Ainda estamos a meio caminho.
Desenlace, por vir.
Virá.
E não será bom para os bolsonaristas, os comandantes da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.
Vamos combinar uma coisa?
Alguma coisa acontece de novo nos céus do Brasil.
Inédito: pela primeira vez, generais no banco dos réus.
E isso é dito sem qualquer ranço vingativo.
Nós, sobreviventes da ditadura de 1964, teríamos razões de sobra para tanto.
Esse ranço não nos invade.
Pensamos apenas no quanto é importante presenciar generais no banco dos réus.
Ranço, não.
Sede de vingança, não.
Justiça, sim.
Queremos justiça.
A sociedade brasileira exige justiça.
E quer afirmação definitiva da democracia.
Estamos a caminho dela.
Neruda assalta-me, assim de súbito:
“Generais
traidores:
olhem minha casa morta,
olhem a Espanha dilacerada.”
Essa nação, esse Brasil também foi dilacerado pelos generais.
Neruda, quando falava de Espanha, e podia, escrevesse à frente daquele tempo, falar de Chile, terra natal, e do Brasil, os dois e tantos outros países assolados por ditaduras, quando hablava de Espanha dizia do sangue correndo por las calles, sem qualquer metáfora.
A ele, Neruda, perguntavam por que os poemas dele não falavam de sonhos, de lírios, de pássaros, e ele respondia, tremendo de indignação, a mesma indignação presente em cada um de nós, sobreviventes da ditadura de 1964:
“Venham ver o sangue pelas ruas,
venham ver
o sangue pelas ruas,
venham ver o sangue
pelas ruas!”
Sangue por las calles.
A ditadura militar de 1964 prendeu, sequestrou, torturou, matou e fez desaparecer pessoas.
Milhares.
Fez correr sangue pelas ruas.
Muito sangue.
Desse sangue, de tantos milhares de mortos pela ditadura, nós não temos o direito de esquecer.
Nem do nosso, sangue de sobreviventes – por que esqueceríamos?
Justiça: é a nossa exigência.
E insista-se: afirmação definitiva da democracia.
Anistia?
Tomo as palavras do diplomata Milton Rondó, perseguido no Itamaraty por ter defendido Dilma e denunciado o golpe de 2016:
_ Nós anistiamos aqueles torturadores todos e olha o que eles fizeram: deram outro golpe em 2016 e estavam preparando outro pior ainda no 8 de janeiro. Não pode haver anistia, não tem como.
_ Imagine se explodisse aquele caminhão-tanque no aeroporto de Brasília, o que seria? Se o Brasil não aprendeu com a bobagem que fez de anistiar os torturadores... Fazer uma bobagem uma vez é uma coisa, repetir já é demais.
Anistia é para quem resiste a ditaduras.
Não para quem pretende implantá-las.
Nunca.
Agora, depois dos importantes marcos de 1985, da Constituição de 1988, quem sabe estejamos a assistir uma verdadeira virada de página.
O Brasil anda passo a passo.
Lenta caminhada em direção à democracia.
E me reporto a Pablo Milanés, num grito de esperança e dor, ao falar de Chile:
“Yo pisaré las calles nuevamente
De lo que fue Santiago ensangrentada
Y em uma hermosa plaza liberada
Me detendré a llorar por los ausentes”
Jamais deixaremos de chorar nossos ausentes, nossos mortos, desaparecidos pelas mãos assassinas das ditaduras de nuestra América Latina, e do Brasil.
Hoje, nesta nação, trata-se de punir diretamente alguns poucos torturadores, monstros ainda vivos.
E punir severamente os generais e acólitos, descendentes diretos da ditadura, saudosistas do regime de 1964, cujas mentes, recheadas de ódio, pretendiam repetir aqueles dias sombrios, plenos de terror, presente naqueles 21 anos do regime de generais.
Pretendiam repetir a ditadura.
Assassinar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.
E o que mais aconteceria, a partir disso, daquelas mentes sedentas de sangue, movidas pelo ódio, pelo anticomunismo, pela aversão à democracia?
Um banho de sangue.
Em torno do qual não somos capazes de ter ideia do que viria.
Uma nova Jacarta?
Mas nós havíamos chegado às ruas novamente.
Havíamos vencido as eleições, derrotado a extrema direita.
Ainda assim, pretendiam dar o golpe.
O uso do cachimbo faz a boca torta.
Ah, generais traidores...
A caminho, a punição.
Bolsonaro e os generais traidores imaginavam navegar no barco em ascensão da extrema direita em escala mundial.
Não contavam, no 8 de janeiro de 2023, com a firmeza de Lula, com a atitude de não aceitar implantar o mecanismo da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), a partir da qual o golpe se consumaria, e os planos assassinos se concretizariam.
E também com a atitude do Judiciário brasileiro, imerso durante algum tempo na vertigem do pensamento lavajatista, agora disposto a defender a democracia, felizmente.
