Política

Embora a institucionalização tenha viabilizado conquistas históricas, ela também produziu uma desmobilização pedagógica, convertendo o militante em eleitor e a luta política em gestão técnica de conflitos

Dificilmente as centenas de pessoas que se reuniram no Colégio Sion, em São Paulo, naquele 10 de fevereiro de 1980 para fundar o Partido dos Trabalhadores (PT), poderiam antever a magnitude da trajetória que ali se iniciava. Passados 46 anos, o PT consolidou-se como a força política mais relevante do Brasil, ocupando uma centralidade que só pode ser plenamente compreendida ao revisitarmos a natureza profundamente singular e inédita de sua gênese.

Essa singularidade residia em um amálgama heterogêneo que fundia o novo sindicalismo a organizações marxistas, intelectuais, artistas e às bases sociais da Teologia da Libertação. Tal composição, sem precedentes no horizonte da esquerda global até então, foi decisiva para sedimentar um caráter pluralista que se tornou a marca registrada da sigla. Ao institucionalizar o direito à divergência permitindo a organização de tendências internas de opinião e a proporcionalidade nas instâncias diretivas, o PT rompeu com o verticalismo autoritário que havia pautado as experiências históricas anteriores da esquerda brasileira, como o trabalhismo e o comunismo de matriz soviética.

Contudo, a própria plasticidade que permitiu ao PT sobreviver e crescer sob a Nova República impulsionou uma gradual, mas ininterrupta, mudança em sua forma política. O arco histórico de quase meio século revela uma profunda metamorfose. Se em sua gênese o PT operava como uma espécie de “anomalia necessária”, em uma síntese orgânica que desafiava a lógica do capital nas ruas e fábricas, a ocupação do centro de gravidade do sistema político deslocou seu eixo da mobilização social para a eficiência administrativa. Nessa transição do “partido de movimentos” ao “partido de governos”, a pulsão contestadora dos anos 1980 foi, em larga medida, absorvida pela liturgia do poder e pelas amarras da governabilidade. Embora a institucionalização tenha viabilizado conquistas históricas, ela também produziu uma desmobilização pedagógica, convertendo o militante em eleitor e a luta política em gestão técnica de conflitos.

Essa “estatização” da dinâmica partidária acabou por gerar um vácuo organizativo que hoje mostra sinais de exaustão, especialmente diante de uma extrema direita que logrou capturar o sentimento antissistêmico das massas. O impasse atual, portanto, não será superado por novos ajustes pragmáticos, mas pela coragem de recuperar um horizonte socialista e contestador. Somente ao resgatar sua vocação de organizador do descontentamento popular, operando para além dos limites palacianos, o PT poderá deixar de ser apenas uma barreira institucional para se tornar a contraofensiva histórica necessária contra as sombras do autoritarismo.

Diante da crise estrutural do capital, a reinvenção petista exige o abandono do fetichismo institucional em favor de uma práxis renovada. Na prática, isso implica a reconstrução imediata dos núcleos de base e dos espaços de formação política, transformando o partido em um laboratório de consciência de classe capaz de disputar a subjetividade das periferias contra o discurso do ressentimento e o mito do empreendedorismo de si.

É imperativo que a sigla deixe de ser a mera “fiadora da estabilidade” para pautar reformas estruturais que enfrentem a hegemonia financeira neoliberal e assegurem a soberania nacional em tempos de ofensiva imperialista. Ao fundir a gestão pública com a mobilização permanente, o PT poderá, enfim, retomar seu papel como motor de uma alternativa histórica viável e transformadora para o Brasil.

Erick Kayser é historiador e Secretário-geral do PT de Porto Alegre.