Estante

Cultura do Silêncio e Democracia no BrasilEm seu novo livro, Cultura do Silêncio e Democracia no Brasil (Brasília, Editora UNB, 2015), Venício Lima assinala na apresentação que todos os textos selecionados para o livro, escritos nos últimos 35 anos, “contemplam uma preocupação comum – a questão da comunicação social (mídia) na sociedade brasileira” (p.9). Gostaria de propor que o interessante livro talvez fosse (também) lido por meio de outro enquadramento: o imbricamento atual e umbilical, sempre afirmado pelo autor, entre comunicação e política na democracia contemporânea. Aliás, o próprio autor, em parceria com Juarez Guimarães, escreve em outro texto emblemático: “Não se trata de pensar as relações entre política e comunicação, mas do desafio de construir um campo de pensamento no qual a própria política e a comunicação mútua e geneticamente se constituem em seus conceitos fundamentais” (p.340). A sugestão, portanto, é que o perspicaz pensamento de Venício Lima, expresso no livro síntese Cultura do Silêncio e Democracia no Brasil, se conforma tendo como “princípio organizador (...) a relação fundante e incontornável entre política e comunicação” (p.341), acionada sempre em sintonia fina com a questão da realização da democracia no mundo e no Brasil contemporâneos.

Esse eixo estruturante elucida a presença de textos sobre autores como Paulo Freire e Stuart Hall, tão caros à formação do pensamento de Venício Lima. Neles, a atenção com a comunicação está estritamente associada à política e à democracia. A comunicação dialógica de Paulo Freire conjuga comunicação, política e democracia na realização da educação como prática da liberdade. A diversidade de leituras das mensagens da mídia, a produção social das notícias e a comunicação como campo não autônomo de conhecimento, presentes nos estudos de comunicação iniciais da produção de Stuart Hall, também não podem ser lidas sem remissão à política e à democracia.

Tal horizonte se expressa de modo mais visível na produção diretamente associada à comunicação política e às políticas de comunicação. Venício Lima, não resta dúvida, é um dos principais pensadores brasileiros nos estudos de comunicação e política. Seus conceitos de cenários de representação (CR) e de cenário de representação da política (CR-P) são instigantes e ensejaram diversos estudos relevantes do autor e de outros pesquisadores. Suas inúmeras análises e intervenções na esfera das políticas de comunicação têm elucidado e trazido ao debate público, de modo corajoso, temas essenciais ao aprofundamento da democracia no Brasil.

Cabe anotar outra dimensão constitutiva da obra e mesmo da atuação de Venício Lima. O livro expressa não só seu consistente e criativo pensamento acerca das imanentes conexões que acolhem democracia, comunicação e política. Ele transpira envolvimento com os temas. Envolvimento vinculado não apenas ao profundo conhecimento das temáticas, mas traduzido igualmente em intensa militância democrática. O conhecimento elaborado visa não apenas o público acadêmico, mas busca dialogar com a cidadania e mobilizá-la para questões vitais do mundo e da democracia contemporânea. Não, por acaso, constam do livro suas rigorosas intervenções políticas e comunicacionais, que participam ativamente do debate na sociedade. Destaque para sua valiosa contribuição às discussões acerca das distintas, mas conectadas, liberdades de expressão e de imprensa.

O livro síntese, que reúne produção selecionada pelo próprio autor, constitui-se em um verdadeiro presente para os estudiosos do tema da democracia contemporânea e, mais especificamente, da comunicação e política e das políticas de comunicação. Ele se configura como livro fundamental para todos aqueles que estão interessados nestas temáticas, seja no ambiente acadêmico, na sociedade política, na sociedade civil e no mundo da vida.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador do CNPq e do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura e professor do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA