Estante

Arquitetura e Trabalho Livre Sérgio FerroAqueles que viveram o ambiente de esquerda das escolas de Arquitetura nos anos 70 – os anos de chumbo da ditadura militar – deparavam com uma forte polarização política e profissional, que envolvia professores e estudantes. De um lado, os que defendiam a necessidade de continuar exercendo a prática profissional, mesmo numa conjuntura adversa, e fazer do projeto e da arquitetura um instrumento, que todos sabiam limitado, de transformação da sociedade. De outro, os que entendiam que o projeto de arquitetura servia ao “sistema” e, portanto, deveriam se concentrar na análise do processo socioeconômico em que o ambiente construído e a cidade são produzidos e se organizar no combate à ditadura e na luta pela transformação das estruturas sociais.

Essa polarização tinha dois gurus ausentes: João Villanova Artigas e seu ex-discípulo Sérgio Ferro, responsável pela radicalização das propostas do mestre, ambos professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP afastados pela ditadura militar. O primeiro, antigo militante do PCB, foi aposentado compulsoriamente em 1969, junto com importantes intelectuais da USP; o segundo, preso em 1970 depois de aderir à guerrilha urbana, como tantos outros jovens inconformados com os rumos do país.

A ausência de Ferro – exilado em Grenoble, onde formou mais de 600 arquitetos sem que pudesse exercer a profissão – foi fermentada num ambiente de forte repressão ao livre debate das idéias. Isso fez com que se difundisse por aqui a falsa idéia, em torno da qual se deu a polarização profissional, de que suas críticas ao processo de produção de arquitetura e aos rumos da arquitetura moderna brasileira no pós-64 significavam uma negação da profissão. Ou seja, usando o jargão da época, que deveríamos “deixar de projetar” e “usar instrumentos mais contundentes para alcançar a transformação da sociedade”. Até a segunda metade dos anos 70, os textos de Ferro, herméticos e sem uma publicação adequada que permitisse sua ampla divulgação, circulavam como panfletos clandestinos e subversivos, muitas vezes gerando análises superficiais, convenientes apenas para alimentar o embate entre os grupos políticos que se digladiavam no movimento estudantil – sem gerar uma reflexão mais profunda sobre a contribuição que essa visão poderia dar aos novos rumos da nossa profissão.

Malgrado a força com que essa polarização se estabeleceu, entre o final dos anos 70 e início dos 80 a aproximação entre arquitetos e os movimentos sociais lançou novas perspectivas para a profissão, rompendo a polarização entre projetar com os métodos tradicionais ou não projetar. Para os que viveram esse percurso, a visão crítica de Ferro foi fundamental. Na retomada do processo democrático, muitos arquitetos não conformados nem com os métodos tradicionais de projetar nem com o abandono da profissão lançaram-se em aventuras em que a arquitetura e a política se misturavam para propor alternativas que buscavam dar um novo protagonismo para os novos sujeitos coletivos, na feliz expressão de Eder Sader, e para os trabalhadores produtores do espaço urbano, sem eliminar o papel do profissional. Daí nasceram métodos para possibilitar o projeto participativo da habitação coletiva, para desalienar o trabalhador da construção civil do objeto do seu trabalho ou para incorporar processos autogestionários na produção do espaço urbano. Foram tempos de construção de novas utopias, num momento em que o Partido dos Trabalhadores estava longe de se render ao pragmatismo e se constituía no elo de articulação de movimentos sociais, intelectuais orgânicos e sindicalistas, todos em busca de alternativas às velhas estruturas herdadas do populismo e da ditadura.

Para nós, que vivemos intensamente esse momento de utopias, o pensamento crítico de Sérgio Ferro representava um ponto de partida necessário e, ao contrário de ser paralisante, era “uma força motora de uma práxis conseqüente e fundamentada”, para usar termos de Pedro Fiori Arantes, organizador deste necessário e competente livro que reúne a obra quase completa de reflexão sobre arquitetura produzida por Ferro em quarenta anos de atividade crítica. Só agora, a partir desta feliz iniciativa, as velhas e novas gerações podem entender a abrangência de sua obra, sua seqüência, que tanto tem a ver com o Brasil contemporâneo, e, o que é mais importante, refletir sobre os desafios que temos de enfrentar para encontrar novas alternativas para a prática profissional.

