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Ao lado da consolidação das conquistas recentes, duas bandeiras emergem como carros-chefe de poder mobilizador superior: a tarifa zero no transporte público urbano e a mudança da escala de trabalho 6x1 para 5x2

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva se prepara para buscar seu quarto mandato não apenas como um político experiente, mas reconhecidamente como um dos grandes estadistas globais de nossa época. Seu legado, construído ao longo de décadas e robustecido em seu atual governo, é um patrimônio de realizações concretas, assentado em dois pilares indissociáveis: a justiça social interna e uma inserção internacional soberana e ativa. No entanto, a campanha que se avizinha vai além da prestação de contas. Ela é projetada para o futuro, trazendo no bojo propostas transformadoras que dialogam diretamente com o cotidiano do povo brasileiro. Ao lado da consolidação das conquistas recentes, duas bandeiras emergem como carros-chefe de poder mobilizador superior: a tarifa zero no transporte público urbano e a mudança da escala de trabalho 6x1 para 5x2, iniciando com jornada de 40 horas semanais e podendo chegar a 36 horas numa transição razoável, como já ocorre em alguns países do mundo.

Prestação de contas: as entregas e a reconstrução do Estado

O terceiro governo Lula herdou um país em frangalhos sociais, com fome, desemprego e direitos desmontados. Sua ação foi, primeiro, de emergência e reconstrução. A retomada vigorosa de programas sociais e a criação de novas políticas públicas voltadas às classes populares, como o "pé-de-meia" para estudantes vulneráveis, a equiparação salarial entre homens e mulheres, a política de valorização real do salário mínimo e a histórica isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000,00 são medidas que recolocaram o Brasil no caminho da inclusão. Programas como o Gás do Povo e a Tarifa Social de Energia são exemplos de políticas públicas que entendem que orçamento deve servir, prioritariamente, aos mais necessitados.

Para além das transferências de renda, Lula empreendeu a complexa reconstrução do Aparelho de Estado, com concursos públicos e valorização do serviço público, e fortaleceu a democracia participativa. A reativação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (Conselhão), a criação do Conselho Nacional da Indústria e do Conselho de Participação Social, além da instalação de Assessorias de Participação Social e Diversidade nos ministérios, demonstram um compromisso com um governo que ouve, dialoga e transversaliza as pautas de gênero, raça e inclusão em todas as políticas.

Na economia, a estratégia foi explícita: fortalecer o setor produtivo nacional. O BNDES e os bancos regionais voltaram a fomentar o desenvolvimento; o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi reativado; e parcerias público-privadas e linhas de crédito foram expandidas. O resultado se vê na geração de emprego, na distribuição de renda, no controle da inflação dentro da meta, na atração de investimentos estrangeiros e na melhora da balança comercial. Apesar do desafio persistente dos juros altos, a economia retomou um rumo de crescimento com inclusão. A aprovação da Reforma Tributária, que desonera a produção e combate a sonegação, combinado com outros instrumentos como a lei do devedor contumaz, e a regulação das fintechs e o enfrentamento do crime organizado nas apostas eletrônicas, mostram um governo atento aos desafios modernos da economia e da segurança.

Soberania e liderança global

Na cena internacional, o Brasil deixou rapidamente a condição de pária a que foi relegado no governo Bolsonaro. Sob a liderança de Lula, o país reassumiu seu papel de protagonista, presidindo com destaque o G20 e BRICS, sediando a COP30 e liderando campanhas pela paz. Defendeu com firmeza a soberania nacional contra sanções externas e travou uma batalha fundamental pela regulamentação das big techs, exigindo transparência, propriedade nacional dos dados e combate às fake news e ao ódio online. A defesa intransigente da democracia, com exigência de punição aos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro, completou o quadro de um governo que não negocia seus pilares fundamentais.

Os carros-chefe da campanha da reeleição: tarifa zero e jornada 5x2

É sobre este sólido alicerce de realizações que a campanha para o quarto mandato se erguerá, propondo um salto civilizatório. A tarifa zero no transporte público urbano não é uma mera promessa eleitoral, mas uma política de mobilidade social já testada e em expansão. No Brasil, mais de cem cidades já a praticam parcialmente e experiências em bairros específicos de grandes centros já demonstram sua viabilidade. Internacionalmente, é uma realidade em Luxemburgo (primeiro país do mundo a adotá-la em toda a rede nacional), em dezenas de cidades francesas, alemãs e norte-americanas. A proposta vai muito além do "ônibus ou metrô gratuito". Ela é um instrumento poderoso de inclusão urbana, que aumenta o poder de compra dos trabalhadores, dinamiza a economia local, reduz os congestionamentos e a poluição, e garante o direito fundamental à cidade. É uma política que, como o fome zero em seu tempo, tem o condão de transformar radicalmente a qualidade de vida nas periferias.

Já a mudança da escala 6x1 para 5x2, objeto de propostas em discussão no Congresso, entre elas a PEC do Senado Paulo Paim, já provada pela Comissão de Constituição e Justiça e pronta para ser apreciada em Plenário, é uma demanda histórica do movimento sindical que encontra em Lula seu mais qualificado defensor. Trabalhar seis dias para descansar um é uma jornada extenuante, que prejudica a saúde, a convivência familiar e a produtividade do trabalhador. A escala 5x2, com dois dias consecutivos de descanso, é um padrão civilizatório já adotado parcialmente em países como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, para citar alguns, demonstrando sua compatibilidade com economias desenvolvidas e competitivas. Há, inclusive, países que já discutem a escala 4x3, como os Nórdicos (Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia), além da Holanda, onde, em alguns setores e/ou atividades, já se pratica a jornada média de 32 horas semanais. Implementar essa mudança (5x2) no Brasil, iniciando com 40 horas semanais e podendo chegar a 36 horas, significará um avanço monumental na qualidade de vida de milhões de trabalhadores formais, em sintonia com as melhores práticas internacionais.

Conclusão: experiência a serviço da ousadia

A reeleição do Presidente Lula representa, portanto, a sinergia perfeita entre a experiência comprovada na gestão e a ousadia necessária para implementar reformas profundas. É a garantia da continuidade de um projeto que tirou o país do buraco, recompondo salários, direitos e a dignidade dos mais pobres. E é, simultaneamente, a promessa de um futuro mais justo, onde ir e vir será um direito garantido pela tarifa zero e onde o descanso digno será assegurado pela escala 5x2. Com um legado invejável no presente e propostas mobilizadoras para o futuro, Lula se apresenta mais uma vez não apenas como a opção mais segura, mas como a escolha necessária para um Brasil que deseja seguir avançando, com desenvolvimento, soberania e justiça social.

Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista e consultor político, mestre em Políticas Públicas e Governo. Sócio-diretor da empresa “Consillium Soluções Institucionais e Governamentais”. É membro do CDESS (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável) da Presidência da República e da Câmara de Reforma do Estado do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. É autor, dentre outros, dos livros “Para entender o funcionamento do governo e da máquina pública” e “Por dentro do processo decisório: como as fazem as leis”.