Estante

Imprensa e Poder"Quem pode, pode; quem não pode desaparece" - disse o presidente Fernando Henrique Cardoso, três dias após ganhar na Câmara dos Deputados o direito a uma nova candidatura em 1998. A declaração, veiculada nos telejornais, tinha endereço certo: os segmentos sociais brasileiros, entre eles os detentores dos meios de comunicação, poderiam, pelo menos por um bom tempo, respirar aliviados, já que, após mais de uma década de tentativas, o projeto neoliberal conseguira um porto seguro em suas mãos.

Esses segmentos abraçaram anteriormente o mesmo projeto oferecido por um outro Fernando, o Collor, mas este mostrou-se trapalhão demais, ou ganancioso de maneira exagerada para os padrões normais de qualquer governo.

Poucos anos depois, no entanto, os principais veículos de comunicação não se intimidaram e mostraram novamente sua preferência por um dos candidatos. Desta vez, o escolhido era FHC, um respeitável sociólogo, então ministro da Fazenda. Portador de um plano de estabilização econômica, esse candidato faria a vez do ex-caçador de marajás.

Tudo isso é óbvio para quem acompanha a evolução neoliberal, mas não é tão evidente assim para quem não acompanha atentamente essas chatices que acabam por atingir a maioria: os noticiários televisivos e os programas dominicais. Por exemplo, no dia 2 de fevereiro, o texto do programa Semana do Presidente, veiculado durante as tardes do Domingo Legal, chamou FHC três vezes de querido presidente, e após noticiar que ele havia conseguido uma vitória há tanto almejada, encerrou angelicamente dizendo "Feliz a Nação cujo Deus é o Senhor".

Assim, definitivamente, não dá. Haja coração e perplexidade para segurar tamanha cara-de-pau. Por conta disso, alguns jornalistas resolvem, então, tentar entender e explicar para outros da profissão, para os agentes da notícia e para aqueles que pensam em galgar as escadarias da imprensa nacional, como se dá essa relação entre imprensa e poder. Foi essa a tarefa à qual se dedicou Emiliano José, autor, entre outros livros, de Lamarca, o Capitão da Guerrilha.

Para explicar como agem os veículos de comunicação, seja por meio de seus editoriais - nos quais a grande maioria realmente diz o que pensa e quer - ou por meio de suas reportagens, Emiliano analisou em Imprensa e Poder: ligações perigosas o comportamento de jornais e, principalmente, das revistas de maior circulação no país, Veja e IstoÉ desde o período que antecedeu as eleições de 1989, dando ênfase aos fatores que provocaram a instalação de duas comissões parlamentares de inquérito: a de PC Farias e a do orçamento.

O livro originou-se há dois anos de uma dissertação de mestrado na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia; depois, o autor, partiu para o doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Militante da Ação Popular, Emiliano José participou do movimento estudantil nos anos 60 e somente em 1974 voltou-se ao jornalismo. Ter sido deputado estadual (1988/1990) facilitou ainda mais a objetividade da análise que mostra a confusão ideológica que alguns setores da imprensa gostam de deixar transparecer para parecerem democráticos - e quase sempre conseguem
seu intento.

Ainda em sua apresentação, Emiliano lembra que, apesar de o jornalista ter um mandato da sociedade para bem informar, a mesma sociedade transforma a informação em mercadoria, tornando assim o espaço jornalístico em contradição. Assim, é balela imaginar que há uma conspiração dos donos de jornais pela complacência do jornalismo perante o poder. Ao ler a obra e, principalmente, as entrevistas com jornalistas que cobriram o período compreendido entre 1989-1992, chega-se à impressão de que é preciso partir de vários pontos de vista para concluir que, no caso brasileiro, como alerta Emiliano, há um código de comunicação envolvendo patrões e empregados e, com certeza, o nosso jornalismo é típico de sociedades subdesenvolvidas.

Emiliano mostra, por exemplo, a desconfiança de IstoÉ sobre Collor desde sua campanha eleitoral, mas por quê? O candidato preferencial do dono da revista era Orestes Quércia, e esse estava fora do páreo. Os jornalistas dessa revista tiveram, então, a oportunidade de trabalhar com mais liberdade. Mostra que Veja colocou-se declaradamente a favor de Collor e trabalhou intensamente desde sua gestão no governo de Alagoas para que ele viesse a ser presidente. Relata, por meio de entrevistas com grandes nomes do jornalismo brasileiro e estudiosos da área de comunicação, os motivos que levaram Pedro Collor a escolher a Veja para sua denúncia contra o próprio irmão; paralelamente, não deixa de destacar os profissionais que, mesmo com a falta de liberdade de imprensa, exercem com competência seu trabalho. Destaca a comodidade jornalística proporcionada por fontes seguras versus jornalismo investigativo; os limites da ética e a faceta dos meios de comunicação que se autoproclamam responsáveis diretos pela ação parlamentar. Ele lembra a autocrítica da imprensa - revelada pouco antes da queda de Collor - pelo exagero com que cobriu todas as etapas heróicas do ex-presidente; autocrítica que deixa claro, porém, que Lula, jamais...

O erro era anterior, não haviam procurado com mais afinco, junto com outros setores das classes dominantes, um candidato mais confiável. Após a queda, os meios de comunicação deixam claro que Itamar Franco deveria prosseguir no projeto de modernização, via privatizações, diminuição do Estado e tudo o mais que, agora, FHC aplica com um intelecto um pouco mais privilegiado. Daí, percebe-se o porquê da necessidade de os veículos desejarem mais quatro, ou, quem sabe, mais oito anos para FHC. É um sujeito confiável e, oriundo das lutas democráticas, pode, em vez de mandar uma banana com aquele gesto famoso de Collor aos seus adversários, responder aos seus opositores, aparentando uma arrogância imperial, que tudo o que fará daqui para a frente será mesmo com o objetivo de reeleger-se. FHC terá - ele tem absoluta certeza disso - o apoio e a companhia de repórteres eufóricos em cumprir o que tem sido há anos o desejo de seus patrões.

Depois disso, resta ao leitor um pouco mais criterioso apenas os textos bem escritos de alguns articulistas que têm a saudável tarefa de garantir imparcialidade aos seus veículos, tornando-os democráticos perante seu público. Mas que não deixam de ser, porém, um alento aos que acompanham assiduamente o noticiário político. Ler o trabalho de Emiliano José é cumprir objetivamente a recomendação: é conhecendo o passado que se entende o presente para, conseqüentemente, preparar o futuro. O passado nunca foi tão presente assim, pelo menos no que se refere ao jornalismo nacional, em especial, à reportagem. Se ele realmente havia aprendido alguma coisa de útil com o vexame Collor/PC, fez questão de esquecer e quer passar a impressão de que outros setores também esqueceram. Talvez, daqui a alguns meses, se prevalecer o desejo do mais respeitável profissional da imprensa, Barbosa Lima Sobrinho, e dependendo do andar da carruagem (ou seja, da pressão popular, como no caso pró impeachment), o jornalismo veja-se obrigado a cobrar uma CPI para investigar os motivos que levaram tantos deputados a mudar seu voto durante a aprovação da reeleição. E, como em outros relatos já conhecidos sobre a imprensa nacional - Razão de Viver (Samuel Wainer), Regra do Jogo (Cláudio Abramo), Chatô (Fernando Morais), e tantos outros - Emiliano José tenta mostrar como funciona a relação que Roberto Cardoso Alves explicou com tanta competência: "é dando que se recebe".

Quantas novas concessões de rádio e TV foram entregues por Sérgio Motta na semana de votação da reeleição? Pode ser que esse capítulo já esteja sendo escrito para se somar à história da relação imprensa-poder, ou ainda, sobre o poder da imprensa nacional.

Myrian Luiz Alves é jornalista.