Estante

A ditadura militar brasileira terminou oficialmente em 1º de março de 1985, com a posse do primeiro presidente civil eleito (indiretamente) desde o golpe de 1964. O desmonte dos aparelhos de coerção e censura do estado repressor, entretanto, começou praticamente uma década antes. Ao menos no discurso. Uma ditadura acossada via crescer o sentimento de basta à violência institucionalizada. O projeto de “distensão gradual, segura e firme” do general presidente Ernesto Geisel, ao assumir o cargo, em 15 março de 1974, pretendia dar essa resposta à sociedade. Entretanto, nos porões do sistema, com o aval do chefe, a máquina de matança continuou a produzir a morte de opositores.i

A revogação do Ato Institucional nº 5, em 1978, derrubou oficialmente a censura prévia na imprensa brasileira, que na prática já não era tão eficiente, e muitos jornalões já se permitiam confrontar o discurso oficial do generalato. Na mesma época, prosperou a imprensa alternativa, que cutucava a onça com textos críticos e irreverentes. Apesar desse afrouxamento, temas mais sensíveis só puderam vir às primeiras páginas com o fim do AI-5. As vozes sufocadas pelos anos de chumbo poderiam enfim contar a sua versão sobre os anos de trevas.

O regime que torturou, matou e fez desaparecer milhares de brasileiros, por longos quinze anos tachou seus inimigos com a pecha de subversivos, comunistas ou terroristas. Com essas nominações, a imprensa brasileira, por voluntarismo ou por imposição dos militares, noticiou cassações de direitos políticos, prisões arbitrárias, mortes de opositores pelas mãos do estado e ações dos grupos de guerrilha que pegaram em armas para combater a ditadura. Com o fim da censura, era preciso reescrever essa a história.

Entre a revogação do AI-5 e a queda definitiva do regime militar, período de transição em que a mídia empresarial, em sua grande maioria, ainda falava a “língua do dono”, o caminho utilizado para expor a face do terror dos anos de chumbo foi o mercado editorial. Na esteira da publicação de livros sobre esse período, algumas obras irromperam os lançamentos literários de não-ficção, alcançando rapidamente sucesso de vendas. Três livros sobre as organizações e militantes de grupos políticos que optaram pelas ações armadas ganharam destaque entre esses lançamentos. Os carbonários, de Alfredo Sirkis, foi lançado em janeiro de 1980 pela Global Editoraii. O que é isso companheiro?, de Fernando Gabeira, lançado em 1979 pela Editora Codecri, saiu por uma publicadora independente responsável pela impressão do jornal alternativo Pasquim.iii

A terceira publicação, Lamarca, o capitão da guerrilha, foi lançada em setembro de 1980, pela Global Editora. O livro de autoria dos jornalistas Emiliano José e Oldack Miranda, assim como os de Gabeira e Sirkis, alcançou rápido sucesso de vendas.iv A história do militar que deserdou do Exército para liderar um movimento guerrilheiro contra as Forças Armadas foi recontada sob a perspectiva dos opositores ao regime de terror que se instalou no país desde o golpe de 1964. Até aquele momento, Carlos Lamarca era descrito como um perigoso terrorista que se aliou a um grupo de esquerdistas para assaltar bancos e promover sequestros. Sua morte na “Operação Pajuçara”, em 17 de setembro de 1971, foi comemorada efusivamente pelo governo militar, a ponto de suspenderem a censura sobre ele para que os jornais e as televisões de todo o país pudessem noticiar o grande feito. “Terror morre com Lamarca”, foi a manchete do Jornal da Bahia de 18 de setembro de 1971. Carlos Lamarca e seu companheiro Zequinha Barreto, após uma fuga que durou meses, foram mortos por agentes do estado no Buriti Cristalino, árida região de caatinga no distrito de Pintada – Ipupiara, em pleno sertão da Bahia.

Na esteira do noticiário sobre a caçada ao capitão desertor, a imprensa foi autorizada a divulgar as mortes de Otoniel Campos Barreto e Luís Antônio Santa Bárbara, ocorridas na mesma região ainda em agosto de 1971. Iara Iavelberg, namorada de Lamarca, “suicidou-se” no bairro da Pituba, Salvador, quando a polícia cercou seu apartamento. De acordo com a necrópsia, Iara desferiu um tiro de revolver contra o próprio peito e morreu no local, em 20 de agosto de 1971.v Nilda Carvalho Cunha, um estudante de dezessete anos, detida nessa operação militar, foi levada para o Quartel do Barbalho, o centro de tortura da repressão em Salvador. Viria a falecer três meses depois, em 14 de novembro de 1971 de “edema cerebral a esclarecer”, conforme sua Certidão de Óbito.

Memórias do cárcere

Detalhes desconhecidos da brutalidade cometida pela Operação Pajuçara chegaram até Emiliano José através de conversas com um dos sobreviventes da chacina, Olderico Campos Barreto, irmão de Zequinha e Otoniel Barreto, mortos na ação. Alvejado por um tiro na mão que lhe arrancou um dedo e por uma bala que atravessou seu rosto, Olderico foi preso e levado a um hospital militar em Salvador. Recuperado dos ferimentos, foi mandado para uma cela na Galeria F da Penitenciária Lemos de Brito, onde ficaram detidos a maioria dos presos políticos que cumpriam pena na Bahia. Emiliano era um dos encarcerados nessa galeria. Natural do estado de São Paulo, o ex-militante da Ação Popular (AP), o futuro jornalista havia passado os últimos anos da década de 1960 na clandestinidade, até ser capturado, em 23 de novembro de 1970. Foi espancado na rua e levado para a Superintendência da Polícia Federal, então chefiada pelo coronel Luíz Arthur de Carvalho. De lá, no mesmo dia, foi para o Quartel do Barbalho, o principal centro de torturas em Salvador. Viria a ser condenado pela justiça militar e ficar detido na Galeria F, de onde só sairia, em liberdade condicional, em setembro de 1974.vi

Ao deixar a cadeia, Emiliano iniciou a carreira de jornalista no Jornal da Bahia. Iria depois se enveredar na vida acadêmica como professor na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia durante vinte e cinco anos. As conversas com Olderico Campos Barreto na Galeria F sobre os eventos do Buriti Cristalino, por sua vez, mantiveram-se no radar. Em 1978, alimentou o desejo de produzir uma grande reportagem sobre o massacre no sertão da Bahia e a história do capitão Lamarca. Retomou as conversas com Olderico, já em liberdade, com esse objetivo. Levou o projeto já esboçado, o “nariz de cera” no jargão do jornalismo, e apresentou à experiente repórter Mariluce Moura. Ela leu o conteúdo e sentenciou: “você não tem que desperdiçar isso em uma matéria. Corra atrás e faça um livro”.vii

O desafio de realizar esse trabalho de que exigiria muito fôlego foi inicialmente dividido com a própria Mariluce Moura, uma proposta de coautoria. Ela viajou para a região de Brotas de Macaúbas junto com o fotógrafo Agliberto Lima para colher depoimentos e fotografar a região dos conflitos. Entretanto, o contato com as feridas abertas, o medo das pessoas em dar entrevistas, e o clima geral que tocava no seu íntimo, pesaram no emocional da jornalista. “Eu não aguento isso aqui, quero voltar para Salvador”, disse a Agliberto Limaviii. Ex-Militante da AP, Mariluce Moura foi presa e torturada pela ditadura no começo da década de 1970. Seu marido, Gildo Macedo de Lacerda, também da AP, foi morto sob tortura em outubro de 1973 e até hoje é um dos nomes na extensa lista de mortos e desaparecidos do regime de terror.

Um segundo nome convidado por Emiliano para a coautoria foi a jornalista paulista Mônica Teixeira, que realizou pesquisas e entrevistas em São Paulo, mas não prosseguiu no projeto. “Elas ouviram os choros, os tormentos e as lembranças da ditadura, e não suportaram”, lamentou Emiliano. O terceiro nome que finalmente se firmou na fase final da empreitada foi o jornalista Oldack Miranda. “Ele voltou ao Buriti Cristalino, ouviu gente, e com o grosso do material nós escrevemos o livro. Eu fazia o que posso chamar de ‘copião’, ele trabalhava de novo e assim nós concluímos o livro. Não tivemos dificuldades de trabalhar a quatro mãos”.ix

Oldack Miranda nasceu em Corumbá (MT), mas radicou-se em Minas Gerais ainda na juventude. Em 1968, quando cursava o último ano de Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), já integrante da AP, entrou para clandestinidade. Por orientação da sua organização, integrou-se à produção na Mata do Jaíba (MG), e de lá é mandado para o Vale do Pindaré-Mirim, no Maranhão. Ainda clandestino, veio para Salvador em 1971, onde os pais haviam fixado residência, até decidir voluntariamente se apresentar à prisão e foi cumprir uma sentença de seis meses na Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora. Havia sido condenado à revelia em 1968.

