentamente.
Na parada, me assalta o pensamento do querido Joviniano de Carvalho Neto, ao prefaciar livro meu. Todo autor, ao escrever sobre quem quer que seja, fala também de sua própria história, querendo ou não, pela força do inconsciente. Quem escreve, desnuda-se na interlocução com o protagonista, estabelecendo encontros, mediações, imperceptíveis. Mistérios à frente do escritor.
Nessa série tenho procurado revelar a trajetória de Theodomiro Romeiro dos Santos. Não sou autor distante do protagonista: as pessoas sabem disso. Ser próximo não me desobriga de nada, no entanto.
Vou, a partir daqui, tentar refletir, não solitariamente, sobre a militância dele na volta ao Brasil, dois momentos de atuação política – um mais curto, outro mais longo, a perdurar até o fim da vida.
Pós-prisão
Falo de mim, do ser político, para depois reencontrar-me com Theodomiro. Saí da prisão em setembro de 1974. Tinha de me readequar ao mundo depois de quatro anos comendo o pão que o diabo amassou. Certeza: minhas convicções democráticas, socialistas, minha visão comunista de mundo, seguiam firmes.
De um lado, tinha de encontrar meios de ganhar a vida, sustentar-me e à pequena família – minha mulher, então, Mércia, e meu filho, Teo, nascido poucos meses depois de minha saída da cadeia – em março de 1975. No jornalismo, encontrei duas coisas: o sustento e uma profissão da qual jamais me apartei.
De outro, queria seguir militando, e segui – e não discutirei minha trajetória nesse espaço. Registro minha posição, então, de não voltar a atuar em organização clandestina. Houve tentativas de companheiros, sempre muito carinhosas, nenhuma qualquer pressão indevida, especialmente por parte da Ação Popular, organização à qual pertencia. Queriam meu retorno, depositavam esperanças em minha capacidade dirigente, a indicar provavelmente superestimação de minhas possibilidades.
Minha estrada militante de esquerda seria outra, não obstante guardasse enorme respeito pelas organizações revolucionárias, e com elas convivesse de modo tranquilo. As razões dessa escolha, muitas. Uma delas, o próprio fato de viver ainda sob liberdade condicional. Não vou, no entanto, discuti-las aqui.
Depois de passar pelo MDB/PMDB, atuar durante muitos anos na ampla frente de luta contra a ditadura, ingressei no PT em 1997, onde estou até os dias atuais. Os caminhos da militância revolucionária são variados. Paro aqui a fala sobre mim. Desenvolvi um pouco porque o assunto no qual vou mergulhar revela pontos de intersecção entre minha trajetória e a de Theodomiro, como fui descobrir no decorrer de meus esforços para saber como havia acontecido o envolvimento dele com a militância no pós-exílio.
Um diálogo
A descoberta nasce de entrevistas com Renato Afonso de Carvalho, com o conhecimento já acumulado por mim sobre Theodomiro e, também, decorrente de conversas com Virgínia, a última pessoa com quem ele foi casado, e isso por muitos anos. Vamos tentar percorrer essa estrada, com o cuidado de não pisar em espinhos, a não ser quando inevitável, e certamente pisaremos.
Vou estabelecer um encontro, quem sabe um diálogo. À revelia dos dois. Entre Theodomiro e Renato Afonso de Carvalho. Os leitores, leitoras dessa série já conhecem Renato Afonso. Recupero o fato dele ter sido meu companheiro de prisão, e de Theo. E ter estado, por muito tempo, no topo da direção do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Ele e Theo, portanto, camaradas da mesma organização revolucionária.
Filho de Yaiá – Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho. E do promotor Orlando Afonso de Carvalho. Mãe corajosa, destemida, incapaz de levantar a voz, e disposta a quaisquer riscos em defesa das crias e de todos nós, adversários da ditadura. Nos visitava na cadeia de modo regular, solidária, sempre.
De um carinho imenso com os prisioneiros políticos, uma afeição especial por Theo, também por mim, me comovo ao dizer isso. Sentimentos de mãe a levaram, iluminações só possíveis em corações maternos, a suspender um dia a tortura do filho no Quartel dos Dendezeiros, num gesto ousado, lá pelos idos de 1971, Renato Afonso então com 21, 22 anos. Yaiá, pessoa especial, inesquecível.
Militante no exílio
Em Paris, onde chegou no final do ano de 1979, depois de fuga espetacular do presídio e abrigado a custo na Nunciatura Apostólica do Vaticano em Brasília, Theo mantinha relação com o PCBR, nem sempre regulares por conta da situação política, da distância, dificuldades de contatos sistemáticos. Continuava, no entanto, um militante disciplinado.
E ousado, às vezes. Foi ele a estabelecer contatos com os Tupamaros, e aceitar a incumbência de o PCBR, no Brasil, acolher revolucionários uruguaios, então exilados em Paris. O BR, então, ao abrigá-los, permitiria a criação de condições para a volta deles ao Uruguai de modo a reconstruir o partido.
O BR não vivia uma situação satisfatória para o cumprimento da tarefa, mas, diante do compromisso assumido por Theo, e face ao princípio da solidariedade internacionalista, enfrentou o desafio. Isso aconteceu no início dos anos 1980, e disso já falamos ao longo da série. A tarefa foi cumprida com êxito, disso o BR pôde se orgulhar, e Renato Afonso esteve na linha de frente de tal operação.
Retrocedo. O leitor deve querer saber um pouco mais sobre Renato Afonso, e o escritor tem o dever de atender a reivindicação. Pode ser que já tenha falado dele, mas o que abunda não vicia.
Prisão e tortura
Dirigente do PCBR, é preso no início de 1971, um ano depois da morte de Mário Alves, baiano, antes um dos principais dirigentes do PCB, e depois principal quadro político do BR.
Renato Afonso, quando torturado implacavelmente pelos sicários da ditadura no Quartel da Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, lembrou-se do velho Mário Alves, da resistência dele: morre empalado sem dizer uma única palavra aos carrascos, ali mesmo, naquela unidade, local de terror e morte, no início de 1970.
Conseguiu enfrentar a tortura com coragem e dignidade, e só não foi morto porque o pai, Orlando Afonso de Carvalho, conseguiu falar com dom Eugênio Salles. O arcebispo foi à Barão de Mesquita, falou com o general, as torturas pararam, a vida dele, preservada.
Há um texto relativamente longo, escrito por mim, facilmente localizável, publicado no site da revista Carta Capital, sob o título “Corpo amputado querendo se recompor”, do dia 8 de abril de 2013, onde se detalha a trajetória de Renato Afonso e a ofensiva da repressão sobre o PCBR entre 1970 e 1971. Quem sabe, ainda volto àquela conjuntura, mas não agora para não perder o fio da meada.
Balanço da vida
A questão a ser discutida é como, depois da chegada ao Brasil, Theodomiro, contrariando expectativas do PCBR, volta-se ao enfrentamento dos desafios pessoais, os de formação e os do sustento da família. Nascido em 29 de dezembro de 1951, aos 34 anos de idade, faz um balanço da vida.
Desde a adolescência, militante. Preso em outubro de 1970, só volta a uma existência absolutamente legal no Brasil naquele ano de 1985. A ditadura retirou-lhe a possibilidade de uma profissão, e dos 18 anos em diante experimentou turbulências raramente enfrentada por algum ser humano, já contadas por essa série.
Vai estudar. Forma-se em Direito, aluno sempre brilhante. Torna-se juiz do Trabalho e dirigente da entidade representativa da categoria. Cidadão militante, mas não mais vinculado a uma organização revolucionária, quase semiclandestina. Isso provocou um estremecimento entre ele e o PCBR. Elucidar isso, ou tentar, é o desafio do autor.
Penso em Theodomiro chegando ao Brasil. Primavera, setembro de 1985. Ditadura havia sido derrotada, com a eleição indireta de Tancredo Neves. Surpresas da vida: o presidente eleito morre, e o cargo é assumido por José Sarney, cuja trajetória anterior fora marcada por apoio à ditadura. A conjuntura da Nova República era muito diferente dos 21 anos anteriores, e implicava alianças amplas, necessárias e problemáticas: a política não tem linha reta, e sempre exige alianças.
Que país é este?
Refletia sobre os últimos quinze anos. Agora, o retorno. Que país era aquele? Não era tão simples decifrá-lo. Ainda pensava com os códigos antigos, logo ao chegar. Não atinava com a nova realidade política, sobretudo com a ideia de frente ampla. No partido, aprendera antigas lições, e não eram vinculadas àquela ideia. Teria muita estrada pela frente até raciocinar com nitidez face àquele novo quadro.
Eu me lembro, estava no Aeroporto Dois de Julho, em Salvador quando da chegada dele, no dia 5 de setembro de 1985, para abraçá-lo. Hoje, tento recuperar o ambiente, aquele reboliço, tanta gente entusiasmada ao revê-lo. Procuro na retina as expressões dele, e pode ser impressão equivocada pois quatro décadas se passaram, e a mim ele parecia um pouco assustado, um tanto absorto, como estivesse chegando num país estranho, e talvez fosse de fato.
