O agente secreto é um filme a marcar história. Marcou e vai marcar ainda mais. Estamos a viver um momento de ouro do cinema nacional, glorioso. Depois de Ainda estou aqui, agora este. Kleber Mendonça vai se tornando um dos maiores diretores do cinema brasileiro. Antes, recebera Prêmio do Júri, também no Globo de Ouro, por Bacurau. Agora, de melhor diretor, pelo filme a consagrar ele próprio e a Wagner Moura.
Pelo Critics Choice, ganhou prêmio de melhor filme internacional pelo mesmo O agente secreto, e foi também consagrado como melhor diretor no Festival de Cannes de 2025 pelo filme, onde Wagner Moura alcançou a condição de melhor ator, como aconteceu também no Globo de Ouro. Há mais, e estou apenas lembrando algumas premiações.
Não custa lembrar, porque não é pouca coisa, decisão de Kleber Mendonça, a revelar audácia e comprometimento político: em maio de 2021, filia-se ao PT. Tem lado.
Em 2012, surge O Som ao Redor, o mais aclamado do ano, envolvendo uma trama de uma rua de classe média, onde os moradores contratam uma empresa de segurança privada, em Recife. Evidencia as tensões sociais, a violência e as relações de poder no Brasil, a partir daquela rua. Chegou a ser considerado por um crítico do The New York Times, A. O. Scott, como um dos dez melhores filmes do mundo naquele ano. Dezenas de prêmios.
Aquarius, de 2016, aborda a especulação imobiliária, sempre em Recife, orla de Boa Viagem, envolvendo, também, a memória, envelhecimento e resistência. Registro: resistência é uma das marcas essenciais da obra cinematográfica de Kleber Mendonça. Durante a estreia em Cannes, a equipe do filme protagonizou um protesto no tapete vermelho contra o impeachment de Dilma Rousseff. Esse diretor tem lado, não figura entre os indiferentes, sempre tem posição.
Aquarius recebeu o Sydney Film Prize no Festival de Cinema de Sidney, e Sônia Braga, protagonista, recebeu inúmeros prêmios, incluindo de melhor atriz nos festivais de Lima e Mar del Plata. A revista francesa Cahiers du Cinéma o distinguiu como um dos dez melhores filmes de 2016.
Bacurau, de 2019, a celebrar resistência, sempre ela, ganha o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique, entre tantos outros prêmios em festivais. Não pretendendo falar de toda a produção dele, chegamos ao premiadíssimo O Agente Secreto, cuja trajetória de sucesso de público e prêmios está em andamento. A mim, toca profundamente. Um filme de memória e resistência. De memória e esquecimento.
A cena inicial impacta qualquer um. Tensão logo na abertura. Presença policial, um corpo abandonado no posto de gasolina, sem que se tome qualquer providência. Poderosa metáfora, a denunciar a época, quando a ditadura ainda estava a pleno vapor, rotineiramente habituada desde 1964 a torturar, matar e desaparecer com pessoas. E a sociedade brasileira quase inerte, a deixar as coisas acontecerem até um dia acordar. Ninguém quer saber daquele corpo.
A década de 1970 marcaria, a partir de meados, o início de uma virada, não obstante lenta, com a participação decisiva da Igreja Católica e de parte de igrejas protestantes, principalmente presbiteriana e batista. Não custa lembrar, não obstante: em 1975 a ditadura mata Vladimir Herzog. Em janeiro de 1976, assassina Manoel Fiel Filho. Os dois, vinculados ao PCB. Em dezembro do mesmo ano, há o Massacre da Lapa, onde são mortos três dirigentes do PCdoB, em São Paulo: João Batista Drummond, Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Comunistas na linha de tiro.
O ano de 1977, em que se dá o transcorrer do filme, era um tempo em que pernas cabeludas estavam trocando pontapés, murros, uma luta de vida ou morte. Ditadura vivia um momento tenso, no interior dela. Disputa de poder entre uma chamada linha dura, comandada por Sílvio Frota, ministro do Exército desde a morte do general Vicente de Paulo Dale Coutinho, e a própria corrente do Geisel.
O presidente ganhou a parada: demitiu Frota em outubro daquele ano, muito embora, como se sabe, como o próprio general confessara, não tivesse disposição de abrandar a ditadura, “era preciso continuar a matar”, como dissera antes. Uma perna cabeluda fora jogada ao mar. Frota retirou-se da vida pública, arquivou a ideia de ser presidente da República, alimentada até ali. Tivesse tido sucesso, e a situação política poderia ter sido ainda pior, por incrível possa parecer.
O filme quer nos lembrar o esquecimento, a tentativa de sepultar nossa memória. É um grito contra isso, contra todos os massacres, quer revelar o sangue derramado, o corpo estendido no chão, ignorado, e os corpos desaparecidos, nunca encontrados. Denuncia o clima de então, tenso, violento, terra sem lei. Evidencia a perseguição permanente.
E o óbvio entrelaçamento entre o capital e ditadura. Todas as ditaduras na América Latina levam esse traço: surgem, derramam sangue, matam, sequestram, perseguem em nome e a mando do capital. No filme, o capital aparece entrelaçado, ou pretendendo-se, na relação com a universidade. Quer o domínio da instituição acadêmica, controlar o saber, a tecnologia, tê-los sob o garrote do dinheiro. Parte pra cima de modo violento. Olho para os lados, penso na nossa caminhada, nas nossas lutas contra o Acordo MEC-USAID, na nossa derrota, no domínio do capital sobre o ensino superior – atualmente, em torno de 80% das matrículas são da área privada.