Após libertado, Oldack voltou a Salvador em 1972 e foi ter sua primeira atividade como jornalista no Tribuna da Bahia. Estava para se transferir para o Jornal da Bahia quando foi preso em uma operação para destruir com requintes de crueldade um importante núcleo da AP na Bahia, que resultou em sete assassinatos de dirigentes da organização. Entre os mortos, Gildo Macedo de Lacerda. Oldack passou por torturas no Quartel de Barbalho., onde ficou preso de outubro de 1973 a março de 1974, até receber liberdade condicional. Depois de uma rápida experiência como escriturário, voltou ao jornalismo, desta vez para trabalhar no Jornal da Bahia. Devido à luta empreendida pelo Sindicato dos Jornalistas da Bahia em meados da década para profissionalizar as redações da imprensa na Bahia, tanto Oldack quanto Emiliano tiveram que voltar às bancas escolares, para fazer jornalismo na então Escola de Biblioteconomia e Comunicação da UFBA, atual Facom. Ingressaram em 1976 e de lá saíram em 1978, com os diplomas de bacharéis em jornalismo.x

Lamarca, vivo ou morto

Um capitão condecorado do Exército brasileiro que abandonou a corporação e se transformou em um dos quadros mais combativos dos grupos guerrilheiros. Esse enredo era conhecido em recortes pelos opositores da ditadura, mas quase nada se sabia da fuga de Lamarca para o sertão baiano, e nem da operação que culminou com a chacina do líder revolucionário no Buriti Cristalino. As ações revolucionárias comandadas por Carlos Lamarca nas barbas dos generais constrangeram do governo militar e resultaram em uma única certeza para: era preciso capturar o capitão da guerrilha vivo ou morto.

Não foram poucas as vezes em que Lamarca e sua organização, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), feriram de morte o orgulho das hordas militares. Entre as ações conduzidas por ele, as expropriações em vários bancos, o assalto a um paiol onde estava depositado um um arsenal de guerra do 4º Batalhão de Infantaria Blindado, em Quitaúna - Osasco (SP), o sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, trocado pela libertação de setenta presos políticos, e o treinamento de guerrilheiros em pleno Vale do Ribeira, interior de São Paulo.

O período pós decretação do AI-5, que deu início ao período mais sangrento da ditadura, foi também a fase em que se consolidou a maior quantidade de organizações de esquerda que optaram pelo conflito armado para enfrentar a repressão fascista. Através da leitura de Lamarca, o capitão da guerrilha, é possível conhecer o funcionamento, os conflitos e as precariedades em sustentar a escolha do caminho mais extremo para derrotar a ditadura brasileira. A opção de Lamarca em enviar a esposa, Maria Pavan, junto com os filhos, para Cuba, quando decidiu pela luta armada, o envolvimento amoroso com Iara Iavelberg, uma jovem aristocrática judia que aderiu à guerra revolucionária, conheceu e se apaixonou por Lamarca, são alguns dos aspectos retratados pelos autores. O lado humano dos conflitos vividos pelos personagens centrais faz de Lamarca, o capitão da guerrilha ser mais que uma análise histórica e política de um dos conflitos mais atrozes dos anos de chumbo.

O livro é também uma reflexão sobre escolhas, incertezas e os sonhos de uma geração que ousou pegar em armas contra um poder com alto poder bélico, bem estruturado e disposto a rasgar tratados internacionais para garantir a manutenção do regime. A guerra revolucionária contra as Forças Armadas militar brasileiras, aos olhos de hoje, pode ser vista como uma opção suicida pelos analistas da nossa ditadura, mas para quem decidiu trilhar esse caminho, não era insanidade imaginar ser uma opção viável para frear um governo que espalhou o terror contra a oposição, mesmo a que protestava por meios pacíficos.

Companheiro na vida, companheiro na morte

O deslocamento de Lamarca para uma região inóspita, em plena caatinga no interior da Bahia, não foi obra do acaso, nem tampouco pode ser dito que foi planejada. Embora, em discurso, aventava-se a hipótese de que seu propósito era o de organizar uma resistência à ditadura através de uma guerrilha rural.xi Em entrevista concedida a mim, Emiliano José opinou que a ida para o Buriti Cristalino funcionou como uma tentativa frustrada de fugir ao cerco que comprimia o entorno, e era questão de tempo a captura do inimigo mais procurado da ditadura. O número cada vez maior de militantes que caíram, torturados ou mortos pela repressão, tinha um propósito definido: descobrir o paradeiro do capitão que "traiu a farda".

Lamarca recusou todas as propostas de deixar o país, e permanecer no Sudeste era o mesmo que assinar uma sentença de morte. A opção por se embrenhar no interior do Brasil supostamente e quem sabe fortalecer uma proposta de organização da luta popular a partir do campo, caiu como uma luva com a adesão de José Campos Barreto à empreitada.

Zequinha Barreto, como era conhecido, está longe de ser um mero coadjuvante na cronografia dos conflitos que culminaram com sua morte e as de Lamarca, Otoniel Barreto e Luíz Antônio Santa Bárbara pela Operação Pajuçara. Apesar de sua trajetória ser pouco conhecida na Bahia, Zequinha Barreto tem sido estudado por pesquisadores de São Paulo, sobretudo em Osasco, cidade onde despontou como líder estudantil, operário e guerrilheiro.xii Filho mais velho de José Araújo Barreto, ele nasceu em Brotas de Macaúbas, em 2 de outubro de 1946. Aos doze anos, por desejo da família, fez uma passagem pelo seminário, mas desistiu de seguir a vida religiosa e, em 1964, mudou-se para Osasco. Fez o serviço militar no quartel de Quitaúna, o mesmo onde Lamarca era capitão. Não foi nesse momento que trilharam juntos.

Os movimentos estudantis e operários em Osasco fervilhavam em lideranças no ano 1968 e no comando dos protestos contra a ditadura despontou o nome de José Campos Barreto. O vigor de sua liderança iria eclodir no epicentro da capital paulista, durante as comemorações oficiais do 1º de maio daquele ano, na frente da Catedral da Sé, quando um grupo de estudantes invadiu o palanque oficial, expulsou as autoridades e tomou o microfone. E o líder do protesto que fez o discurso mais inflamado foi o sertanejo baiano de Brotas de Macaúbas.

Apontar Zequinha Barreto como um dos principais mentores desse episódio não se trata de exagero ou inflar sua memória nos acontecimentos no ano que alterou o curso da história brasileira. Os relatos dos seus companheiros de militância, o noticiário da imprensa paulista, e até nos documentos secretos do Serviço Nacional de Informação (SNI), corroboram essa análise. Em meio a uma chuva de paus e pedras, destruíram o palanque oficial do governo e sindicatos pelegos, e puseram em fuga o governador do estado, Roberto Abreu Sodré.

Depois de rápidos discursos contra a ditadura em meio ao tumulto, seguiram em passeata pelas ruas do centro de São Paulo. Estudantes e operários eufóricos, a maior parte vinda de Osasco, marcharam para a Praça da República, onde o orador principal, Zequinha Barreto, conclamou os manifestantes a pegarem em armas para enfrentarem a ditadura. De acordo com Márcio Amêndola de Oliveira, autor de “Zequinha Barreto: um jovem revolucionário na guerra contra a ditadura”, ele teria confidenciado a um amigo, Jesse Navarro: “nós temos que partir para a luta armada. A justa violência do oprimido contra a violência do opressor”.xiii

Terror no Buriti Cristalino

O caminho para a luta armada viria se abrir após o 1º de Maio de 1968. Àquela altura, os contatos com lideranças de organizações revolucionárias passaram a ser constantes. A eclosão da greve operária em Osasco, em julho de 1968, o maior movimento paredista durante a ditadura militar, colocou de vez o esquerdista baiano nos holofotes não só dos militares, mas dos líderes revolucionários. Queriam vê-lo entre os seus quadros. A greve que paralisou indústrias em uma das maiores cidades operárias paulistas foi liderada por ele. Os operários ocuparam a fábrica da Cobrasma, sob o comando de Zequinha Barreto, que teve seu rosto estampado no jornal Folha de S. Paulo quando a polícia invadiu e prendeu os trabalhadores.xiv

