Internacional

Quando se reconhece que as mulheres cubanas não só arcam com os efeitos da crise, mas também são criadoras de soluções, lideranças comunitárias produtoras de pensamento e protagonistas da vida cotidiana, compreende-se melhor a força que sustenta o país

Tem dias em que Cuba se sente como um país que respira contra a corrente. No Instituto de Nefrologia, por exemplo, a vida de centenas de pessoas depende de máquinas que não podem parar nem um minuto. A doutora Yamilé García sabe disso: cada sessão de hemodiálise é uma batalha contra a asfixia, contra os apagões, contra a incerteza sobre se haverá combustível para manter o serviço. Lá, onde a vida escapa por tubos e bombas, o país se torna mais frágil e mais humano.

Em outro ponto de Havana, Greisy olha para o relógio e espera que o transporte escolar chegue. Se os ônibus falharem, 232 crianças com deficiência visual não poderão começar o dia. A escola na qual ela é diretora não pode parar, mesmo os equipamentos oftalmológicos tendo mais de trinta anos, mesmo se faltar luz, mesmo se aulas tiverem que ser dadas nos corredores para aproveitar a claridade. Ela diz que não é apenas diretora: ela é suporte emocional, acompanhamento, é quem mantém a alegria acesa quando a eletricidade não chega.

No Hospital Ramón González Coro, a doutora Niurka Moreno vive com o coração na garganta. Ela sabe que um apagão de dez segundos pode ser a diferença entre a vida e a morte de um recém-nascido. Sabe que os ventiladores pulmonares não têm baterias, que as incubadoras sofrem com cada flutuação, que o gerador envelhecido é um milagre que se repete por pura força de vontade humana. E, ainda assim, nenhuma criança morreu por uma falha elétrica. Não foi sorte: foram as mãos que não se rendem.

Na sala de oncologia pediátrica, Celeste – uma palhaça terapêutica – entra toda quinta-feira com um nariz azul e faz as crianças rirem. É um gesto pequeno, mas em tempos de asfixia, o riso também é um tratamento. Por vezes ela segura em mãozinhas durante procedimentos dolorosos; outras vezes só respira com elas para que o medo não ganhe. Seu trabalho não aparece nas estatísticas, mas muda a atmosfera de um hospital inteiro.

E, em Villa Clara, Licet viaja com seu filho Diego sempre que chega a vez da radioterapia. Ele tem medo de o equipamento desligar. Ela tem medo de faltar combustível. Ambos sabem que a vida depende de uma corrente elétrica que nem sempre chega. “Ninguém vai doar um navio de combustível para mim”, diz ela, numa mistura de raiva e amor. Ainda assim, ela segue. Porque não há outra opção quando se trata de um filho.

Essas histórias não são exceções. Elas são o país. São a asfixia vivida nos corpos. São a resistência cotidiana que não aparece nos discursos, mas sustenta a vida. Em cada uma delas – na doutora que opera no escuro, na diretora que reorganiza as aulas num corredor, na mãe que atravessa províncias, na palhaça que devolve o riso – há um fio comum: as mulheres que sustentam aquilo que pode desabar.

São as mesmas mulheres que, nos bairros, nas delegações, nas comunidades, na Federação de Mulheres Cubanas (FMC), mantêm acesa a vida coletiva quando tudo ao redor parece se apagar.

Um país sob pressão

Cuba passa por um dos períodos mais complexos de sua história recente. Não é apenas a crise econômica ou os apagões o que quebra a rotina. É o peso acumulado do bloqueio que se tornou mais asfixiante nos últimos anos, quando a administração Trump ativou mais de duzentas medidas para cortar receita, impedir transações e isolar o país.

Entram nesse pacote a ativação plena do Título III da Lei Helms-Burton, as sanções a navios, barcos e empresas que transportavam petróleo, a perseguição financeira a bancos que operavam com Cuba, a inclusão na lista de países patrocinadores do terrorismo e a pressão sobre outros países para que não comerciem conosco. Somou-se a isso algo que não é apenas jurídico, mas simbólico e profundamente nocivo: a narrativa oficial que chegou a apresentar Cuba como uma “ameaça para a segurança nacional dos Estados Unidos”. Essa frase abriu a porta para um cerco mais agressivo, justificou novas sanções e alimentou um clima de hostilidade.

Junto com as medidas econômicas chegou outra frente: o cerco midiático. Campanhas anticubanas que amplificam qualquer fratura, que distorcem fatos, que transformam rumores em verdades, que buscam desmoralizar, dividir, semear o medo. Plataformas digitais que operam como máquinas de desgaste. Notícias que chegam antes dos fatos. Narrativas que se impõem sobre a realidade vivida nos bairros.

Nesses dias, carregamos ainda o peso do ataque mais recente: uma lancha que entrou armada até os dentes, violando águas territoriais, em um país que já havia sido declarado como “ameaça” pela potência que o bloqueia. Essa linguagem não é inocente. Ela abre uma porta. Justifica ações. Alimenta a ideia de que Cuba é um território disponível para a agressão. E quando essa lancha entrou, ela não estava vazia. Estava cheia de armas longas, munições, com um plano que ainda é investigado, mas que já deixou explícito que não era um simples deslocamento familiar, como alguns tentaram alegar.

As comunidades sentiram no corpo: o sobressalto, a raiva, a pergunta sobre o que teria acontecido se não tivessem agido a tempo. E também a certeza de que, em momentos assim, as pessoas se olham para manter a calma, para explicar o que aconteceu, para cortar a desinformação, para acompanhar, para evitar que o bairro se incendeie por rumores. Esse ataque não foi um fato isolado: foi um recordatório de que o cerco não é apenas econômico ou midiático. Também é físico, direto, e sentido na pele de um país que vive sob ameaça.

A crise que se sente nos corpos

Tal cerco, somado à contração da receita nacional, à crise energética, à inflação e à migração, configurou um cenário que afeta cada dimensão da vida cotidiana. Não é apenas mais um ciclo econômico adverso. É um ponto de inflexão que tensiona as bases materiais do projeto social cubano e, ao mesmo tempo, obriga as pessoas a se reorganizarem de baixo para cima.

A crise que se sente na pele quando a casa fica no escuro, quando o transporte não chega, quando a água não sobe, quando o dia é partido em pedaços por um apagão que ninguém sabe quanto tempo durará. Ela é sentida na ansiedade das mães, no cansaço dos mais velhos, na incerteza de jovens que almejam um horizonte mais claro para seu país. É possível senti-la também na raiva contida de um país que sabe que essa asfixia não é por acaso nem natural: é uma política deliberada.

Nas últimas semanas, o próprio presidente dos Estados Unidos disse sem rodeios: “Não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba: zero”. Foi assim que ele escreveu, com essa frieza, como quem anuncia um castigo. Dias depois assinou uma ordem executiva para impor tarifas aos países que nos fornecerem combustível, declarando uma “emergência nacional” pela suposta “ameaça inusual e extraordinária” que Cuba representa. Essa expressão – “ameaça” – não é um mero termo jurídico. É uma permissão para a agressão. É uma mensagem para o mundo. É uma forma de justificar que um país inteiro viva sob um cerco que busca provocar o colapso social e econômico.

A asfixia se vê nos bairros. Nos transformadores que não dão conta de trocar e deixam comunidades inteiras sem eletricidade. Nas famílias que hoje contam com energia renovável em suas casas e colocam uma televisão na rua para as vizinhas e vizinhos poderem assistir o noticiário ou a novela. Em crianças que fazem a tarefa à luz de um telefone. Naqueles que não conseguem dormir nas noites de calor. Nas mães que calculam cada refeição como se fosse uma equação de sobrevivência.

A escassez de combustível não é um dado técnico: é uma cadeia de consequências que atravessa a vida inteira. Afeta o transporte, os serviços de saúde, a refrigeração dos alimentos, a mobilidade de quem trabalha, a segurança nos bairros. E por trás de cada apagão há uma família. Atrás de cada estatística, um criança, uma avó, um sonho que é adiado. A migração – principalmente de jovens – deixou vazios afetivos e funcionais em milhares de lares, nos quais as avós, mães e tias assumem novas responsabilidades.

As redes que sustentam a vida: a FMC na vida cotidiana

Em meio a esse ruído, a vida cotidiana se mantém graças a redes de apoio. Quem tem um pouco mais, compartilha. Quem consegue um medicamento, reparte. Quem tem um fogão elétrico empresta quando não há gás. Quem tem força emocional segura a mão de quem não aguenta mais. Essa rede invisível é, em grande medida, feminina. Aparece também algo que não é possível apagar: a capacidade de adaptação, a criatividade, a solidariedade. O povo inventa. O povo resiste. O povo se acompanha. Nesse acompanhamento, as mulheres tornam a ser o centro que sustenta.

Em Cuba, como em toda a América Latina, as mulheres sustentam a vida inclusive quando a vida fica mais pesada. Numa crise prolongada, essa responsabilidade se multiplica e se faz mais visível. São elas que organizam a comida do dia, que buscam alternativas quando falta água ou eletricidade, que acompanham as pessoas idosas, que sustentam emocionalmente suas famílias enquanto trabalham fora de casa. A carga mental e física é enorme, mas ainda assim elas são o ponto de equilíbrio de suas comunidades.

Nos bairros, essa força se reconhece em gestos que parecem pequenos, mas sustentam mundos. Mulheres que explicam como poupar a pouca energia disponível para que o circuito não colapse, que reorganizam horários, que ensinam seus vizinhos a reduzir consumos. Mulheres que identificam vulnerabilidades que às vezes passam inadvertidas: elas enxergam o que outros não enxergam, porque estão lá, no pulsar cotidiano do bairro.

São elas também as primeiras em acompanhar as vítimas de violência. Batem na porta, ouvem, denunciam, insistem. Elas sabem que a violência se agrava em tempos de crise. Por isso atuam dentro dessa rede invisível, tecida dia após dia, que evita que a crise se transforme em ruptura.

A Federação de Mulheres Cubanas respira nos bairros, ela se movimenta com as pessoas. É uma rede que articula milhares de mulheres que sustentam, informam, acompanham e cuidam. Em cada delegação há um pulsar: um cartaz na vendinha que avisa quando chegam as encomendas, um bilhete que relembra o horário do consultório do médico de família, uma vizinha que atualiza a informação sobre os produtos disponíveis, uma dirigente que convoca para uma atividade comunitária. São gestos simples, mas mantêm a comunidade orientada em meio à incerteza.

Temos também as sentinelas que observam o que acontece no bairro: uma situação de violência doméstica, um adolescente que largou a escola, consumo de drogas, um ato ilícito. Elas veem, ouvem, alertam, acompanham. Em muitos lugares, as mulheres organizam jornadas de limpeza e embelezamento em instituições que já não possuem pessoal para fazer isso. Não esperam outra pessoa vir resolver: elas se organizam, dividem as tarefas e devolvem dignidade aos espaços comuns. Essa também é uma forma de resistência.

O plantio se tornou um ato cotidiano. Em pátios, jardins e espaços ociosos aparece batata doce, abóbora, feijão, pimentão. O que antes era terra vazia agora vira horta. O que antes era um canto esquecido será comida. Em alguns bairros, as mulheres cozinham coletivamente em refeitórios comunitários; em outros, promovem a agricultura familiar como uma estratégia de soberania alimentar. Isso não é só produzir alimentos: é recuperar a capacidade de sustentar a vida com as próprias mãos. Os Lares de Alimentação Comunitária são outro exemplo de como as mulheres sustentam o cuidado.

Além de tudo isso, um país que vive sob ameaça também tem a questão da defesa. A FMC promove a incorporação de mulheres no serviço militar voluntário, a preparação para a defesa, a formação política e técnica das jovens. Não é militarismo: é continuidade histórica. As mulheres sempre estiveram na defesa da nação. Hoje não é diferente. Tudo isso ocorre na vida cotidiana, nos pátios, nas filas, nas casas, nos corredores das escolas, nos comércios, nos consultórios, nos bairros onde a vida se mantém graças à organização e ao cuidado. No centro desse tecido estão as mulheres, movimentando a vida para a frente, inclusive quando tudo ao redor parece se deter.

Olhar para Cuba com os olhos abertos
Para a esquerda latino-americana, Cuba continua sendo uma referência histórica e, ao mesmo tempo, um território que convida a ser olhado com carinho, respeito e atenção. Não basta denunciar o bloqueio: é necessário também compreender as tensões, as desigualdades emergentes, as inquietações das novas gerações e a centralidade das mulheres na sustentabilidade do país.

A solidariedade foi sendo tecida de forma próxima, a partir da escuta e da aprendizagem mútua. Uma solidariedade que acompanha; que não idealiza nem julga, mas reconhece a complexidade de um país que resiste e se transforma ao mesmo tempo.

Cuba chega a seus irmãos e irmãs a partir de sua verdade, que inclui a força com que o país enfrenta um cerco econômico injusto, mas também da urgência de continuar abrindo caminhos internos para ampliar o desenvolvimento, a participação e a equidade. Reconhecer ambas as dimensões é um ato de respeito para com a história compartilhada de nossos povos.

Cuba vive um tempo que pede olhares atentos e solidários. A crise é profunda, mas igualmente intensas são a criatividade, a resistência e a capacidade de organização de sua gente. As mulheres, em particular, sustentam a vida, articulam redes, inventam respostas e abrem caminhos. Compreender este momento requer sensibilidade, rigor e um compromisso que nasce do afeto e do respeito.

Quando se reconhece que as mulheres cubanas não só arcam com os efeitos da crise, mas também são criadoras de soluções, lideranças comunitárias produtoras de pensamento e protagonistas da vida cotidiana, compreende-se melhor a força que sustenta o país. Essa compreensão abre espaço para uma solidariedade mais profunda, uma solidariedade que acompanha um povo que defende sua dignidade, sua soberania e seu projeto social em condições extremamente adversas. E essa companhia, quando sincera, sente-se como um abraço.

Marilys Zayas Shuman é diretora da revista Mujeres e integrante da Marcha Mundial das Mulheres em Cuba.

Tradução: Celina Lagrutta