
Por ser a maior festa popular nacional, o Carnaval é um relevante marcador da singularidade do povo brasileiro. Apesar de sucessivas tentativas de domesticá-la e mantê-la em limites palatáveis aos padrões conservadores, a energia gerada pela alegria não se deixa enquadrar por inteiro. Para Roberto da Matta, o Carnaval brasileiro “suspende a hierarquia cotidiana para celebrar a igualdade” (Carnavais, Malandros e Heróis); enquanto para Milton Santos é um exemplo de "geografia da gente", onde o espaço geográfico é moldado de baixo para cima e a "periferia" e seus agentes se tornam protagonistas, configurando um território de resistência (O Retorno do Território). É contra essa capacidade de transgressão da cultura que a direita mais uma vez se insurgiu.
A perseguição a Acadêmicos de Niterói por sua homenagem ao Presidente Lula recupera uma longa tradição de tentativas de censura por parte de setores conservadores e religiosos contra genuínas manifestações populares. Em 1989, o “Cristo Mendigo”, de Joãosinho Trinta, foi obrigado a desfilar envolto por um plástico preto e houve tentativa de barrar o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”; em 2019, a Gaviões da Fiel foi alvo de processos milionários ao levar ao Anhembi o enredo"A saliva do santo e o veneno da serpente", que trazia uma comissão de frente encenando uma luta entre o Diabo e uma figura que representava, segundo a escola, Santo Antão.
Neste ano, a escola Acadêmicos de Niterói apresentou o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil", exaltando o migrante nordestino que, contra todas as probabilidades, tornou-se o Presidente mais vezes eleito democraticamente na história do Brasil, uma profanação da longa tradição de domínio político das elites. A escolha deste personagem como tema do samba-enredo foi suficiente para que a escola passasse a ser atacada com virulência. Líderes da direita foram incapazes de conter sua ira e rapidamente rotularam a arte popular como doutrinação e politização. O governador Tarcísio de Freitas celebrou o resultado como um "choque de realidade" e prova de que "o povo não aceita mais essa narrativa" (sic); o senador Flávio Bolsonaro – cujo pai está condenado a 27 anos por crime grave contra o Estado de direito e por planejar assassinatos de lideranças políticas (inclusive Lula) – associou a estética do desfile a uma "exaltação do crime e do atraso".
Na quarta-feira de cinzas, a raiva deu lugar à da exultação. Após o anúncio do rebaixamento da escola, passaram a agir como se tivessem obtido uma espécie de prêmio de consolação dos organizadores da festa que, até aquele momento repudiavam. Aliás, a direita tem cultivado o cacoete de torcer contra tudo e todos: contra a cultura, contra a educação, contra a soberania nacional, contra o desenvolvimento do país, contra a busca de ampliação das parcerias comerciais e a abertura de novos mercados.
Enquanto isso, o Presidente Lula liderava uma comitiva empresarial com mais de trezentos empreendedores brasileiros para a Índia e Coreia do Sul, com o objetivo de firmar parcerias estratégicas e ampliar mercados em áreas como a inteligência artificial, minerais críticos, energia, semicondutores e defesa. Apenas com a Índia, a meta é expandir nosso comércio para a casa dos US$ 20 bilhões.
Além de atravessar o samba, a conduta pueril da direita tem feito muitas críticas à diplomacia presidencial, presa a um provincianismo tacanho que não consegue esconder o contraste no desempenho dos governos de Lula e de seu antecessor. Até fevereiro de 2026, o governo Lula alcançou a marca de 525 novos mercados abertos, com uma média de treze por mês, contra cinco também abertos pelo governo anterior no mesmo período. Esse trabalho intenso impulsionou as exportações brasileiras a alcançar o recorde de US$ 348,7 bilhões em 2025, valor que pode crescer ainda mais, pois apenas o novo escritório da ApexBrasil aberto em Nova Déli estima haver cerca de 350 oportunidades de exportação para empresas brasileiras na Índia.
O contraste entre as pautas da oposição e do governo é gritante. Enquanto a oposição oscila entre o ataque a uma manifestação cultural e a celebração pueril do rebaixamento de uma escola de samba, o governo trabalha para assegurar a inserção do Brasil como ator estratégico e soberano no complexo cenário global que está sendo desenhado. Além de atravessar o samba no Carnaval, a direita revelou um enorme descompasso da necessidade de construir um lugar de soberania no mundo, a passarela que realmente importa para a nação brasileira.
Gerson Almeida é sociólogo