Em 17 de julho, Barreto foi preso e conduzido ao Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS), onde passaria por sessões de espancamento e torturas. As denúncias dos maus tratos sofridos por ele, entretanto, mobilizaram a sociedade civil e até a Igreja Católica fez saber seu inconformismo com os relatos. Uma comissão liderada por deputados federais visitou-o para verificar suas condições físicas, e outras organizações da sociedade civil pediram sua liberdade, até que, em 27 de setembro de 1968, o ministro do Supremo Tribunal Militar, Peri Bevilaqua, derrubou o enquadramento do prisioneiro na Lei de Segurança Nacional, e determinou sua libertação.

A soltura de Barreto viria a ser execrada pela cúpula militar e tudo indicava que seria preso novamente.xv Solto, ele estava consciente de que os caminhos da resistência na legalidade estavam fechados em definitivo. Correndo o risco de cair novamente nas mãos dos seus algozes, ele entrou de vez na clandestinidade e aderiu à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a organização comandada por Lamarca. Depois de circular entre São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, Zequinha Barreto, que nessa caminhada trocaria a VPR pelo MR-8, retornou ao Buriti Cristalino como um projeto de guerrilha rural na cabeça. Contou com a adesão dos irmãos Otoniel e Olderico, e do professor Luiz Antônio Santa Bárbara. É no contexto dessa precária base de apoio e um projeto de luta a partir do campo que a o grupo de Lamarca decide por sua ida para o Buriti Cristalino. Naquele momento, o capitão guerrilheiro havia saído da VPR e também pretendia ingressar no MR-8.

A chegada de Carlos Lamarca, bem como a ideia acalentada pelos irmãos Barreto de organizar a resistência à ditadura no Buriti Cristalino, evidenciaram a precariedade das estratégias adotadas. O próprio Emiliano José, em entrevistas concedidas a mim, reforçou essa tese, que também expôs em Lamarca, o capitão da guerrilha. A movimentação de pessoas estranhas ao lugar, como Lamarca e Santa Barbara, o regresso repentino de Zequinha para a região, e a campanha massiva no rádio e na TV que incitava a população contra os inimigos da ditadura, fragilizavam a segurança de todos eles. Isso não tardou se revelar, notadamente a partir das prisões e torturas dos militantes que participaram da operação de ocultação de Lamarca no sertão. A “área de recuo”, expressão equivocada que se referia à Bahia como zona livre de monitoramento pela repressão, cairia por terra rapidamente com a descoberta do foco de guerrilha que se montava no Buriti Cristalino. E com a presença de Lamarca, naquele momento a cabeça mais valiosa da repressão, o sonho de captura de todos os delegados torturadores.

Não à toa, quem se deslocou para a região de Brotas do Macaúba foi o delegado Sérgio Paranhos Fleury. A ferocidade das ações comandada por um dos principais torturadores da ditadura deixou um rastro de mortes e violências generalizadas que atingiram principalmente a família Barreto. Inclusive o pai, José Araújo Barreto, torturado para confessar onde estavam escondidos Zequinha e Lamarca. Fleury acabou fracassando no seu objetivo principal de prender ou matar o capitão desertor e seu companheiro. Em seu lugar, foi designado para a região do Buriti Cristalino o major alagoano Nilton Cerqueira, que empreendeu a caçada final que ele batizou de “Operação Pajuçara”, em homenagem à famosa praia de Maceió.

Detalhes da operação que revelam a obstinação quase obcecada dos militares foram trazidos no requerimento de indenização dos advogados de Maria Pavan, viúva de Lamarca, apresentado à Comissão dos Mortos e Desaparecidos, em 1996.xvi Levantaram o número de agentes deslocado para o Buriti Cristalino: 102 militares, dos quais 16 eram oficiais, 59 praças e 27 agentes dos quarteis de Salvador, alguns elementos da PM da Bahia e até um motorista da Petrobras, todos sob o comando da 6ª Região Militar, sediados na capital baiana. Ainda de acordo com o documento, elementos de outros estados deram apoio logístico ao cerco militar, da CIE, CENIMAR. DOI e PARASAR. Entre oficiais, praças e investigadores, foram mais de 111 elementos arrolados para prender ou matar dois homens, fechando a conta em 213 militares e paramilitares engajados na Operação Pajuçara.

O cerco final comandado pelo major Cerqueira terminou na execução de José Campos Barreto e Carlos Lamarca, em 17 de setembro de 1971, dois homens abatidos fisicamente por vários dias de caminhadas no meio do sertão, famintos, desidratados e sem poder de reação. Alvejá-los e matá-los em campo sempre foi o projeto dos seus perseguidores, que tirou do major Nilton Cerqueira a frase de regozijo e bairrismo: “Alagoano é foda!”.

No relatório reservado da Operação Pajuçara produzido pelas forças de segurança, utilizado pelos advogados de Maria Pavan para justificar o pedido de indenização pela morte de Lamarca, executado quando já estava dominado por agentes públicos, a cronologia das ações foi descrita de forma crua, desde a montagem das campanas, do terror provocado contra moradores locais, as informações sobre o paradeiro dos fugitivos conseguidas por recompensa, até o embate final. A caçada definitiva começou em 5 de setembro, no meio da caatinga, a partir de informações passadas por um sertanejo que avistou os perseguidos na mata. O primeiro a avistar os dois foi um motorista apelidado de “Fumanchu”. Estavam exaustos descansando sob uma arvore seca. Surpreendido pela chegada dos agentes, Zequinha Barbosa teria reagido com um grito de alerta:

- Capitão, os homens estão aí!

Zequinha ainda se levantou e tentou correr, sendo alvejado a 15 metros de distância dos seus algozes. Já ferido mortalmente, voltou-se contra os atiradores arremessando uma pedra, e recebe nova rajada de tiros disparada por metralhadoras. Antes do suspiro derradeiro, proferiu sua última frase:

- Abaixo a ditadura!

Lamarca, já ferido, agonizava no mesmo local onde recebeu os tiros. Um comandante do DOI, cujo nome o relatório não menciona, chegou ao local com a cena mórbida consolidada, e encontra o capitão guerrilheiro ainda vivo, e quer se certificar de que se trata mesmo do inimigo numero um da ditadura:

- Você é Lamarca? – Não ouviu uma resposta. Tirou uma foto do bolso, mostrou e repetiu a pergunta.

- Sim, eu sou Lamarca! – respondeu.

- Como é o nome da sua amante?

- Iara.

- Sabe o que aconteceu com ela?

- Suicidou-se, não é?

- Morreu. Onde está sua família?

- Em Cuba.

- O que você acha disso?

- Sei quando perco.

- Você é traidor do Exército brasileiro!

A partir daí, nenhuma resposta mais se ouviu. Lamarca morreu às 15 horas e 40 minutos de 17 de setembro de 1971. Era uma sexta-feira.

Terroristas na imprensa, heróis na literatura e no cinema

Com o sucesso da Operação Pajuçara, o governo fez questão de comemorar o feito. Permitiram que os corpos desfalecidos na caatinga fossem fotografados e depois no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador. Suspenderam a censura aos jornais para permitir a cobertura da imprensa, sem abrir mão do controle das narrativas: deveriam ser tratados como terroristas. Além das mortes em Pintadas, a imprensa noticiou os demais nomes dos guerrilheiros executados quase um mês antes: Iara Iavelberg, Luiz Antônio Santa Barbara e Otoniel Campos Barreto. Nilda Cunha, capturada e torturada no apartamento da Pituba em que Iara foi assassinada, morreu em consequência da violência a que fora submetida em novembro de 1971. O único guerrilheiro ferido a sobreviver na operação, Olderico Campos Barreto, teve sua foto estampada nos jornais, em uma cama de hospital militar. Iria depois ser condenado à prisão, e levado para a Penitenciária Lemos de Brito em Salvador. Na condição de preso político, se juntou aos demais presos da Galeria F.

A jornalista Mariluce Moura, que cobriu in loco o episódio para o Jornal da Bahia e outros veículos nacionais, revelou o motivo da titulação dada às suas reportagens. “Terror morre com Lamarca”, sua matéria de capa do dia 18 de setembro de 1971. Segundo ela, o termo foi uma imposição dos editores do jornal, mas era a única forma das matérias serem publicadas. Outros jornais baianos que também enviaram repórteres para o Buriti Cristalino seguiram a mesma cartilha. O armistício da censura, entretanto, cessaria rapidamente, cinco dias depois o ocorrido. Um comunicado presidencial mandou suspender qualquer menção aos mortos, “para não alimentar o mito”.