Talvez ele só viesse a reencontrar o Brasil um pouco depois. À fala dele, na chegada, sempre um discurso bem articulado, faltava emoção, talvez fruto daquele estranhamento ao desembarcar num país a ser redescoberto. Ousadia minha avaliar aquele momento, tanto tempo passado. Necessária, no entanto, penso, mesmo para ser contraditado.
Evitar o simplismo
No mundo, nada é simples. Edgar Morin, com incríveis 104 anos, surpreendente vitalidade, a encontrar paixão na vida, inacreditável curiosidade sobre o mundo, mostra-se avesso ao pensamento simplista, defende a complexidade do pensamento, cujo retrocesso é evidente.
Encontrei-o num texto do Instituto Humanitas Unisinos, Adital, 14/1/2026: “Edgar Morin (104 anos), filósofo, sobre a felicidade: “A velhice é um terreno fértil para a criação e a rebeldia”. Tentado até a citá-lo:
“A barbárie do pensamento reside na simplificação, na disjunção, na separação, na racionalização... em detrimento da complexidade, das conexões inseparáveis e, inclusive, dos sonhos e a poesia”.
Pensei nele por pensar em Theo, cuja vida foi bem mais curta, nem por isso menos intensa e rica. E pensei em Morin porque estou a tentar deslindar as duas fases da militância de Theo, certo seja impossível fazê-lo pelos caminhos da simplificação ou de estereótipos.
Terei de caminhar pela aridez e beleza da complexidade do ser humano. Há muito mais mistério entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia: Shakespeare tem razão. As coisas estão no mundo e decifrá-las exige pensamento complexo porque o mundo é complexidade.
Comecei a conversar com Renato Afonso sobre isso. Sobre a volta de Theo e o conflito com o PCBR. Dirigente do partido, rigoroso militante de esquerda até hoje, aplicado professor de história, ex-grande jogador de futebol e, soube agora, bom pugilista, até imaginei uma reflexão ortodoxa, mas, pelo menos de saída, ele recusou uma abordagem com tal característica.
Recusa do estalinismo
Chegou na linha do pensamento complexo, mais Morin do que Stálin. Me surpreendeu – responsabilidade minha de julgá-lo equivocadamente. Não será nesse capítulo o encerramento do problema posto por mim, das duas fases da militância de Theodomiro. Vamos ver se consigo expor o pensamento introdutório de Renato Afonso, ou o que eu chamaria nota metodológica dele.
Nós, marxistas, dirá, temos “uma tradição nefasta da formação política, da forma estalinista”. Na verdade, concluirá, é uma carga teórica antimarxista, ao menos em alguns aspectos. De tal formação, dessa interpretação subpositivista realizada por Stálin, você corre o risco de ser levado a táticas e estratégias profundamente equivocadas, e aqui estamos nos referindo a luta revolucionária em sentido amplo.
Ao responder à questão de Theodomiro não ter, no retorno ao Brasil, se incorporado de modo imediato e resoluto ao PCBR, ele pensou e me disse:
_ Eu poderia preparar um texto que fosse exclusivamente de ordem política, discutir as razões que teriam levado Theodomiro a se afastar do PCBR depois do retorno dele, examinar as contradições surgidas nesse processo.
Mas, e ele parece ter lido Morin também, não seria suficiente, não seria uma resposta completa. A situação requer mais cuidado, um raciocínio muito mais complexo. A tradição estalinista, ele dirá, nos empurraria para a simplificação, e se o fizéssemos, enfatiza, não teríamos uma resposta satisfatória, completa, capaz de dar conta da situação.
Nesse diálogo, ele está querendo caminhar, e não sei se conseguirá, pelo terreno subjetivo ou, ao menos, não subestimar a subjetividade. Ter um tratamento mais cuidadoso com o indivíduo, com o lado pessoal de Theodomiro.
Ao ingressar nesse território, o da subjetividade, onde a complexidade se impõe, Renato Afonso deixará escapar observações sobre mágoas, justificáveis ou não, e esse diálogo vai implicar, para o autor, a responsabilidade de compreendê-las, olhando um lado e outro, o olhar de Renato Afonso e o de Theodomiro, diferentes nessa fase da vida, após o exílio.
Não só mágoas, mas Renato Afonso revelará provavelmente interpretações diferentes da realidade, inclusive olhares diversos sobre a militância política, cuja diversidade nem sempre é assimilada pelo pensamento de esquerda.
Esse diálogo entre os dois é imaginário. Fundado no conhecimento da história de Theodomiro e de Renato Afonso, e de Renato, conto com substancial depoimento. Theo não está mais entre nós para poder concordar ou contraditar. O autor terá de arriscar. Do leitor, cobra-se alguma paciência: daremos sequência no próximo capítulo.