
O PT é uma criação sui generis. Nasce de esquerda e democrático. Em 1980, fevereiro, o nascimento. Quando ainda existia a URSS, recusa a ideia do centralismo democrático, propõe o socialismo, e defende a democracia, de alguma forma recolhendo lições gramscianas, consciente ou inconscientemente.
O partido sabe, deve saber, do quanto o mundo mudou.
Mudou o mundo e os desafios são outros, indiscutivelmente. Não há mais o solo do sujeito proletário, plantado no chão da fábrica, aquele cujo destino estava vinculado inevitavelmente à revolução, como pensava o marxismo.
Enfrenta, assim, o desafio da compreensão desse "admirável mundo novo", as impressionantes tecnologias, o novo mundo digital, mundo de maravilhas e de perversidades.
E elas se articulam, maravilhas e perversidades, porque sob o capitalismo, universo da mercadoria, do mundo-coisa, e assim cada vez mais a classe trabalhadora vê subtraída até a possibilidade do trabalho ou quando ele chega aparece sob a forma de atividades desprovidas de quaisquer direitos.
Para o PT, o enorme desafio de compreender o mundo uberizado, esse novo proletariado, uma realidade até agora incontornável sob o capitalismo, a executar um novo tipo de exploração do trabalho, escravidão desses tempos modernos, evidência da superexploração.
Compreender isso significa também rever a natureza do mundo sindical, acostumado por décadas a uma estrutura de trabalho baseada no assalariamento, tendo por alavanca da luta o proletariado industrial, de onde surgiu o partido.
Na convivência com o mundo sindical tradicional, de grande importância em nossa história, é fácil perceber o corporativismo, olhar voltado apenas para o próprio umbigo, defesa dos próprios interesses. Nele, não raramente, há distinções de classe - uma parte, favorecida por todos os direitos, outra, ganhando muito menos e sem os mesmos direitos.
O PT terá de se perguntar: como enfrentar o neoliberalismo, nova fase do capitalismo, inaugurado a partir de Margareth Thatcher, no final dos anos 1970, com suas diabólicas artimanhas, capazes de constranger e limitar os governos progressistas, e isso significa ter capacidade de mobilizar o nosso povo, fazê-lo chegar a compreensão do tamanho da luta pela frente.
Terá de se perguntar como enfrentar uma austeridade só capaz de cortar direitos dos trabalhadores, ao tempo em que garante sem apelação os juros do capital.
Enfrentar o desafio de uma estrutura política carcomida, pouco afeita ao que chamamos democracia. Sem estender-me muito, basta olhar o Congresso e a atual composição, a força da extrema direita, e em como pretende diariamente encostar a faca na garganta do presidente Lula, e esse não é um problema apenas desse momento.
Não se admite a existência de um Poder Legislativo a pretender concorrer, com o escândalo das emendas, com o próprio Executivo, sendo comum o enriquecimento privado a partir desse estranho quadro.
Terá de manifestar mais e mais ousadamente sobre a situação internacional, face especialmente a uma política dos Estados Unidos, agindo como se pudesse, e tem podido, desrespeitar inteiramente as regras internacionais, a ONU e quaisquer outras instâncias garantidoras de direitos.
O absurdo do sequestro e prisão do presidente da Venezuela e da mulher dele é uma evidência disso. Venezuela, o massacre continuado de Gaza, a agressão de décadas a Cuba, agora intensificada com Trump, o avanço da extrema direita no mundo, as vitórias do obscurantismo na América Latina, tudo isso reclama olhar atento e propostas do PT.
Vencer as próximas eleições, essencial. Garantir um novo mandato ao presidente Lula, eleger nossos governadores, dar atenção à eleição dos senadores, dos deputados, conseguir nem que seja alguma redução de danos, alcançar uma presença maior no Legislativo, a fim de tirar a faca do pescoço do Presidente.
Agora, ter nítida noção de que apenas a luta parlamentar não basta. Pensar um pouco no que dizia o velho Lênin, aparentemente fora de moda, mas tão essencial: evitar o cretinismo parlamentar.
O partido precisa se convencer do absurdo das emendas parlamentares, do jeito que elas têm se afirmado, e as modificações, a exigência de transparência e de alguma noção republicana, têm acontecido pela exemplar atuação do ministro Flávio Dino, e não por pressão do PT.
Não é fácil escapar da tentação do quase exclusivismo parlamentar. Mas, para compreender o mundo, é preciso que esse partido, singular sem dúvida, seja capaz, de certo modo, apesar de tudo ter mudado, voltar às origens - nesse caso, voltar a conviver, a atuar, a conversar, a reunir com nosso povo, com as novas classes trabalhadoras, de variada extração.
Mergulhar no mundo da cultura, no mundo das religiões, no mundo desse novo proletariado a enriquecer os bilionários das nuvens. Como fazer isso? Ninguém tem essa resposta. É preciso andar, caminhar, ir em direção à classe trabalhadora, não se satisfazer apenas com o universo das redes, essencial, mas não suficiente. E caminhando vamos aprender como fazer.
E o partido precisa perguntar-se sobre os desafios estratégicos e táticos, em sentido amplo. Pensar o tático e o estratégico. Um projeto de Nação, de que estamos carentes. Sei, para que não argumentem, o quanto fizemos no sentido de mudar o Brasil, e ele se modificou muito sob a direção do partido.
Está na hora, no entanto, de formular um projeto de Brasil capaz de pensar a superação da desigualdade de um modo consistente. E na hora de nos perguntarmos se um projeto como esse é compatível com o espírito do capitalismo, ao menos com o espírito do neoliberalismo. E se o nosso horizonte é ou não o da superação do modo de produção produtor de mercadorias, da coisificação do mundo.
Os desafios não são pequenos. O PT tem condição de enfrentá-los. Resta se debruçar sobre eles, com o olhar da política imediata, e a de médio e longo prazo. A sorte está lançada nesses vitoriosos 46 anos de existência. Fui presidente do PT da Bahia, integrei Diretório Nacional, várias vezes a Executiva Estadual, hoje simples militante, a desejar viva longa ao PT.
Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros