Política

E seguiu militante. Importante: seguiu militante. Porque cidadão de princípios. Porque de espírito revolucionário, sempre. Porque compromissado com a luta por mudanças profundas no país.

Ao caminhar para o fim dessa série, outra publicação em que me envolvo em torno da trajetória de Theodomiro, pensei, pensei, e resolvi dar um rumo diferente à prosa.

Atentei para observações da querida Virgínia Lúcia de Sá Bahia, viúva de Theodomiro. Ele não está mais entre nós, e a discussão sobre os rumos da vida dele, da forma como ele se colocou no mundo depois de regressar do exílio, seria prejudicada por tal ausência se eu persistisse na pretensão de estabelecer um diálogo imaginário entre ele e Renato Afonso. Vou pedir desculpas ao querido Renato Afonso, e não darei sequência àquele diálogo, como havia pensado, mesmo considerando o imenso cuidado dele ao tratar da questão da militância, da visão do PCBR, dele próprio, e também de Theodomiro.

Renato Afonso é amigo. Amizade nascida na prisão, eterna. Respeito e admiração. Ele sabe disso. Como sabe, também, de minha amizade com Theo, profunda a ponto de meu filho levar o nome dele. Também desenvolvida na cadeia. Zelosa da memória do marido, do companheiro, Virgínia não considera justo estabelecer tal discussão depois de ele ter partido. Qualquer abordagem sobre isso, se acontecer, será de minha inteira responsabilidade, e certamente será feita com o mais profundo respeito pela memória de Theo.

Não atuo como simples jornalista, com frieza profissional, ou como é definida tal frieza. No caso de Theo, as emoções me invadem, por tudo. Acolho preocupação de Virgínia. Minha também, a partir do alerta dela. De alguma forma, antes da conversa com ela, comecei a discutir militâncias. Sem a pretensão de estender-me muito, volto ao assunto, mais ao universal do que às singularidades. E, quem sabe, deixando perguntas, dúvidas.

Homens e mulheres de ferro

Fomos marcados, inevitavelmente, por uma concepção muito dura de militância. Exigências quase sobre-humanas. Homens de ferro. Mulheres de ferro. Poderíamos simplificar e falar de stalinismo, mas seria de fato simplificação. Talvez devêssemos voltar ao desenrolar da luta revolucionária na Rússia, das exigências daquele processo, de como se articulou o Partido Bolchevique, de como os militantes deviam se mexer na conjuntura do czarismo.

Daquele caldo de cultura, diferente durante largo tempo, por exemplo, da Alemanha, onde foi possível um outro tipo de militância, emergiu o militante modelo do século 20, nascido naquelas circunstâncias históricas, e sob a influência de Lênin, o grande líder da Revolução Russa, e de Leon Trotsky, também figura fundamental daquele processo revolucionário.

Assim, muito do estereótipo do militante do século 20 nasce com o leninismo, e não apenas com o stalinismo. Stálin, por evidência, irá elevar ao paroxismo aquele modelo, seguido por praticamente todo o movimento comunista internacional, considerando aqui os partidos comunistas de todo o mundo.

Não simplifico nada, porque seria inconveniente. Não jogo a água do banho junto com a criança. Sob o czarismo, sob ditaduras, a militância comunista devia ser preparada para embates mortais. E não é metáfora. Só olhar a história dos comunistas no Brasil, e se verá o quanto há de razão nisso. Lembro-me na AP já maoísta, e das orientações recebidas para o enfrentamento da tortura, as regras da clandestinidade sob a ditadura, a palavra de ordem era nada revelar à repressão. Agi assim, quando caí.

Nós encarávamos tudo aquilo com muita seriedade, e a rigor, sob a violenta ditadura sob a qual vivíamos, era a única política possível para a militância, independentemente de que isso pudesse levar a exageros, a exigir de militantes uma atitude de sacrifício total, possível de ser evitada. Revelar uma ou outra coisa, sob a tortura, muitas vezes informações já de domínio dos carrascos, não devia ser encarada como erro, sobretudo se feita depois dos prazos determinados pelas organizações. E muitas vezes se incriminou militantes por isso.

Tal concepção de militância, se continha méritos, e inevitavelmente continha, podia levar a equívocos, ou a desvios, como costumávamos dizer. A concepção revolucionária do “assalto ao Palácio de Inverno”, própria da Revolução Russa, levando à formação de um partido centralizado, de quadros, não de massas, e depois a um modelo de socialismo de natureza autoritária, e vamos dizer isso de modo aligeirado, tudo isso contribui para o desenvolvimento do stalinismo.

A crítica de Rosa

Rosa Luxemburgo dirá, com Lênin vivo, que aquele modelo não podia dar certo – o conjunto da obra, autoritária, levaria ao fracasso. Uma avaliação profética. Não era, como se vê, uma crítica ao stalinismo, mas, se quiserem, ao leninismo, à concepção emanada do grande líder da Revolução Russa, crítica ao autoritarismo, à não participação das bases no processo revolucionário, de alguma forma ao partido de quadros, em cujo interior estaria todo o saber político, evidentemente equívoco de bom tamanho.

