Sociedade

E o rap brasileiro contemporâneo com uma força quase impossível de ignorar, não só transforma o sofrimento em linguagem, em estética, em denúncia, como também reivindica nosso direito à autonomia, liberdade e poder

Sem me propor aqui a fazer curadoria, análise técnica ou coisa parecida, acho importante jogar luz sobre a cena do rap feminino brasileiro e sua contribuição na batalha que tem sido travada contra o conservadorismo brasileiro e sua expressão mais cotidiana: a misoginia.

Dentre as formas de elaboração e organização do pensamento e do discurso, a arte costuma ser minha via predileta de entendimento do mundo e de mim mesma. Enquanto mulher, numa realidade brasileira que insiste em produzir nosso esgotamento psíquico, diante da sensação constante de alerta, do medo cotidiano, da necessidade permanente de calcular riscos, medir palavras, proteger o próprio corpo num sofisticado protocolo de auto-preservação física e emocional, ouvir o rap feminino brasileiro tem sido uma forma de não se render.

Existe algo de radical em ver mulheres ocuparem espaços de protagonismo, se afirmarem sem a necessidade de caber no olhar masculino ou nos papéis de gênero esperados. É uma espécie de recusa coletiva à lógica social que insiste em nos limitar. E o rap brasileiro contemporâneo com uma força quase impossível de ignorar, não só transforma o sofrimento em linguagem, em estética, em denúncia, como também reivindica nosso direito à autonomia, liberdade e poder.

Em um país atravessado diariamente por números assustadores de feminicídio, assédio e silenciamento, encontrar essas vozes é uma verdadeira experiência de fortalecimento.

Acho importante dizer que esse fortalecimento não acontece porque essas artistas oferecem respostas fáceis ou discursos prontos. Pelo contrário. Muitas vezes, elas apenas conseguem nomear sentimentos e experiências. E existe algo politicamente poderoso em conseguir nomear uma violência. Porque aquilo que ganha linguagem deixa de parecer apenas um problema individual e passa a revelar sua dimensão estrutural.

Vivemos um período muito duro no Brasil. Os índices de feminicídio seguem alarmantes, a violência política de gênero cresce, os discursos misóginos se espalham facilmente nas redes sociais e o conservadorismo tenta constantemente recolocar mulheres em posições de submissão. Nesse contexto, a cultura deixa de ser um elemento secundário. A arte passa a funcionar como território de disputa simbólica e emocional.

Por isso, vejo o rap feminino brasileiro como uma força política decisiva no presente. Não apenas porque denuncia violências, mas porque cria novas possibilidades de imaginação coletiva sobre o que uma mulher pode ser. Essas artistas disputam subjetividades. Disputam autoestima. Disputam linguagem. Disputam futuro.

E talvez seja exatamente aí que esteja sua maior potência. Quando uma mulher escreve sua própria narrativa, transforma sua experiência em arte e gera tamanha identificação entre mulheres diversas, ela produz uma ruptura simbólica enorme. Ela desafia uma estrutura inteira que historicamente tentou silenciar determinadas vozes e transforma experiência em política.

Em muitos momentos, sinto que essas mulheres estão fazendo muito mais do que música, elas fazem a disputa por transformação social através da arte e da sua produção de sentido. Elas estão produzindo um contra-discurso que consegue chegar em lugares que só a arte alcança.

Essa disputa simbólica aparece também na maneira como essas artistas constroem novas possibilidades de existência do feminino. Não apenas mulheres que sobrevivem, mas mulheres que avançam, confrontam, desejam e ocupam espaço. Isso sem falar na dimensão profundamente transformadora no fato de ver mulheres negras, periféricas e jovens se colocarem no centro da narrativa, produzindo linguagem sobre si mesmas e sobre suas referências.

Tasha e Tracie, dupla de irmãs rappers paulistanas, em “Amina”, por exemplo, fazem referência à Amina de Zazzau, guerreira nascida em 1533 que se tornou a primeira rainha de onde hoje é a Nigéria. Fazendo uma ponte entre essa figura histórica e a ocupação feminina do espaço público em posições de liderança, reivindicando o território, as ruas e o poder.

Julia Costa, Duquesa, Mc Luanna são outros nomes que fazem da cena terreno fértil de criação de imaginários e construção de referências emocionais e simbólicas para mulheres que cresceram sem se enxergar nos espaços de poder, da intelectualidade, da liberdade ou do protagonismo. Quando uma jovem escuta essas músicas e se reconhece nelas, existe ali uma reorganização silenciosa daquilo que ela acredita ser possível para si mesma.

Talvez uma das maiores forças do rap feminino brasileiro esteja exatamente nessa capacidade de criação de um futuro que rompa com estruturas conservadoras que historicamente tentaram enquadrar mulheres em papéis inferiores e domesticados, seja nas comunidades, no mercado de trabalho, nas relações afetivas, nas estruturas de poder, e na sociedade como um todo.

Essas artistas conseguem transformar vulnerabilidade em linguagem política sem abandonar o deboche, o desejo ou a raiva, mas fazendo uso da indignação cotidiana como combustível para lidar com situações que exigem de nós uma capacidade de articulação entre nossas questões individuais e subjetivas, o entendimento do caráter estrutural dessas questões e uma habilidade de construir caminhos que desarmem as inúmeras armadilhas que estão postas nos caminhos dessas mulheres que desafiam os papéis que tentam impor a elas.

Tal tecnologia política pode ser identificada em outro momento histórico, no contexto afro-americano por exemplo, como trata Angela Davis (1999) ao falar do blues feminino dos anos 1920 e 1930 como uma forma de nomear os sofrimentos, as violências e romper o silêncio imposto às mulheres negras dizendo o seguinte: “O blues feminino sugere uma insurgência feminista emergente na qual as mulheres nomeiam sem hesitação o problema da violência masculina, redirecionando-o assim para fora das sombras da vida doméstica, onde a sociedade o mantinha oculto, longe do escrutínio público ou político”, relatando como o blues feminino também cumpria essa função de transformar experiências individuais de dor em narrativas coletivas de resistência e tecnologia de reorganização subjetiva diante da opressão patriarcal e racial. Nomear essas violências é também interromper o consenso silencioso que sustenta determinadas relações de poder.

Experiências como essas produzem um movimento importante de reorganização simbólica. Em uma sociedade na qual os espaços de fala e legitimidade historicamente foram controlados por perspectivas masculinas e elitizadas, a presença dessas mulheres altera referências culturais, redefinindo possibilidades de identificação e ampliando imaginários sobre feminilidade, poder e autonomia. Está em disputa a construção de sentidos sociais e a capacidade de influenciar percepções, afetos e valores.

Essa disputa se torna ainda mais relevante no atual cenário marcado pela circulação intensa de discursos conservadores e misóginos, especialmente nas redes digitais e nos meios de comunicação. A arte, nesse contexto, deixa de ocupar um lugar de entretenimento ou de menor valor, passando a funcionar como ferramenta de enfrentamento político e elaboração coletiva. O rap feminino cria linguagens capazes de alcançar experiências que muitas vezes não encontram espaço em discursos institucionais ou acadêmicos, criando identificação e estabelecendo conexões profundas com mulheres que compartilham sentimentos semelhantes de medo, esgotamento, resistência e desejo de liberdade.

Por isso, o rap feminino brasileiro não pode ser reduzido apenas a um gênero musical ou a uma expressão estética periférica. Ele atua na disputa de consciência, fortalecendo processos de identificação coletiva e produzindo novas formas de imaginar o futuro. Ao reivindicar o direito à própria voz e à própria narrativa, essas artistas desafiam mecanismos históricos de silenciamento e afirmam a cultura como espaço fundamental de transformação social.

Rafaela Cruz dos Santos é bacharel em Artes pela UFBA e integrante do Grupo de Pesquisa Coletivo de Etnomusicologia Negra