Quase dez anos depois, a história é contada por outro viés no livro de Emiliano José e Oldack Miranda. O sucesso editorial foi imediato. Em pouco mais de um ano, cinco edições foram publicadas esgotadas. No mês do lançamento, setembro de 1980, entrou na lista dos mais vendidos da revista Veja, na categoria de Não-ficção, na época o melhor termômetro para monitorar sucessos editoriais em livros publicados no Brasil. O livro chegou a provocar a elaboração de um relatório reservado do Exército, que analisou ponto a ponto o texto de Lamarca, o capitão da guerrilha, oferecendo as posições dos militares ao conteúdo da publicação.

Em 1994, o diretor de cinema Sergio Rezende lançou a versão cinematográfica da história, baseada no livro. Com um elenco de atores consagrados no cinema e na televisão, o filme teve Paulo Betti no papel de Lamarca e Carla Camurati com Iara. Dez anos antes, o documentarista baiano Edgar Navarro havia lançado o curta-metragem “Portal de fogo”, que foi impedido de ser exibido pela ditadura, e só estrearia em 1985.

As reedições do livro permitiram aos autores revisarem informações que precisavam ser corrigidas à medida que novos elementos eram revelados. Se consideramos que, quando veio a público, os documentos mais sensíveis das operações conduzidas pela órgãos de repressão estavam em absoluto sigilo e boa parte das pessoas que testemunharam ou viveram os episódios no entorno da história preferiam calar-se, as incorreções de Lamarca, o capitão da guerrilha foram poucas. Um dos poucos relatos sobre os quais os autores se empenharam em revisar foi a morte de Iara, cuja teoria do suicídio foi desmontada por relatórios de legistas e depoimentos que apontaram o que de fato ocorreu: ela foi morta por um tiro fatal no meio do peito dentro do apartamento no bairro da Pituba.

O livro também percorreu outro circuito paralelo ao sucesso editorial e no cinema: sua interação com o campo dos pesquisadores em História. Quando um jornalista escreve sobre eventos do passado cuja importância para o presente vivido interfere o entendimento que se forma sobre nuanças desse passado, não são poucos estudiosos, que poderíamos chamar de Historiadores de Ofício, que olham com descrença para o que esse jornalista escreve. Historiadores como Vavy Pacheco Borges e Benito Bisso Schmidt externaram suas críticas em artigos publicados nos anos 1990. Chegam a dizer que o jornalista não presta contas ao “Tribunal da História”, por não se preocupar em demarcar cada informação apresentada em seus textos, para conferir veracidade ao que foi dito. Outra expressão citada como se fosse vício estilístico é “fluxo de consciência”, quando o autor, para conferir plasticidade à trama, constrói reflexões em nome do personagem, falas nunca de fato ditas.

Ao escrever Lamarca, o capitão da guerrilha, os autores optaram por deixar a narrativa fluir. “O texto se bastava”, disse-me Emiliano José. Não se vê notas de rodapés que expliquem de onde tal informação foi colhida, ao não ser quando nominalmente citada dentro do próprio texto. O risco que corriam os autores era o de serem desmentidos ou desacreditados por outros pesquisadores ou indivíduos que, citados no livro, contestassem suas falas ou suas afirmações. Tais defecções não se verificaram ao longo desses quarenta e cinco anos do lançamento. Até mesmo temas sensíveis como a formação, as crises e derrocadas das organizações revolucionárias que combateram a ditadura militar, não observei em dezenas de livros, artigos e opiniões publicadas por diversos pesquisadores o apontamento de erros factuais dos autores. Ao contrário disso, o livro Lamarca, o capitão da guerrilha construiu uma sólida carreira de citações quando estudiosos se debruçaram sobre a ditadura militar, particularmente na luta direta contra os movimentos armados. O livro de Emiliano José e Oldack Miranda, inclusive, tem ao menos dois estudos acadêmicos voltando exclusivamente para analisar a obra e como os autores construíram suas narrativas. Provas de um salvo conduto tácito, sem dizer ou assumir, que a obra conquistou sua vitória nesse “Tribunal da História”.