Mesmo o Legislativo, majoritariamente conservador e com muita gente da extrema direta, foi levado a se contrapor à tentativa de golpe. Afinal, até a pátria-mãe dos ultraconservadores, naquele momento, não aceitava o golpe.
Agora, a bola, no pé do STF.
Dado o primeiro passo, o de aceitar a denúncia da PGR: os comandantes do golpe são réus.
Generais traidores no banco dos réus – repetir é bom.
Destaco, por justiça, o papel do STF.
Fundamental.
Redimindo-se de uma conivência com golpistas durante bom tempo.
Ao destacar e elogiar o papel do Judiciário brasileiro, não cabe esquecer a conivência anterior.
História é assim: dá voltas.
São as circunstâncias de que falava Marx.
Pudéssemos fixar a conjuntura recente num espaço de tempo, eu o faria de 2016 para cá, isso para não falar do início do lavajatismo, anterior àquele ano.
A Operação Lava Jato, ovo da serpente.
E 2016 inaugurou o golpismo.
Derrubar Dilma, uma presidenta sem qualquer culpa.
Dilma carregava nas costas apenas a firmeza e a disposição de mudar o Brasil, beneficiando os mais pobres, como Lula havia feito nos mandatos anteriores, como ela vinha fazendo.
Depois de derrubar Dilma, a nítida determinação de evitar a candidatura de Lula, em 2018, líder em todas as pesquisas.
Golpistas o prendem sem qualquer indício de culpa, como mais tarde se irá comprovar, como reconhecerá a posteriori o próprio Judiciário, parte de toda aquela movimentação ultraconservadora.
Nessa esteira, e num trabalho a envolver Judiciário, Congresso Nacional, toda a mídia tradicional, e naturalmente toda a mídia da internet, as Big Techs, o país viu a extrema direita ser vitoriosa, como todos aqueles atores queriam, sob a olhar atento, e aceito, das Forças Armadas, a mão a balançar o berço.
Em poucos anos, a reviravolta.
Lula é solto, por inocente.
E se elege, por ser a escolha a salvar a nação de uma hecatombe provocada pela presença da extrema direita no governo.
Reconstruir o Brasil, como está fazendo.
No início do governo Lula, em 2023, a tentativa de golpe.
A ideia de um golpe sangrento.
Como largamente noticiado.
E agora, a possibilidade de uma virada de página.
Saúdo, porque há de saudar, a nova atitude do Judiciário brasileiro.
O papel do STF, cuja história anterior não tão exemplar não será tratada aqui.
Celebrar essa nova atitude.
Democracia.
O STF sendo o verdadeiro guardião da democracia.
Punir os generais traidores e seus cúmplices é uma tarefa política e pedagógica.
Inédita.
A registrar: necessário o povo chegar às ruas.
Lentamente, parece chegar, a partir de manifestação de domingo, 30, em São Paulo.
Chegar às ruas e exigir punição severa aos golpistas, especialmente aos comandantes do golpe é tarefa essencial do movimento popular.
Nada de anistia.
Puni-los é iniciar nova fase em nossa história.
Garantir aos militares o papel constitucional deles: serem defensores da soberania nacional.
E ponto.
Esquecer, a partir desse acontecimento, qualquer perspectiva de ser poder moderador.
Se dermos essa virada de página, ingressaremos em outro tempo.
Nele, nesse novo tempo, não haverá mais espaço para golpes.
Para assassinos golpistas.
Para generais traidores.
A hora é de afirmação da democracia.
Enfim.
Sem o espectro militar a nos atormentar, liderando golpes.
Democracia, só assim.
E com a volta da participação popular.
Drummond, ao final, nos presenteia, com a esperança.
Esta, jamais pode se perder.
Uma flor furou o asfalto.
Nasceu na rua.
“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada.
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
“Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
“Sento-me no chão da capital do país às cinco horas
da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar,
galinhas em pânico.
É feia.
Mas é uma flor.
Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
Desbotada, mas um flor.
A desafiar generais traidores.
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond de. A flor e a náusea. Aeroplanos da Birmânia. Página institucional do professor Aulus Mandagará Martins/Universidade Federal de Pelotas. Consultada em 30/03/2025.
MASSACRE na Indonésia de 1965-1966. Contra os comunistas, golpe em que um milhão de pessoas foram mortas, seguindo-se um período de 30 anos de ditadura. Tal massacre levou a se cunhar a expressão “método Jacarta” para referir-se à eliminação violenta de adversários políticos. Wikipédia, consultada em 30/03/2025, e “Método Jacarta”, título de livro de Vincent Bevis.
MILANÉS. Pablo. Yo pisaré las calles nuevamente. Letras, letras.mus.br/los-miserable, consultada em 30/03/2025.
NERUDA, Pablo. Explico algumas coisas. In Eu passarin. Consultado em 30/03/2025.
THUSWOHL, Maurício. Diplomata indomável. Entrevista: Pela primeira vez Milton Rondó fala sobre a perseguição sofrida por denunciar o golpe contra Dilma. CartaCapital, 32-33, 26/3/2025.
Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros