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As dezessete propostas aprovadas, que vão da qualificação profissional contínua ao fortalecimento do FAT e FGTS para financiar a inovação e a transição energética, são um farol para os próximos anos

O Brasil vive um momento paradoxal e estimulante. Os dados mais recentes do IBGE, referentes ao fechamento de 2025, mostram um mercado de trabalho em seu momento mais favorável desde 2012, com 103 milhões de ocupados, desemprego na casa dos 5,1% e renda em patamar recorde. Contudo, esse cenário de recuperação consolidada não pode servir de anestésico para as profundas e urgentes transformações que já batem à nossa porta. É exatamente por isso que a realização da II Conferência Nacional do Trabalho (CNT) pelo governo federal, encerrada em 5 de março de 2026 em São Paulo, não é apenas oportuna: é uma necessidade estratégica e civilizatória.

Ao reunir mais de três mil delegados de trabalhadores, empregadores e governo, a II CNT resgatou o melhor do diálogo social tripartite, inspirado no modelo da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em um mundo de mudanças aceleradas, o diálogo social não é um detalhe protocolar; é a ferramenta mais poderosa para que nenhum ator seja atropelado pelos eventos e para que as soluções sejam construídas com legitimidade e eficácia, como bem lembrou o ministro Luiz Marinho. O presidente Lula, na abertura do evento, foi cirúrgico ao afirmar que “o Brasil não entrará no rol dos países desenvolvidos se o trabalhador não entrar junto”, sintetizando a filosofia que deve nortear as políticas públicas para o setor.

O centro das discussões da Conferência não poderia ser mais atual e desafiador. Estamos diante de uma verdadeira reconfiguração do mundo do trabalho, impulsionada por aquilo que os especialistas chamam de “transição quádrupla”: a transformação tecnológica, a transição demográfica, a crise ambiental e a revolução na comunicação. No campo tecnológico, a automação, a robótica, a digitalização e, principalmente, a inteligência artificial generativa estão redesenhando cadeias produtivas inteiras. Essas tecnologias, que antes ameaçavam apenas tarefas repetitivas e manuais, agora alcançam o trabalho qualificado, prometendo ganhos exponenciais de produtividade, mas carregando consigo a sombra do desemprego estrutural e da ampliação das desigualdades.

É nesse contexto que o debate sobre a jornada de trabalho, incluindo a proposta de extinção da escala 6x1, ganha novos contornos. Não se trata apenas de uma pauta histórica de qualidade de vida, mas de uma discussão sobre distribuição do trabalho em uma era de crescente robotização. Se as máquinas produzem mais em menos tempo, como garantir que os frutos desse avanço sejam compartilhados e que o ser humano não seja descartado? A II CNT acertou ao incluir essa discussão em um espectro mais amplo sobre as novas formas de trabalho e a necessidade de adaptação das relações trabalhistas.

Outro ponto que merece absoluta atenção e que foi destaque nos debates é a questão do financiamento sindical. Não há diálogo social equilibrado sem representantes com sustentabilidade financeira. Atualmente, testemunhamos uma desigualdade brutal e injustificável: de um lado, um sistema patronal robusto, com amplas fontes de financiamento; do outro, sindicatos de trabalhadores estrangulados, sem recursos para oferecer a assistência necessária, para qualificar sua representação e para enfrentar a complexidade dos novos tempos. Uma negociação coletiva equilibrada pressupõe equilíbrio de forças. Avançar na atualização do sistema sindical e na busca de fontes de custeio que garantam a representatividade dos trabalhadores é condição sine qua non para a modernidade e a segurança jurídica que almejamos.

A Declaração final da Conferência foi sábia ao afirmar que “o Brasil se fortalece quando brasileiras e brasileiros rompem barreiras para dialogar”. As dezessete propostas aprovadas, que vão da qualificação profissional contínua ao fortalecimento do FAT e FGTS para financiar a inovação e a transição energética, são um farol para os próximos anos.

Não podemos ignorar que as decisões políticas tomadas entre 2026 e 2028 serão determinantes para definir se a inteligência artificial será uma ferramenta de inclusão ou um vetor de aprofundamento da miséria. O governo federal, ao convocar e realizar esta II Conferência, dá um passo fundamental para que o Brasil não seja mero espectador dessa revolução, mas um protagonista na construção de um futuro onde o desenvolvimento tecnológico caminhe lado a lado com a justiça social e o trabalho digno. O caminho está pavimentado; agora, é hora de trilhá-lo com a coragem de quem sabe que o futuro não espera.

Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, consultor, analista político e mestre em políticas públicas e governo pela FGV. Foi direto de documentação do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). É membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República – Conselhão. Especialista em instituições políticas e processo legislativo, é autor de diversos artigos e livros sobre a dinâmica do poder no Brasil.