Everaldo de Jesus é jornalista, mestre em História pela UNEB e doutorando em História pela UFBA.

Notas:

i O massacre dos dirigente do PCB na Operação Radar (1974-1974), a morte de Wladimir Herzog (1975), e de Manuel Fiel Filho (1976), das dependências do DOI-CODI, e a Chacina da Lapa (1976), são alguns episódios que demonstraram a face perversa dos anos Geisel, que descredibilizaram seu compromisso com distensão política.

ii Os Carbonários conta a trajetória do autor como militante de esquerda, desde os movimentos estudantis de 1968, a experiência da luta armada vivida dentro do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8), o exílio europeu e o retorno ao Brasil. Sirkis revisou não apenas sua participação na luta contra a ditadura, até sua autocrítica à opção pela via guerrilheira para derrubar o regime militar.

iii O livro alcançou sucesso imediato por relatar um dos episódios mais emblemáticos da luta armada contra a ditadura: o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, em uma ação conjunta do MR-8, no qual militava Gabeira, com a ALN, de Carlos Marighela. Elbrick foi libertado em troca da libertação de quinze presos políticos. O que é isso companheiro? Ganharia versão cinematográfica em 1998. O livro, por sua vez, chegou a impressionantes quarenta e quatro edições.

iv O livro de Emiliano José e Oldack Miranda ficou mais de um ano na lista “Os mais vendidos” publicada pela revista Veja, que foi por décadas o principal termômetro do sucesso de vendas de livros no Brasil de ficção e não-ficção.

v Em 22 de setembro de 1971, a censura voltaria a ser imposta ao episódio, em comunicado aos órgãos de imprensa: “Por determinação do presidente da República, qualquer publicação sobre Carlos Lamarca fica encerrada a partir da presente, em todo o país. Esclareço que qualquer referência favorecerá a criação de mito ou deturpação, propiciando imagem de mártir que prejudicará interesses da segurança nacional”.

vi Emiliano José escreveu sobre sua prisão, torturas e condenação pela ditadura no primeiro capítulo de Galeria F – Lembranças do mar cinzento – Vol. I (São Paulo: Casa Amarela, 2000). Aprofundou-se em sua autobiografia O cão morde a noite (Salvador: Edufba, 2020), onde relata sua história de militante da AP, a experiência da prisão e sua militância política antes e depois da ditadura militar.

vii Conforme depoimento dado ao autor, em setembro de 2017. A entrevista completa está disponível no YouTube no link https://youtu.be/CGttycobDTg?si=C3HFIFENGUmnPH8N.

viii Conforme depoimento de Mariluce Moura ao autor, em novembro de 2025.

ix Entrevista concedida ao autor, em setembro de 2017.

x Informações sobre Oldack Miranda extraídas da apresentação dos autores no livro Lamarca: o capitão da guerrilha e os artigos publicados por Emiliano José originalmente no Facebook e reproduzidos no site político Pilha Pura (disponível em https://pilhapuradejoaninha.blogspot.com/2020/03/memoriasjornalismoemiliano-oldack-de.html. Acesso em 10 de novembro de 2025, às 09h39min)

xi

xii O movimento sindical de Osasco mantém na cidade o Instituto Socialismo e Democracia Zequinha Barreto, voltado à formação política e à memória das lutas sindicais e da história do militante baiano. Ainda em Osasco

xiii Conforme o autor do citado livro, publicado pela Editora Expressão Popular, em 2010, página 42.

xiv Em depoimento dado à Folha de S. Paulo em 1968, Jarbas Passarinho, ex-ministro do Trabalho à época teria disse que “a greve de Osasco, por sua gravidade e violência, fora um dos fatores determinantes na edição do Ato Institucional nº 5” (conforme trecho do livro de Márcio Amêndola de Oliveira, já mencionado, p. 50).

xv O ministro Peri Bevilaqua, de acordo com Renato Lemos, em Justiça fardada (Editora Bom Texto, 2004), libertou vários outros presos famosos, como Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes, e viria ser punido com aposentadoria desonrosa pelo Supremo Tribunal Militar.

xvi O documento pode ser visto no site do Arquivo Nacional, no endereço http://sian.an.gov.br.