Novas possibilidades de atuação

A obra quase completa de Sérgio Ferro, Arquitetura e Trabalho Livre (Editora Cosac Naify), divide-se em sete partes. Arantes fez mais que reunir textos dispersos; estruturou uma trajetória do pensamento de Ferro, marcada por pontos de referência ou de inflexão: Proposta, Corte, Esboço, Tese, Grenoble, Recapitulações Brasileiras e Comentários Finais.

Proposta reúne textos do início da década de 60, em conjunto com os parceiros Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, publicados na Revista Acrópole. Textos de época, de acesso restrito, que eram conhecidos apenas por aqueles que tinham tido contato com os autores, como seus ex-alunos, ou alguns poucos interessados das gerações mais novas. Neles se encontram a definição da poética da economia e a elaboração dos princípios da “arquitetura nova” que irão desenvolver ao longo da década de 60. São as primeiras casas em abóbadas, as experimentações espaciais e construtivas que definem “as novas casas de morar”. Trata-se da única parte do livro (e da carreira de Ferro) em que ele praticou arquitetura, em busca de novas alternativas construtivas e de inserção dos trabalhadores da construção.

Corte, Esboço e Tese reúnem os textos que apresentam o cerne da reflexão crítica de Ferro: “Arquitetura nova” (1967), “A produção da casa no Brasil” (1969) e “O canteiro e o desenho”, a tese de Ferro, originalmente publicada como dois artigos separados pela revista Almanaque, em 1976, e depois reunida em uma única publicação pela ProEditores, em 1979. Esses três textos expressam de modo sucessivo a determinação do limite do projeto de poder da arquitetura moderna brasileira, as contradições do seu processo de produção e a elaboração de sua principal crítica, “O canteiro e o desenho”.

Grenoble constitui o maior “presente” da publicação para os leitores assíduos de Sérgio Ferro. São textos ainda inéditos em nosso país (com exceção de “Reflexões para uma política na arquitetura”) que trazem ao público a experiência de ensino e pesquisa que Ferro realiza na França em sua importante atuação na Escola de Arquitetura de Grenoble. Esse trabalho desenvolve as propostas iniciadas no Brasil em um método de pesquisa em história da arquitetura que inclui uma avaliação dos processos de produção e dos canteiros da arquitetura, criando um conjunto de categorias de análise construtiva da obra e de sua relação de pertinência com o desenho. Dessa forma, sua contribuição retorna ao Brasil e as novas e velhas gerações de arquitetos brasileiros podem reaver um importante interlocutor e teórico da arquitetura brasileira, usufruindo assim de um conjunto bastante completo e representativo de seu pensamento.

É de esperar que essas suas propostas de ensino e pesquisa em arquitetura sejam lidas e debatidas nas instituições universitárias brasileiras e criem, como ocorreu com sua arquitetura experimental dos anos 60, um profícuo ambiente para a construção de novas vertentes na teoria da arquitetura brasileira, como Ferro foi capaz de realizar em relação à arquitetura européia. É uma pena estarmos falando nisso quando as faculdades de Arquitetura no Brasil têm dado tão pouca importância para a disciplina História das Técnicas, lembrando que nesta, em plena ditadura militar, graças à coragem dos professores Rui Gama e Júlio Katinski, estudávamos como leitura obrigatória os mesmos capítulos de O Capital que Ferro utiliza em sua análise marxista do canteiro e do processo de produção na construção civil, baseado na manufatura.

A parte Recapitulações Brasileiras traz um conjunto de entrevistas e textos dispersos, alguns inéditos e outros pouco conhecidos, que respondem a diversas solicitações de estudantes, arquitetos e pesquisadores brasileiros em temas e condições específicos. São uma contribuição de sua memória e de sua história ao Brasil. Integram esse segmento a importante entrevista concedida a Marlene Acayaba no final da década de 80 e as entrevistas a Pedro Fiori Arantes e Guilherme Wisnik. Em Considerações Finais, Ferro faz um balanço sobre O canteiro e o desenho, realizado para a Escola de Arquitetura de Grenoble quando da sua aposentadoria, em 2003, e conclui com um texto novo, uma espécie de diálogo com os jovens arquitetos, conselhos para um desenho que inclua a condição de transformação de suas determinações pelos produtores da arquitetura, um desenho aberto e não autoritário. Um fecho que é uma abertura para a construção de uma arquitetura libertária.

O livro é concluído com um instigante posfácio de Roberto Schwarz – Saudação a Sérgio Ferro –, escrito especialmente para a cerimônia de homenagem realizada na FAU-USP em abril de 2005, que compreendeu a entrega pela Câmara Municipal de São Paulo da medalha Anchieta e do Diploma de Gratidão da Cidade ao arquiteto e duas mesas de discussão sobre sua obra. Roberto Schwarz apresenta de modo sintético a contribuição de Ferro e, com sua ironia machadiana, tenta decifrar o significado do resgate de sua obra. Em Arquitetura e Trabalho Livre o leitor poderá encontrar várias contribuições de Ferro ao pensamento crítico brasileiro.

Visão crítica

O percurso de seu pensamento e de sua prática mostra bem que, ao contrário do que afirmaram muitos dos que, nos anos 70 e 80, combateram o posicionamento de Sérgio Ferro – chamado por alguns de traidor –, sua ação prática e teórica construiu uma visão crítica que transformou radicalmente a percepção de nossa atribuição profissional. Ao desmistificar os principais conceitos manipulados na ação projetual, a arte e a técnica, ele cobra dos arquitetos a conseqüência imediata dessa ação na produção do espaço, da arquitetura à cidade.

Sua crítica, difundida principalmente pelo livro O Canteiro e o Desenho, em que aprofunda a análise da exploração do trabalhador e da expropriação de seu saber no canteiro de obras, foi entendida como paralisante por alguns arquitetos defensores de uma prática projetual baseada no “subjetivismo"1 da beleza não mais identificada aos cânones do passado, mas sim à valorização incondicional de uma suposta técnica industrial de produção da arquitetura e seu universo visível – a estética da máquina.

É certo que não cabe no escopo da atuação profissional do arquiteto “resolver” todos os processos de exploração da força de trabalho e todos os mecanismos de reprodução do capital instalados em sua prática. Essa impossibilidade, no entanto, não invalida a crítica, não a transforma em traição e tampouco é impeditiva da própria atuação profissional. Mas a crítica de Sérgio Ferro – num contexto de crise da arquitetura que se tornou inevitável no pós-64 – foi tomada como paralisante e as reações possíveis dividiram-se de modo bastante maniqueísta em adesão e abandono da prática profissional ou recusa do engajamento político e defesa de uma ação projetual “autônoma”.

Em 1964, com o golpe militar, as perspectivas de integração dos projetos de esquerda ao Estado se tornaram inquestionavelmente mais complicadas. “Arquitetura nova” e “Cultura e política 1964-1969”2, de Roberto Schwarz, expressam com clareza o momento de expectativa/frustração pelo qual passam os arquitetos, no caso do texto de Ferro, e os intelectuais e artistas, no caso do texto de Schwarz, frente ao destino trágico de sua efetiva participação no Estado.

A crítica de Ferro situada no apogeu e crise da participação dos arquitetos no Estado nos trouxe mais do que um efeito paralisante, mas uma saída bastante concreta de re-construção das relações entre os arquitetos, a sociedade e o Estado. Não o modelo do exercício demiúrgico estatelado no bojo das políticas de desenvolvimento do país, mas sim um modelo de atuação pública baseado na interferência possível realizada a partir das demandas de uma sociedade que buscamos participar, organizar, representar, propor e sobretudo ouvir.

Nabil Bonduki é arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Foi vereador pelo PT em São Paulo e autor do Projeto de Resolução que propôs a concessão do Diploma de Gratidão da Cidade a Sérgio Ferro. É autor de Origens da Habitação Social no Brasil (Estação Liberdade)

Ana Paula Koury é arquiteta, professora do curso de Arquitetura da Universidade São Judas Tadeu. Doutora pela FAU-USP, é autora de Grupo Arquitetura Nova, Flávio Império, Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro (Romano Guerra)