Internacional

Diante da investida global de uma extrema direita que se alimenta da erosão democrática e do descarte humano, a presença de ativistas de todos os continentes sinalizou que a luta contra o fascismo e as engrenagens do imperialismo não admite fronteiras.

No mesmo fim de semana em que Porto Alegre sediava a I Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos, Flávio Bolsonaro, no Texas, subia ao palco do CPAC, evento de forças políticas conservadoras, para pedir uma intervenção imperialista nas eleições brasileiras de outubro. A coincidência não é apenas cronológica: ela revela dois campos em movimento, cada qual consciente da disputa em curso.

Comecemos por um dos lados desta disputa. A escolha da capital gaúcha não foi fortuita: sede das primeiras edições do Fórum Social Mundial, buscou-se resgatar e atualizar a luta por “um outro mundo possível”. Não se tratou de um mero encontro de vontades, mas da materialização concreta de uma necessidade histórica: forjar, na diversidade das táticas e tradições, um espaço unificado de articulação das resistências. Espaço que nasceu de um esforço coletivo envolvendo os principais partidos da esquerda brasileira (PT, PSOL e PCdoB), MST, sindicatos e movimentos sociais; além de organizações e intelectuais de diversos países. Ao convocar ativistas de todos os cantos do mundo, a iniciativa resgatou uma energia coletiva que ressurge como necessidade histórica quando o mundo parece caminhar em direção à barbárie.

Diante da investida global de uma extrema direita que se alimenta da erosão democrática e do descarte humano, a presença de ativistas de todos os continentes sinalizou que a luta contra o fascismo e as engrenagens do imperialismo não admite fronteiras. Espaços como este devem se multiplicar, pois representam uma resposta coletiva à fragmentação que o capital e a direita radical tanto cultivam.

Enquanto isso, o campo oposto também se movimentava. O principal candidato presidencial da extrema direita brasileira fez, no Texas, um apelo por intervenção estrangeira nas eleições de outubro; em troca, ofereceu todas as riquezas do país numa eventual vitória sua. Se, por um lado, o discurso expõe um nível abjeto de subserviência a Trump, por outro, seu conteúdo abertamente golpista não pode ser minimizado. Ainda que não se deva subestimar a possibilidade de uma interferência estrangeira derivada deste pedido, não se deve também superestimá-la. O próprio evento da CPAC vive momento de declínio: outrora uma espécie de centro de gravidade conservadora, não foi capaz de atrair sequer um membro da família Trump.

A agenda de Trump parece ser outra. Poucos dias depois, reportagem da Reuters informou que o governo dos Estados Unidos planeja realizar, ainda este ano, uma cúpula internacional para coordenar ações contra o “movimento antifa” e outros grupos de esquerda. A iniciativa reflete a continuidade de uma recente mudança em curso no contraterrorismo norte-americano, que passou a tratar o antifa como uma ameaça relevante, por mais inconsistente que seja este enquadramento.

Assiste-se a uma evidente tentativa de instrumentalização política do aparato de segurança do Estado norte-americano para combater a esquerda. Lembremos como o fascismo clássico teve na perseguição, censura, prisões e eliminação física de militantes de esquerda (sejam eles comunistas, socialistas, anarquistas, etc.), sua forma de ação para consolidar poder interno. Este mesmo impulso se faz presente agora, numa semelhança que não é fortuita. Afinal, como devemos classificar quem organizará uma conferência anti-antifascista?

Num contexto em que a extrema direita tenta converter o anticomunismo e o antiesquerdismo em política de Estado, a simples existência de um espaço internacionalista já constitui uma forma concreta de resistência. É precisamente esta a importância da Conferência, que não reside apenas no calor dos debates ou na força simbólica do encontro, mas também no documento que dele emergiu: a Carta de Porto Alegre - Unidade Contra o Fascismo e pela Soberania dos Povos. Ela sintetiza a convergência possível entre sujeitos políticos que, guardando suas diferenças, reconhecem a necessidade de uma atuação comum frente às ofensivas do imperialismo e da extrema direita global. O legado mais duradouro é o compromisso do conjunto dos signatários da Conferência pela continuidade do espaço e de uma agenda comum para o próximo período. Trata-se de uma determinação inadiável de não apenas conter o avanço das sombras, mas de pavimentar, através da soberania popular, as bases para uma agenda transformadora que recupere para os povos o direito de imaginar e forjar o seu próprio futuro.

Erick Kayser é historiador e Secretário-geral do PT de Porto Alegre.