Rosa, formada no fragor da batalha alemã, num partido de forte inserção social, de massas, pensava de outra maneira. As forças reacionárias alemãs, em 2019, irão matá-la impiedosamente, na esteira da repressão à movimentação espartaquista, talvez o momento em que ela resolveu ir para o confronto, certamente consciente de que ela e os espartaquistas seriam derrotados. Foram.

Comovente o texto dela – “A ordem reina em Berlim” – quando, ao comentar o massacre contra os espartaquistas, busca exemplos na história do proletariado, de modo especial na Comuna de Paris, para demonstrar que as derrotas são, também, essenciais à Revolução, pelos ensinamentos contidos nelas. Deixemos Rosa Luxemburgo por enquanto, sem jamais esquecê-la.

Volto: se pensamos a conjuntura da ditadura no Brasil, surgida com o golpe de 1964, a violência absurda daquele regime, compreenderemos porquê as exigências da clandestinidade levaram os partidos de esquerda, defensores da luta armada e mesmo o PCB, a recrudescer o modelo rigoroso de militância, absolutamente compreensível naquelas circunstâncias históricas.

Nós todos, as organizações da esquerda armada, tanto as vinculadas ao pensamento foquista, quanto outras, vinculadas à teoria maoísta, e também o PCB, contrário à luta pelas armas, nos movimentávamos, na militância, seguindo regras absolutamente rigorosas. Vivíamos sob exigências espartanas, necessárias naquela situação.

Visão estereotipada

Isso, já vimos, representava um mecanismo de sobrevivência mas podia, também, sustentar uma visão estereotipada da militância, levando as direções partidárias a práticas autoritárias, inegavelmente. E, também, a uma espécie de exclusivismo, à ideia de só ser possível a militância de esquerda se desenvolvida no interior dos partidos comunistas e mais tarde no âmbito de organizações revolucionárias avessas ao credo dos PCs.

Uma estreiteza, diminuição das possibilidades da intervenção do pensamento de esquerda, impossível de ser patrimônio exclusivo de partidos, embora com isso não se queira diminuir a importância essencial dos partidos, capazes de globalizar a luta política, unificar aliados, definir horizontes, diminuir o peso da movimentação exclusivamente econômica. Em Lênin e em Gramsci vamos encontrar lições preciosas sobre os partidos e a revolução, posições diferentes e complementares, fundamentais para a compreensão do papel deles.

Partidos são instrumentos essenciais da Revolução, de qualquer revolução, ou ao menos o foram durante todo o século 20 e parte do 21. Não se negue isso. Pretender, no entanto, sejam os únicos mecanismos de participação política, é um equívoco. Tal pretensão esquece o envolvimento de tanta gente na luta sem necessariamente estar vinculada organicamente a esse ou aquele partido.

Há uma cidadania, voltada ao dia a dia da existência, ativa e capaz de se mover politicamente por direitos políticos, econômicos, culturais, sociais, sem necessariamente estar organizada nesse ou naquele partido de esquerda. Reter isso me parece fundamental.

Pior ainda era a concepção, oriunda de raízes leninistas e levadas ao extremo por Stálin, de acreditar que existisse, em cada país, um partido do proletariado, intérprete exclusivo dos interesses, da tática, da estratégia da classe operária, eleita como o sujeito principal da Revolução. Os partidos comunistas, a seção de cada país, eram assim considerados, os eleitos pela inteligência do movimento comunista. Lembro-me das intensas discussões sobre o partido do proletariado, eu, vinculado à Ação Popular, cuja maioria foi encontrá-lo na dissidência do PCB, o PCdoB.

Novas bandeiras

Muita coisa mudou. O movimento comunista internacional, para o bem ou para o mal, tudo junto e misturado, não tem mais um único centro. Não acabou, como às vezes se pretende, mas não conta mais com uma diretriz única. O fim da União Soviética, no início dos anos 1990, selou o destino final daquele centro, a pretender unificar os comunistas em todo o mundo.

A esquerda, e ao falar esquerda ampliamos o leque porque contempla um universo mais vasto, para além dos comunistas, se diversificou, não obstante não se desconheçam as imensas dificuldades de toda ela nessa quadra de avanço da extrema direita no Ocidente, impulsionada por um império em decadência e por uma crise evidente do capitalismo.

A militância se diversificou. Há ainda a militância comunista. Há a militância de partidos de esquerda, socialistas, não necessariamente comunista, embora com forte diálogo com o pensamento marxista. Há a militância não-partidária, envolvida em tantas organizações comunitárias e não governamentais. Há a militância voltada ao meio ambiente, também com forte interlocução com os marxistas, estes hoje sensíveis ao fato de que o capitalismo, na fase atual, amplia sua natureza destrutiva, podendo levar à destruição da terra, ao menos da possibilidade de o ser humano viver sobre ela.

Há ainda a militância LGBTQIA+, e tantas outras, fruto de variadas inserções sociais, a provocar militâncias. Aos partidos comunistas, às agremiações socialistas de variados matizes, cabe a tarefa, se tiverem lucidez, de contemplar tais demandas, abraçá-las, unificá-las na luta política pela transformação do mundo em um ambiente mais justo, mais igualitário, mais fraterno, avesso ao ódio, tão estimulado nesses tempos de avanço da extrema direita.

Vivi, e disso falei em texto anterior, um dilema logo ao sair da prisão. Estava em liberdade condicional. Havia estudado bastante na prisão. Tinha certeza de seguir militando. Não mais, no entanto, sob as asas de uma organização centralizada, clandestina. Houve conversas de companheiros comigo, na tentativa de me levar de volta à Ação Popular. Preferi, por opção política e por cuidados de segurança, fazer a caminhada na chamada institucionalidade. Isso não me afastou da convivência e militância comum com tantas companheiras, companheiros pertencentes a partidos ainda clandestinos.

Em nenhum momento deixei de ser militante. Meu último pouso partidário foi, é, o PT – isso aconteceu a partir de 1997, quando eu e Waldir Pires ingressamos no partido cuja estrela maior era, é, Lula. No PT, fui vereador por Salvador, deputado estadual e federal, além de ter pertencido à Executiva Estadual, ter participado do Diretório Nacional, e presidido o partido na Bahia. Falo de mim para chegar ao meu querido amigo e companheiro Theodomiro Romeiro dos Santos.

Theo, um revolucionário

Sabe-se, mas não custa lembrar: Theo começou a militância muito cedo. Primeiro, junto à Igreja Católica. Depois, no PCBR. Prisão, reação, morte do sargento Walder Xavier de Lima, tortura, condenação à morte. Uma intensa mobilização levou a que não fosse executado. Nove anos na prisão. Tinha certeza de que poderia ser morto se ficasse sozinho na cadeia, e foge em 1979. Vive no exílio parisiense até 1985. Mais de quinze anos de atividade revolucionária, sob as asas do PCBR, a quem seguiu de modo determinado e disciplinado.

Ao chegar de volta ao Brasil, com vários filhos, sem profissão definida, sem ter feito universidade, necessitando encontrar caminhos para sustentar-se e à família. Estuda, faz concurso, torna-se juiz do Trabalho. Não quis mais desenvolver a militância no PCBR, e sou eu a dizer isso, não obtive tal declaração dele. E isso nunca quis dizer qualquer atitude de renegar o passado, muito ao contrário.

A história dele, nunca a negou. Sempre atendeu a quem o procurava, mantinha-se de pé, defendendo a luta travada contra a ditadura, condenando-a de modo firme e resoluto, até o fim da vida. Contava tal história nos detalhes, sem relutar, e sem nunca transigir com os princípios alimentados na juventude, fortalecidos na prisão, consolidados no exílio e na sua volta ao Brasil.

E seguiu militante. Importante: seguiu militante. Porque cidadão de princípios. Porque de espírito revolucionário, sempre. Porque compromissado com a luta por mudanças profundas no país. Tudo isso era manifestado no dia a dia da atividade como juiz. Manifestado nas atividades organizativas da profissão, nas entidades de defesa da Justiça do Trabalho, onde exerceu cargos, eleito por seus pares. Manifestado no cotidiano da existência, na relação com familiares. Não há a pretensão de mitificá-lo, mostrá-lo como um homem sem defeitos. Certamente, os teve, mas não serei eu a destacá-los porque secundários diante da grandeza da existência dele.

A militância anterior, no PCBR, certamente deu a ele régua e compasso. Mas, a vida o levou a outros caminhos, sem com isso modificar os princípios adquiridos na luta revolucionária. A militância política, a participação cidadã, tem várias facetas. A inserção de uma pessoa na vida política, e aqui não falamos de mandatos parlamentares, a vida política é muito mais que isso, não depende necessariamente de pertencer a esse ou aquele partido, insisto nisso.

Implica, isso sim, em tomada de partido, sempre. Gramsci dizia odiar os indiferentes. Theo comungava desse pensamento. Sempre tinha posição diante dos acontecimentos, e era um perspicaz analista da conjuntura. E a militância espraiava-se no cotidiano, no dia a dia da atividade de juiz, nas atividades organizativas de seus pares, na relação amorosa, com os filhos, com os amigos, com quem sempre foi profundamente leal.

Das lembranças da convivência com ele, nos quatro anos compartilhados na prisão, na convivência quando da volta dele ao Brasil, nós nunca nos apartamos, de tudo isso posso testemunhar a vida de um ser militante, sem nunca perder o horizonte da luta por um mundo justo, sem nunca deixar de lutar contra a desigualdade, pela liberdade, e sem nunca perder a perspectiva do socialismo. Amizade eterna. Theo, presente!

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros