Estante

Um único livro. O Leopardo. Edição de capa dura, da Abril Cultural, de 1979.

Bastou.

O Príncipe de Lampedusa tornou-se eterno. Nasce em Palermo, o Príncipe. No final do século XIX, 1896. Giuseppe Tomasi morre em Roma, no ano de 1957.

Oriundo de família rica, poderosa. Da aristocracia siciliana. Viajou muito. Viveu em Londres e em Paris.

A vida dele, não obstante, maior parte, transcorreu na aldeia. No palácio dos antepassados, em Palermo. Esse palácio de sonhos e memórias e vida foi o cenário do livro, do notável O Leopardo.

O príncipe de Lampedusa remonta à história da Itália, desde pelo menos o final do século XVIII, incluindo a ofensiva de Garibaldi.

Não se quer, por imprudente numa leitura aligeirada, discutir aquela história.

Foi uma releitura minha, atraído novamente pelo livro, tal a grandeza, a qualidade dele.

Quem pretender entrar no mundo de culturas em decadência, observar novos mundos surgindo, e ao mesmo tempo vendo a velha cultura impregnar-se em meio ao universo emergente, deve procurar o Príncipe de Lampedusa.

É fascinante o percurso, a sabedoria, a cultura, a autoridade moral, o senso de humor, a ironia fina do príncipe Fabrizio Salina, um homem do passado, de olhos atentos ao entorno, a desconfiar, porque leitor tem esse privilégio, tudo isso tenha muito de autobiográfico.

Afinal, tudo extraído do próprio chão, do áspero e belo chão onde viveu Lampedusa, o Príncipe.

O protagonista do belíssimo romance, nosso príncipe Salina, entrega-se à lírica contemplação da ruína da classe a que ele próprio pertence, da decomposição lenta do patrimônio erguido por incontáveis anos, sem dar qualquer passo para evitar o desenlace dessa tragédia, até por impossibilidade.

Com certa ironia, vê o mundo desabar, lentamente. O mundo dele indo ao chão.

A literatura nasce da vida, e quando consegue revelar a existência com elegância, leveza, a evidenciar, ainda, um conhecimento enciclopédico, como no caso do autor, nos toma por completo, como me tomou nessa minha chamada releitura, sempre uma leitura renovada.

Lendo, caminhando por entre salões luxuosos, aristocráticos, à sombra da autoridade do príncipe Salina, fascinante, inebriado diante de tanta cultura e beleza, me vi, na releitura, nessa leitura, inteiramente envolvido por aquele ambiente, levado àquele tempo, senti um estranho prazer de estar ali.

Tempo da aristocracia, com todos os males dela.

Tempo de muita exploração e opressão, e isso não deixa de ser revelado pela pena sutil, elegante, rica de Lampedusa.

Tão envolvente, no entanto, tão delicada e densa a narrativa, a ponto de o leitor não conseguir ficar indiferente àquela atmosfera, assim como se quisesse estar naqueles salões, naquele palácio, deles desfrutar, bailar, pudesse, soubesse.

Um livro capaz de revelar de modo duro e lírico ao mesmo tempo a realidade social e política da Itália de então.

Livro prometido por ele sempre, e sempre adiado. Só escrito ao final da vida, com pressa e perfeição, a perdurar pelos tempos afora.

Muita coisa já foi escrita, produzida em torno de tão memorável obra.

Uma delas, o filme de Visconti, com o mesmo nome do livro, se quiserem em italiano O Gattopardo, de 1963. Visto por mim há muito tempo, e doido para assistir novamente.

Ganhou Palma de Ouro em Cannes, e contou com atores extraordinários, como Burt Lancaster, Alain Delon e Cláudia Cardinale. O primeiro, interpreta Dom Fabrizio Salina. Alain Delon, o inquieto e sedutor Tancredi Falconeri.

Cláudia Cardinale, Angelica, filha da tosca burguesia ascendente, a conquistar, pela beleza, sensualidade à flor da pele, surpreendente capacidade de sedução, o jovem Tancredi.

Tem alguma coisa de maquiavélico, o livro. No melhor sentido. Porque capaz de perceber a política, o jogo do poder. E de recusar, com riqueza, as simplificações.

Como era um erudito, não se descarte tenha Lampedusa lido O Príncipe, lição essencial escrita por Maquiavel em 1513, e cuja primeira edição surgiu em 1532, após a morte dele.

Do livro, emerge, à sombra do Príncipe, Tancredi Falconeri, o sobrinho mais que filho, o preferido de Lampedusa, a dar lições ao velho príncipe.

Apresenta-se para despedir-se do tio. Ia para as guerrilhas. O velho príncipe, inconformado.

Loucura. Meter-se com a corja de bandidos e trapaceiros. Um Falconeri havia de perfilar-se com o rei.

E Tancredi, amoroso, responde, em sentença a permanecer famosa

"Se nós não estivermos lá, eles fazem uma república. Se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude. Expliquei-me bem?
Tudo mudar para tudo permanecer na mesma."

O Príncipe de Salina vai testemunhar a ascensão de uma burguesia rústica, agora dona de patrimônios e do dinheiro.

Na rusticidade dela, ia ocupando território e buscando espaço.

Ele, o Príncipe, do alto da visão elegante e sábia, olhava com desdém para aquela nova espécie, a invadir o entorno dos sacros domínios, antes e ainda hoje dele, mas prestes a lhe escapar das mãos.

Insista-se: sem que nada pudesse ser feito por ele, sem que houvesse disposição para tanto também.

O velho mundo, tão belo, decompunha-se. O príncipe, diante do inevitável, rendia-se, olhando ao redor.

As recordações levavam-no à juventude, às paixões, ao casamento, para logo depois ser levado à reflexão sobre as desilusões, o tédio, o resto.

E só.

Náufrago à deriva, “numa jangada à mercê de correntes indomáveis”. As inevitáveis correntes indomáveis agora sepultariam definitivamente o velho mundo, representado pelo Príncipe.

Chegaram, as correntes indomáveis, inclusive pelas armas do jovem Tancredi. O capitalismo mostrava armas. Diria a que veio, sem que necessariamente, desmontasse a tradição siciliana.

O príncipe dirá dos sicilianos serem capazes sempre de manifestações oníricas. A sensualidade deles, desejo de olvido. Os tiros e facadas, desejo de morte.

A preguiça, desejo de imobilidade voluptuosa, outro modo de desejo de morte. O ar meditativo, o nada querendo escrutar os enigmas do nirvana.

O incrível fenômeno da formação de mitos, veneráveis se fossem autenticamente antigos, e não eram, na visão do Príncipe, mais do que sinistras tentativas de refúgio num passado a atrair os sicilianos apenas porque morto.

Tudo isso ele dizia em resposta a um convite para ser senador, não aceito.

Recorre até a Marx, evitando o nome, chamando-o apenas de “judeuzinho alemão” e a Proudhon, para atribuir a eles o pensamento de que o desolador estado de coisas daquela quadra tinha como culpado o feudalismo.

O sentimento de superioridade, a cintilar em todo olhar siciliano, considerado altives pelos sicilianos, na visão do Príncipe, não era mais que cegueira.

O Príncipe recolheu a lição de Tancredi. Não acontecera nenhuma revolução.Tudo continuaria como antes.

No salão de baile, entre contemplações, olha no teto os deuses reclinados em tronos dourados, olhando para baixo, a julgarem-se eternos. O narrador adianta-se no tempo nesse momento, contrariando os deuses:

Uma bomba fabricada em Pittsburgh, na Pensilvânia, devia em 1943, provar-lhes o contrário.

Morre de modo sereno, o Príncipe. Reflete sobre ela, ao senti-la próxima.

Mais: havia dezenas de anos sentia o fluido vital desprender-se de si, como os pequenos grãos de areia a escorregar um a um, sem pressa, pelo estreito orifício da ampulheta.

Nos momentos de silêncio, de introspecção, ouvia então o sussurro dos grãos de areia a deslizar levíssimos para longe, átimos de tempo a deixá-lo para sempre.

Mas isso não lhe dava nenhum mal-estar.

A imperceptível perda de vitalidade era, ao mesmo tempo, a prova da sensação de viver.

Nenhuma visão otimista diante da vida, às portas da morte:

"Tenho setenta e três anos, por alto terei vivido, verdadeiramente vivido, um total de dois... três anos no máximo.

E o sofrimento, o tédio, quanto tinham durado? Inútil cansar-se fazendo contas."

O resto, todo o resto: setenta anos. Setenta anos de sofrimento e tédio. Não era já um rio a irromper-se dele. Um oceano tempestuoso, eriçado de espuma e de vagalhões desenfreados.

E ela chegou. Levantou o véu, pudica. Pronta a ser possuída. Pareceu-lhe bela, muito bela. O fragor do mar aplacou-se de todo.

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros