Colunas | Opinião

Quantos mortos contaremos até o final do ano, o prazo do general da saúde? Quanta lágrima até lá, quanta dor? Não podemos naturalizar essa tragédia, deixar de enfrentá-la
Penso: em situações excepcionais, é indispensável a definição de prioridade. O país vive um quadro absolutamente excepcional, sob um governo genocida, negacionista, armamentista, um cenário nunca visto antes, sobretudo porque está em uma devastadora pandemia, causadora de aproximadamente 240 mil mortes, fruto grande parte da política do atual governo federal. A oposição, em especial a de esquerda, busca caminhos para o enfrentamento desse quadro. Arrisco dizer: é necessário refletir sobre o que é principal, urgente e indispensável. E avanço: a vacinação da população. Não há nada mais importante. E não há vacina – esta a dura realidade. Falo do hoje, do aqui e agora. Da Bahia, por exemplo, com o vírus grassando, matando, e a vacinação paralisada porque não há vacina, ou só há algumas doses. Assisto aqui, em minha terra, ao governador Rui Costa, rogando cuidados à população, com vários hospitais com ocupação de 100% dos leitos destinados à Covid-19. Abrir mais leitos, mas e daí? Podemos ou não conter irresponsabilidades de nossa gente. Para tentar conter as taxas de contágio, o governador decretou nessa terça-feira toque de recolher entre às 22 horas e 5 horas na maior parte do território baiano, a princípio por sete dias. Sem vacina, no entanto, a morte ronda permanentemente, acontece, vidas se perdem continuamente. Vejo prefeitos desesperados, sem saber como agir diante de tantas mortes, e sem vacina. E não é uma situação singular. É o quadro do país todo. É quase inacreditável. Não é porque tal situação não é fruto do acaso, mas de uma política. O governo federal agiu conscientemente nessa direção. Acompanhou Donald Trump, o ex-presidente dos EUA, recentemente derrotado. Os americanos lideram em número de mortes, o Brasil vem logo a seguir, tristemente. O governo brasileiro só gastou 9% da verba emergencial liberada para vacinas contra a Covid-19. Matéria da Folha de S. Paulo, estou lendo aqui num texto do querido Altamiro Borges, informa a existência de três medidas provisórias assinadas pelo atual presidente da República em agosto, setembro e dezembro. Com tais medidas provisórias, foram abertos créditos extraordinários, totalizando R$ 24,5 bilhões. E o país chega à metade de fevereiro com apenas R$ 2,2 bilhões efetivamente gastos. A vacinação contra a Covid-19 no Brasil só teve início em 17 de janeiro. Mais de cinquenta países começaram o processo de imunização antes. De quantas doses de vacina o Brasil precisa para imunizar o povo brasileiro? Assim, num olhar de relance, sem qualquer rigor científico, não se pode pensar em menos de 500 milhões de doses. Ou estou enganado? E estamos nesse momento com a vacinação praticamente paralisada, e com o atual ministro da Saúde prognosticando, sem nenhuma certeza, a conclusão do processo de imunização da população lá pelo final desse ano. Não, não se diga faltar ao Brasil condições de vacinar rapidamente toda a população brasileira. Dráuzio Varela, na Folha de S. Paulo, de 13 de fevereiro, mostra o quanto seria possível rapidamente imunizar toda a nossa gente. Bastaria ter a vacina. O Programa Nacional de Imunizações, com 45 anos de existência, recorda Varela, foi capaz de eliminar a varíola e a poliomielite do país, vacinar 18 milhões de crianças contra a poliomielite num só dia, 100 milhões de pessoas contra a H1N1 em três meses em 2010, 80 milhões contra a Influenza, em 2020. Por que o atual governo não adotou as providências para que a vacinação começasse cedo e terminasse rapidamente? Porque era contra, por conta de sua política negacionista, genocida. E a Covid-19 continua matando, em ritmo acelerado, quase como no pico da pandemia. Esse governo genocida sabe o que está fazendo. O pior é isso. Não adota as medidas capazes de enfrentar pra valer a pandemia. Grave é encontrar eco em parcelas da população, das camadas suscetíveis ao negacionismo entre os mais pobres às camadas médias, parte das quais não hesita sequer em querer mandar seus filhos às aglomerações das aulas presenciais. Defendo ser necessária uma tomada de posição muito mais decisiva em favor da vacina, da vacinação em massa da população por parte da esquerda brasileira. Uma atitude política a defendê-la como prioridade zero da vida brasileira nesse momento. A imunização da população é a pedra de toque para qualquer retomada e para o próprio desabrochar das lutas essenciais do país. Numa tomada de posição assim, a exigir do governo Bolsonaro a compra de milhões de doses capazes de atender a todos, será possível sensibilizar muita gente, não só do espectro político de esquerda. Nessa nova orientação política, cobrar das instituições a mesma postura. Como o STF fica insensível à montanha de cadáveres, às mais de mil mortes diárias, coisa a se repetir há 26 dias consecutivos no momento em que escrevo esse texto? Como a Câmara Federal e o Senado se quedarão inertes diante do crime da política em andamento? Como instituições religiosas defensoras da vida negarão apoio a uma posição como essa? E essa posição será parte da luta contra o negacionismo de parcelas de nosso povo, espelhadas nas atitudes irresponsáveis do presidente, a insistir em posturas contra a vida, na negação dos procedimentos elementares necessários ao enfrentamento da Covid-19. Sei que, ao insistir nisso, surgem os argumentos das tantas outras prioridades, todas verdadeiras. Vou insistir, no entanto, estamos diante de uma questão de vida ou morte. E as naturais discussões em torno dos grupos prioritários. Em casa de pouco pão, todo mundo briga e ninguém tem razão. Vacina para todo mundo: essa é a solução. Brincando, não dá nem pra dizer: para o trem que eu quero descer. Em nenhum lugar, há vacina. Não adianta descer. Esse trem só chega a um lugar seguro, onde se pode parar pra discutir o próximo destino, com a população vacinada. Sem isso, não há caminho. É esse desatino permanente, sob a ameaça da morte por Covid-19. A morte é parte da existência, mas o genocídio decorrente da irresponsabilidade de um governo diante de uma pandemia deve ser contido a todo custo. Unindo o máximo de forças políticas e instituições possíveis. E isso é urgente, urgentíssimo. Quantos mortos vamos contar até o final do ano, o prazo do general da saúde? Quanta lágrima até lá, quanta dor? Não podemos naturalizar essa tragédia, deixar de enfrentá-la. Trata-se de contê-la, e o primeiro passo é vacinar todo mundo, obrigar esse governo a fazer isso. A esquerda, toda ela, tem a responsabilidade de exigir com vigor essa iniciativa. Não sozinha, mas deve ser ela a chamar a Nação a essa batalha. Não esperar mais um único dia.
Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (2 vol.), entre outros