E penso, ainda para tratar da Universidade, na escassez de recursos para o ensino superior público, decorrente sobretudo do escândalo bilionário das emendas parlamentares, e da procura de emendas por parte de diretores de unidade, numa distorção profunda do orçamento público, uma espécie de privatização enviesada, perigosa, um outro tipo de domínio do capital sobre o saber.
O filme nos leva a pensar em tudo isso quando nos joga na cara a violência capitalista, a guilhotina do capital, incapaz de adequar-se à ideia de uma universidade autônoma, inclusiva, trazendo a juventude negra e pobre para o interior dela, e voltada a contribuir para o bem-estar do povo e da nação. Contra tal ensino superior o capital se bate até os dias atuais.
Conclama-nos a pensar na perna cabeluda, metáfora poderosa a nos fazer caminhar por muitas estradas. Kleber Mendonça chega a dizer numa entrevista ter sido o surgimento dela uma maneira de enfrentar a censura, de o jornalismo poder dizer as coisas através dela, impedido que era de fazê-lo de modo aberto, transparente. Talvez. Chega a imaginar a possibilidade de fazer um trabalho cinematográfico tendo a tal perna no centro, a embarcar no realismo mágico oriundo de terras pernambucanas. Um bom desafio.
Interessante a localização do filme no Recife, no Nordeste. Pelas mais variadas razões, por muito descuido inclusive, a violência da ditadura parece ter sido mais violenta em estados do Sul. Besteira disputar isso, mas importante não deixar de lado o terror da ditadura em terras nordestinas.
Se quiserem, lembro: em 1973, é preso na Bahia Gildo Macedo Lacerda, da AP, junto com vários outros companheiros e companheiras, inclusive a mulher dele, Mariluce Moura. É levado para Pernambuco, torturado até a morte – o corpo dele jamais encontrado, não obstante os esforços de Mariluce e da Comissão Nacional da Verdade.
Moram na Bahia Vera Rocha e Bruno Dauster, casados até hoje, ambos saídos no sequestro do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher, em janeiro de 1971, além de Nancy Mangabeira Unger. Nesse momento, eu estava preso, recém-saído da tortura. Por economia, não devo estender-me.
Vera, Nancy e Chico de Assis, militantes do PCBR, são cercados num aparelho no bairro de Afogados, no Recife, em 20 de julho de 1970. A fuzilaria começa às seis da manhã, com os três armados apenas de um 38, e dura até o momento de Nancy ser atingida por uma bala de fuzil 12, e os revolucionários começarem a gritar pessoa ferida e dizendo que se renderiam. O tiro perfurou órgãos internos e decepou o polegar dela. Passou mais de um mês internada comendo o pão que o diabo amassou.
Chico de Assis cumpriu longa pena no Brasil. Há muito material à disposição sobre aquele episódio. Ainda de Pernambuco, onde ele nasceu e começou a militância, conheço Paulo Pontes, com quem dividi prisão. Ele e Theodomiro Romeiro dos Santos foram presos em outubro de 1970, em Salvador. Passaram por inomináveis torturas e nove anos de cadeia. Theodomiro protagonizou incrível fuga da prisão à beira da anistia de 1979. Laços de sangue Bahia-Pernambuco.
Por tudo isso, os filmes de Kleber Mendonça, ao fortalecer o Nordeste, principalmente com O Agente Secreto, recoloca adequadamente a região como palco destacado da violência da ditadura, e quis apenas, com dois ou três episódios, reforçar a ênfase dele.
Ao falar da ditadura de modo relativamente extensivo, não pretendo dar a impressão de que Kleber Mendonça tenha simplificado aquele período da ditadura, tenha feito uma espécie de panfleto da época. De modo nenhum. É filme complexo, densamente elaborado, a obrigar quem o assista a pensar, refletir, elaborar a partir da criação dele.
No final, vem o esquecimento. O filho não quer lembrar. Recusa-se. Ouço isso de muita gente, convidando-me a parar de falar de ditadura em meus livros. Jogar a verdade, ainda precariamente revelada, para debaixo do tapete.
O filme, pelos mais variados caminhos, demonstra o quanto é essencial não esquecer, o quanto é fundamental manter viva a memória daquele tempo, de modo a que nunca mais se repita. É uma batalha essencial, especialmente num tempo de Trump, Bolsonaro, em um período em que um admirador de Pinochet é eleito no Chile, um Milei na Argentina, e seguimos por aí, o mundo tomado pela saudade do nazifascismo.
É um filme da esperança, o de Kleber Mendonça, contudo. Se posso, valho-me de poema de Aimé Cesaire, do livro Eu, Laminária... Últimos Poemas, para continuar com o espírito de O Agente Secreto.
Nova Bondade
“está fora de questão entregar o mundo aos
assassinos da aurora
. a vida-morte
. a morte-vida
os que desprezam o crepúsculo
as estradas pendem nos seus pescoços
de esfoladores
como calçados novos demais
não pode tratar-se de derrota
só os painéis foram de noite escamoteados
quanto ao resto
corcéis que só deixaram sobre o solo
suas pegadas furiosas
focinhos retesados de sangue tragado
o desembainhar das facas da justiça
e dos cornos inspirados
dos pássaros vampiros cada bico iluminado
brincando com as aparências
mas também seios que amamentam rios
e as doces cabaças no côvado das mãos
de oferenda
uma nova bondade cresce sem cessar
no horizonte.”