Será que tem sentido falar em ética no jornalismo em um país onde a Rede Globo manipula tão descaradamente informações sobre os fatos mais essenciais da vida política? Eugênio Bucci responde que sim. Jornalista atuando há muito tempo na grande imprensa, ele faz uma defesa veemente de sua profissão e da possibilidade dela contribuir para o avanço dos direitos e da cidadania no Brasil. Seu livro, escrito de forma didática, é uma introdução fundamental ao debate sobre a ética jornalística que deve ser feito em cada curso de jornalismo e que deveria nortear a atuação de todo profissional da área.
Eugênio tem que se debater com muitos obstáculos. Como ele mesmo afirma, "a ética em jornalismo é algo sério demais para ser deixada unicamente ao encargo de especialistas" (p. 26). Afinal, a maioria dos jornalistas detesta falar de ética jornalística e eles são o primeiro obstáculo para debater o tema (p. 37). Há uma necessidade preliminar a toda discussão do assunto, que Eugênio conhece de perto, combater o que ele chama de "síndrome da auto-suficiência ética" do jornalista e das redações, que elimina o dilema ético próprio à atividade e instalando os jornalistas ou seus patrões acima do bem e do mal.
Em seguida, Eugênio examina os códigos de ética (da Associação Nacional de Jornais, da Associação Nacional dos Editores de Revistas e da Federação Nacional dos Jornalistas), verificando que a independência é prescrita em todos eles. A profissão tem uma prescrição normativa básica: "quem entra no ramo de informar o público tem que oferecer informação independente, isto é, informação voltada exclusivamente para atender o direito à informação" (p. 58). Supõe-se que, embora seja um negócio comercial e a notícia seja mercadoria, a sociedade exija independência editorial. Ela é, todavia, solapada pela ação externa do poder político, que restringe a liberdade de informação, e, no interior da profissão, pelo conflito de interesses. A autonomia editorial deveria ser mantida por uma separação semelhante à que caracteriza as relações entre Igreja e Estado, o que seria factível porque, afinal, a imprensa tem que "vender credibilidade". Quanto aos conflitos de interesses entre os jornalistas e o poder econômico, Eugênio examina uma série de temas clássicos do debate, como o partidarismo, a necessidade da afirmação subjetiva da objetividade pelo profissional, o mito da neutralidade, a distinção entre opinião e informação.
Mas a ética jornalística sobre conflitos de interesses é a ética das empresas. Mas o mercado não é mais um juiz confiável e o método da separação "Igreja-Estado" é um método datado. Hoje, com a fusão entre empresas jornalísticas e de entretenimento e a dependência de seu sucesso da fidelidade do público e sua extensão, as regras para resguardar a independência editorial precisam ser atualizadas. Somente sete grupos controlam amplamente o setor: Time Warner, Walt Disney, Bertelsmann, Viacom, News Corp, Seagram e Sony. Eugênio procura ser otimista, cita exemplos de autonomia dos profissionais e redações frente aos conglomerados que são proprietários dos órgãos de imprensa. E conclui o debate lembrando a necessidade da nítida separação entre jornalistas e assessores de imprensa e como, na internet, as fronteiras entre o jornalismo e a publicidade estão se tornando mais fluidas. Esta me parece ser a parte mais frágil do livro, pois não pode ser adequadamente tratada dentro dos limites que o próprio Eugênio se impôs, tratar o problema da ótica do profissional responsável perante o cidadão, sem entrar no debate sobre a necessidade de alterar as relações de propriedade no setor.
Em parte, a visão do autor sobre esta questão, colocada no capítulo seguinte, explica esta autolimitação. Eugênio discute detalhadamente, com muitos exemplos concretos, as regras práticas propostas pelo jornalista inglês Paul Johnson como "os sete pecados capitais do jornalismo" e os "dez mandamentos" que devem nortear o trabalho do profissional da área. Trata-se de um capítulo didático bastante útil para o debate particularmente com os estudantes de jornalismo. Todavia, ele está consciente dos limites que estão presentes nestas reflexões e fecha o capítulo com três observações sobre o tema: o mito da opinião pública, a distinção entre meios de comunicação e jornalismo (isto é, entre entretenimento e transmissão de fatos e idéias) e o fantasma da manipulação.
Este aspecto merece uma discussão mais detida, porque Eugênio tem freqüentemente insistido sobre o tema em seus artigos (e normalmente com razão). Há manipulação e ela deve ser combatida. Mas no cotidiano, o decisivo é a existência de "um processo industrial que promove a identificação entre editores e consumidores sob a égide de mecanismos de mercado que automatizam os efeitos ideológicos da imprensa... A ideologia é o negócio, como diriam Adorno e Horkheimer – e, hoje, o negócio produz a nova ideologia. De tal forma que, perseguindo as demandas de consumo de seus públicos, os próprios jornalistas se tornam os promotores (os intelectuais orgânicos cibernéticos) não mais dos interesses dos patrões, tampouco do público entendido como opinião pública, mas da ideologia deste negócio, que é a ideologia que idolatra o consumidor" (p. 184-5). A resposta que ele oferece neste nível de sua análise, em apenas dois parágrafos, é que a ética do jornalismo deve atender o consumidor de forma crítica, sem se restringir às demandas do mercado, deve ser afastar da idolatria do consumo.
Como as contradições entre os limites da crítica interna e a redefinição das condições do jornalismo se recoloca em outro patamar, Eugênio tem que dedicar o último capítulo ao exame das condições atuais da sociedade. Ele lembra que o jornalismo tornou-se um prolongamento do espetáculo. Citando Bernard Miège, ele mostra que desde os anos 70, a imprensa entrou em um novo estágio, que pode ser definido como a "era das relações públicas generalizadas (ou comunicação generalizada)". O essencial da informação que circula é produzido por departamentos de relações públicas de empresas, órgãos governamentais etc. A imprensa só reproduz esta informação. E o jornalista normalmente não domina os conhecimentos para questionar estas informações. Daí a necessidade de se recuperar o caráter originário da profissão: "o jornalismo é uma atividade intelectual – ou é inconseqüente e tolo" (p. 199). Numa sociedade em que a supremacia das imagens transforma o espetáculo no estado irrevogável da cultura, tudo se destina ao prazer, até mesmo as notícias. Eugênio não tem resposta para este problema, de fato concluindo o livro com a afirmativa de que "cabe à imprensa encontrar os meios para compreendê-lo [ao espetáculo], para informar o público sobre os mecanismos pelos quais ele reconfigura a realidade e, principalmente, não se conformar à função de linha auxiliar das relações públicas generalizadas" (p. 201).
O livro tem ainda uma conclusão "propostas que não são conselhos", em que Eugênio enfatiza a educação para a cidadania, a importância da formação dos jornalistas nas universidades, como os códigos de ética devem ser tratados, o que os sindicatos de jornalistas brasileiros podem fazer e a importância da sociedade se envolver neste debate. Em um apêndice, estão alguns exemplos de códigos de ética.
A impressão que ficamos é que Eugênio está plenamente consciente dos limites de sua reflexão. Se recorre a análises de cientistas sociais e filósofos, é para fazer com que retornem o tempo todo para os jornalistas. Parece dirigir-se, antes de tudo, aos estudantes de jornalismo, aos futuros profissionais da área. Quer combater o que chama de os militantes do ceticismo, resgatando o papel que o jornalismo e os jornalistas deveriam desempenhar na sociedade atual à luz da visão clássica que o liberalismo lhe atribuía, o de profissionais engajados em uma atividade essencial ao exercício da cidadania. Enfatiza, o tempo todo, os limites cada vez maiores com os quais ela tem que se chocar. Produz, nesta medida, um livro muito útil e agradável. Mas frustra o leitor que espera o debate da conclusão lógica necessária de sua análise, a discussão das modificações sociais mais amplas indispensáveis para viabilizar um ambiente que favoreça o exercício ético da atividade jornalística – a transformação das relações entre a sociedade e as empresas privadas de comunicação, as iniciativas políticas e econômicas para quebrar o crescente monopólio empresarial da produção e difusão de informações e romper com a crescente espetacularização do jornalismo.
José Corrêa Leite é membro do Conselho de Redação de TD.